Justiça / Supremo
Mensagens de Vorcaro citam filhos de Fux e Kassio e advogado ligado a Mendonça
Diálogos extraídos do celular do ex-banqueiro mencionam pagamentos, viagens, encontros e articulações; registros, isoladamente, não comprovam repasses aos ministros nem interferência em decisões
19/09/2026
08:00
UOL
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Novas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ampliaram o número de integrantes do entorno do Supremo Tribunal Federal (STF) mencionados no material da investigação. Os diálogos fazem referências a pessoas próximas dos ministros Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e André Mendonça, incluindo filhos dos dois primeiros e um advogado que manteve contato com o terceiro.
As conversas foram divulgadas enquanto o Supremo enfrenta uma disputa interna sobre a condução das investigações relacionadas ao Banco Master. Parte do conteúdo foi encaminhada a gabinetes da Corte e passou a integrar a discussão sobre eventuais impedimentos e sobre a extensão das apurações.
Os registros precisam ser interpretados com cautela. As mensagens são fragmentadas e, por si só, não comprovam que os ministros receberam dinheiro ou benefícios, nem demonstram interferência deles em decisões judiciais. Em alguns episódios, as referências são feitas por terceiros e são contestadas pelos citados.
Uma das frentes envolve Kevin de Carvalho Marques, advogado e filho de Kassio Nunes Marques. Segundo material publicado pelo UOL, conversas atribuídas ao então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, mencionam pagamentos de R$ 500 mil mensais e fazem referência à Consult Inteligência Tributária, empresa de Teresina.
Dados atribuídos ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que a Consult recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master no período analisado. Kevin reconheceu ter recebido R$ 281,6 mil da Consult, mas afirmou que o dinheiro correspondeu a serviços tributários e negou ter trabalhado para o Banco Master ou recebido pagamentos de Vorcaro.
Portanto, a existência de mensagens mencionando R$ 500 mil mensais não equivale à comprovação de que esse valor tenha sido efetivamente pago a Kevin.
Outra sequência de mensagens envolve uma viagem internacional para cinco pessoas, prevista para ocorrer entre 8 e 18 de janeiro de 2025.
Em 5 de dezembro de 2024, um agente de viagens identificado como Leo Serrano encaminhou a Vorcaro uma mensagem que, segundo a reportagem, partiu de um dos números utilizados por Nunes Marques. O texto solicitava ajuda para organizar aproximadamente dez dias de viagem, incluindo Viena, Bratislava, Budapeste, Graz e Salzburgo, com guias e motoristas que falassem português ou espanhol.
Depois de encaminhar o pedido, o agente perguntou a Vorcaro se deveria atender o ministro diretamente ou faturar as despesas para o banqueiro.
Vorcaro respondeu: “Sim. Atende. Tudo.”
O agente insistiu sobre quem pagaria a conta: “E ele paga ou eu jogo procê essa bomba?”
Vorcaro respondeu apenas: “Me liga depois.”
Dez dias mais tarde, Serrano informou que o contato relacionado a Kassio havia deixado de responder. As mensagens disponíveis, portanto, não demonstram que a viagem tenha sido realizada nem que Vorcaro tenha efetivamente arcado com as despesas.
Há ainda uma conversa de fevereiro e março de 2025 entre Vorcaro e uma mulher identificada como Rayanna.
Em uma das mensagens, ela afirma que uma amiga teria “ficado com Kassio” e posteriormente cobra um valor. Vorcaro solicita os dados e a quantia, e a interlocutora responde “10” antes de encaminhar informações para pagamento.
O material divulgado não estabelece, sozinho, que o “Kassio” mencionado seja Kassio Nunes Marques, nem esclarece a natureza do encontro. Segundo reportagem sobre o episódio, a assessoria do ministro declarou que ele não tinha conhecimento do contexto das mensagens trocadas entre Vorcaro e Rayanna.
Nunes Marques também passou a ser mencionado em outra reportagem sobre a utilização de uma mansão no Rio de Janeiro durante o Carnaval de 2025 por uma pessoa identificada pelas iniciais “KN”. A identificação não está demonstrada apenas pelas iniciais.
O material também registra contatos entre Vorcaro e Rodrigo Fux, advogado e filho do ministro Luiz Fux.
As conversas teriam ocorrido entre maio de 2024 e agosto de 2025 e incluem combinações de encontros e referências a assuntos profissionais. Em uma das situações, Vorcaro pediu ajuda relacionada a um caso que não é identificado no conteúdo divulgado.
Também aparecem convites feitos pelo banqueiro para que Rodrigo e familiares frequentassem um camarote durante o Carnaval do Rio.
Em março de 2025, Rodrigo teria orientado Vorcaro a encaminhar um e-mail para a secretaria do gabinete de seu pai no Supremo. O conteúdo do assunto que seria tratado não aparece no material divulgado.
A assessoria de Rodrigo Fux afirmou que uma possível aproximação comercial não se concretizou e negou o recebimento de valores. As mensagens conhecidas não demonstram pagamento do Banco Master ao advogado.
Outro núcleo das conversas envolve Ciro Soares, advogado que participou de articulações favoráveis à indicação de André Mendonça ao STF e posteriormente intermediou contatos entre Vorcaro e o ministro.
Em 10 de outubro de 2024, Soares comunicou ao banqueiro uma decisão de Mendonça favorável ao então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL).
“Deu certo. Eu lhe disse. Ganhamos”, escreveu o advogado.
Naquele dia, Mendonça havia concedido habeas corpus relacionado às investigações contra Castro no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Pouco depois, Soares encaminhou a Vorcaro um documento aparentemente relacionado à decisão.
A conversa não esclarece por que Vorcaro acompanhava o assunto nem demonstra que ele tenha participado da defesa de Castro ou interferido na decisão de Mendonça.
Ciro Soares também aparece como um dos intermediários dos contatos que culminaram em um encontro entre Vorcaro e André Mendonça, em março de 2025.
O encontro foi confirmado pelo gabinete do ministro. Segundo a versão apresentada por Mendonça, Vorcaro foi recebido uma única vez, por iniciativa do próprio empresário, e o ministro limitou-se a ouvi-lo. O gabinete informou ainda ter preservado os memoriais entregues naquela ocasião.
Mensagens posteriormente obtidas pela PF indicam também que Vorcaro recebeu convites relacionados ao Instituto Iter, organização fundada por Mendonça. Em uma das situações, o banqueiro foi chamado para um evento e depois teve sua presença desaconselhada.
Em uma conversa de 26 de maio de 2025, Ciro Soares reclamou da resistência do deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) à participação de Vorcaro em um evento.
O material divulgado não permite concluir que Vorcaro tenha comparecido.
Os novos diálogos surgem em um momento em que diferentes integrantes do STF aparecem, de maneiras distintas, no material recuperado do celular de Vorcaro. Além de Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e André Mendonça, reportagens já revelaram referências a outros magistrados e autoridades.
A situação levou ministros a solicitar acesso ao conteúdo integral do aparelho e provocou discussões sobre impedimentos, competência e a condução das investigações.
O ponto central, porém, permanece sendo a diferença entre uma referência encontrada em mensagens privadas e a comprovação de uma conduta irregular. Nos episódios envolvendo os três ministros, o material divulgado até agora apresenta contatos, intermediários e referências a pessoas próximas, mas cada eventual pagamento, benefício ou interferência em decisão judicial depende de comprovação independente e da apuração pelas autoridades competentes.
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