Saúde / Neurologia
Dificuldade para falar de Alex Escobar chama atenção para sinais da miastenia gravis
Doença autoimune provoca fraqueza muscular que pode piorar ao longo do dia; queda das pálpebras, visão dupla e dificuldade para engolir estão entre os sintomas
21/09/2026
08:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A dificuldade para falar apresentada pelo jornalista Alex Escobar durante uma transmissão ao vivo acabou levando à descoberta de um problema de saúde que exige atenção: a miastenia gravis, doença autoimune que interfere na comunicação entre nervos e músculos e provoca episódios de fraqueza muscular.
Escobar apresentou alteração na fala durante uma participação ao vivo no programa Encontro, em 22 de junho, enquanto trabalhava na cobertura da Copa do Mundo nos Estados Unidos. Antes da entrada, ele também havia percebido dificuldade para mastigar. Posteriormente, recebeu o diagnóstico de miastenia gravis e passou por cirurgia para retirada de um tumor no timo.
O caso chama atenção para uma característica importante da doença: os sintomas podem aparecer, melhorar e voltar posteriormente. O protocolo do Ministério da Saúde define a miastenia gravis como uma doença autoimune da junção neuromuscular caracterizada por fraqueza muscular flutuante, que tende a melhorar com repouso e piorar com esforço ou ao longo do dia.
O neurologista Thiago Nascimento, do Hospital Universitário da Universidade Federal de Sergipe (HU-UFS), explica que as manifestações oculares estão entre os sinais mais frequentes da miastenia.
Um deles é a ptose, nome médico dado à queda de uma ou das duas pálpebras. A alteração pode ser discreta inicialmente e tornar-se mais evidente à medida que o paciente se cansa. Outro sintoma possível é a visão dupla, que também pode aparecer de maneira intermitente.
Além dos olhos, a doença pode afetar músculos envolvidos na fala, mastigação e deglutição. A pessoa pode perceber a voz diferente ou anasalada, dificuldade para pronunciar palavras, mastigar alimentos ou engolir, especialmente depois de utilizar esses músculos por algum tempo.
O Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrame dos Estados Unidos (NINDS) também relaciona entre os principais sintomas a queda das pálpebras, visão dupla, dificuldade para engolir, alterações da fala e fraqueza nos braços, mãos, pernas e pescoço.
Atividades cotidianas podem ajudar a revelar o problema. Levantar de uma cadeira, pentear os cabelos, escovar os dentes ou manter os braços elevados podem se tornar progressivamente mais difíceis.
Segundo Thiago Nascimento, é importante diferenciar fraqueza muscular de uma sensação generalizada de cansaço.
“A fraqueza associada à miastenia pode se intensificar com a realização de atividades e ao longo do dia, enquanto a fadiga é uma sensação mais geral de indisposição e pode estar presente em diferentes doenças.”
Essa variação ajuda a explicar por que alguns pacientes demoram a procurar atendimento. Um sintoma pode estar presente em determinado momento e praticamente desaparecer depois, dando a impressão de que o problema foi passageiro.
A investigação começa com a análise dos sintomas e do histórico clínico. O diagnóstico pode incluir testes para identificação de anticorpos associados à doença e eletroneuromiografia, que avalia o funcionamento dos nervos e músculos.
O protocolo brasileiro confirma que o diagnóstico combina manifestações clínicas neuromusculares com exames sorológicos e estudo eletroneuromiográfico. Aproximadamente 85% dos pacientes apresentam anticorpos contra receptores de acetilcolina, enquanto outros podem apresentar diferentes perfis imunológicos.
“Às vezes o sintoma ocular pode passar despercebido pelo fato de ser um sintoma intermitente, ou seja, o paciente tem um dia, no outro dia já está normal, tendo idas e vindas de sintomas”, explica Thiago Nascimento.
Por isso, episódios recorrentes de pálpebra caída, visão dupla, alteração da fala ou fraqueza muscular devem ser relatados ao médico.
O timo, uma pequena glândula localizada no tórax, tem relação conhecida com a miastenia gravis. Segundo o protocolo do Ministério da Saúde, cerca de 70% dos pacientes apresentam hiperplasia do timo e aproximadamente 10% têm timoma, um tumor originado nessa glândula.
Isso não significa que todo paciente com miastenia tenha câncer. A investigação do timo faz parte da avaliação médica e, dependendo das características do caso, pode ser indicada a timectomia, cirurgia para retirada da glândula.
No caso de Alex Escobar, foi identificado um tumor no timo, posteriormente retirado cirurgicamente.
A miastenia gravis não possui atualmente tratamento curativo para todos os casos, mas existem estratégias capazes de controlar os sintomas, reduzir exacerbações e prolongar períodos de remissão.
Entre as opções está a piridostigmina, medicamento que atua na transmissão neuromuscular. Dependendo do quadro, também podem ser empregados corticoides, imunossupressores e outras terapias direcionadas à resposta imunológica. O tratamento é individualizado e requer acompanhamento médico.
O uso prolongado de corticoides também exige controle devido à possibilidade de efeitos adversos, entre eles alterações metabólicas, ósseas e cardiovasculares.
A complicação mais grave é a chamada crise miastênica, situação na qual a fraqueza compromete os músculos responsáveis pela respiração. Trata-se de uma emergência médica.
Falta de ar importante, dificuldade acentuada para engolir ou falar, fraqueza intensa no pescoço e piora rápida da força muscular exigem avaliação imediata em um serviço de emergência.
“O paciente não deve esperar, deve ir para a emergência”, alerta Thiago Nascimento.
O acompanhamento especializado é feito principalmente por neurologistas. No Sistema Único de Saúde (SUS), os fluxos variam conforme o município e o Estado, e o Ministério da Saúde mantém um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas específico para miastenia gravis, que estabelece parâmetros nacionais para diagnóstico, tratamento e acompanhamento da doença.
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