Política / Emendas Parlamentares
ONG investigada pela PF recebeu R$ 2 milhões em emendas de Flávio Bolsonaro, Chiquinho Brazão e Chris Tonietto
Recursos foram destinados ao Ifop; investigação apura suspeitas de pagamentos indevidos e possíveis desvios de verbas enviadas a organizações sociais
24/09/2026
10:00
DA REDAÇÃO
Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Chiquinho Brazão e Chris Tonietto (PL-RJ)
O Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) recebeu R$ 2 milhões em emendas parlamentares indicadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pelo ex-deputado federal Chiquinho Brazão e pela deputada Chris Tonietto (PL-RJ). A entidade está entre as organizações alcançadas por investigação da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU) sobre a aplicação de recursos públicos destinados por parlamentares a organizações da sociedade civil no Rio de Janeiro.
Segundo as informações disponíveis, as indicações somaram R$ 200 mil de Flávio Bolsonaro, R$ 300 mil de Chris Tonietto e R$ 1,5 milhão de Chiquinho Brazão. As verbas foram indicadas em 2023, embora parte dos recursos tenha sido liberada posteriormente.
A investigação ganhou uma nova dimensão com mensagens atribuídas a Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, ex-assessor do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). O Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou, em fevereiro deste ano, a nove anos de prisão por integrar organização criminosa armada no caso Marielle.
A investigação sobre recursos destinados a organizações sociais resultou na Operação Emendatio, deflagrada pela PF e pela CGU em 9 de julho de 2026.
Oficialmente, a CGU informou que a operação investiga um suposto esquema de desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares federais destinadas a organizações da sociedade civil no Rio de Janeiro. Também são apuradas suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A operação cumpriu dois mandados de prisão preventiva e 21 de busca e apreensão, além de medidas de bloqueio patrimonial de R$ 100 milhões.
A existência da investigação não significa que os parlamentares responsáveis pelas indicações das emendas tenham participado de eventual desvio. O foco é esclarecer o caminho e a aplicação dos recursos públicos e individualizar eventuais responsabilidades.
De acordo com mensagens obtidas durante as investigações e divulgadas pela imprensa, Robson Calixto teria atuado na interlocução para conseguir a emenda de R$ 200 mil destinada por Flávio Bolsonaro ao Ifop.
Em outubro de 2023, Calixto teria enviado mensagem a Maria de Fátima Bezerra, assessora do senador, pedindo ajuda para conseguir recursos. Na conversa, posteriormente voltou a mencionar o Ifop. A emenda de Flávio foi destinada à entidade no mês seguinte, em 29 de novembro de 2023, segundo a documentação relatada pelas publicações que tiveram acesso às mensagens.
À época dessas conversas, Calixto trabalhava como assessor de Domingos Brazão no TCE-RJ.
A investigação busca esclarecer se a intermediação e o posterior repasse ao instituto tiveram alguma relação com o suposto esquema de desvio de recursos públicos investigado pela PF. A sequência temporal das mensagens e da emenda, isoladamente, não comprova participação do senador em eventual irregularidade.
A verba indicada por Flávio Bolsonaro seria destinada à compra de materiais para o projeto esportivo infantil Jogadores do Futuro. A emenda de Chris Tonietto, de R$ 300 mil, também tinha como finalidade um projeto voltado a crianças.
Conforme os relatos reunidos na investigação e divulgados pela imprensa, responsáveis por participantes teriam afirmado que materiais previstos nos projetos não foram entregues. Essas informações fazem parte dos elementos submetidos à apuração dos órgãos de controle.
Já os R$ 1,5 milhão indicados por Chiquinho Brazão seriam destinados a um projeto de capacitação de mulheres, com aulas de informática na Baixada Fluminense. Segundo o relato apresentado, esses recursos foram liberados em 2025, depois da prisão do então deputado.
A investigação deverá determinar quanto efetivamente foi executado, a destinação dada ao dinheiro e se houve irregularidade nos pagamentos realizados pela entidade.
A assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que a emenda destinada ao Ifop respeitou os procedimentos legais e os critérios técnicos exigidos para a liberação.
Segundo a manifestação apresentada pela defesa política do senador, “a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei”.
O Ifop, por sua vez, declarou desconhecer eventual atuação de Robson Calixto para conseguir a emenda e afirmou não manter relações com ele nem com a família Brazão. A entidade disse que contratou assessoria especializada para apresentar projetos a gabinetes parlamentares e negou ter mantido contato direto com Flávio Bolsonaro.
No material encaminhado, Chris Tonietto não havia se manifestado até a publicação da reportagem original.
O contexto envolvendo Calixto e os irmãos Brazão mudou neste ano com o julgamento do caso Marielle Franco.
Em 25 de fevereiro de 2026, a Primeira Turma do STF condenou Domingos Brazão e Chiquinho Brazão a 76 anos e três meses de prisão cada um pelos crimes de organização criminosa armada, dois homicídios qualificados e uma tentativa de homicídio qualificado.
Robson Calixto Fonseca recebeu pena de nove anos de prisão por integrar organização criminosa armada. O STF descreveu a estrutura criminosa julgada no processo como composta por milicianos e voltada à obtenção de vantagens econômicas e domínio político.
Em junho, a Primeira Turma rejeitou recursos e manteve as condenações dos cinco réus julgados no caso.
A apuração sobre as emendas destinadas ao Ifop, contudo, constitui uma frente investigativa própria. Caberá à PF e aos demais órgãos responsáveis estabelecer se houve desvio dos recursos, quem participou de eventuais irregularidades e qual foi a responsabilidade individual de cada pessoa investigada.
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