Justiça / Supremo
Críticas a Mendonça crescem após revelação de encontros e contatos ligados a Vorcaro
Relações do ministro com o ex-banqueiro e Cezinha de Madureira alimentam questionamentos sobre sua atuação no caso Master; Mendonça nega irregularidades
19/09/2026
08:30
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
As revelações sobre contatos de André Mendonça com Daniel Vorcaro e pessoas próximas ao ex-controlador do Banco Master colocaram o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) no centro de uma disputa que ultrapassa os limites da investigação financeira e alcança o ambiente político e eleitoral. Reportagens recentes confirmaram que Mendonça recebeu Vorcaro fora do STF, em março de 2025, e que o encontro foi articulado por intermediários, entre eles o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP). (Folha de S.Paulo)
As informações têm provocado críticas à maneira como Mendonça conduziu desdobramentos do caso Master, especialmente porque o ministro passou a determinar diligências relacionadas a outros integrantes do Supremo e autoridades mencionadas no material extraído do celular de Vorcaro.
Ao mesmo tempo, não há, nos elementos públicos conhecidos até agora, comprovação de que Mendonça tenha recebido dinheiro de Vorcaro ou alterado decisão judicial em benefício do banqueiro. O ministro rejeita suspeitas sobre sua conduta e afirma que sua atuação ocorreu dentro das atribuições judiciais.
Mendonça reconheceu que recebeu Vorcaro em 14 de março de 2025, na sede do Instituto Iter, em São Paulo. Segundo o ministro, a reunião durou aproximadamente 20 a 30 minutos e tratou de precatórios relacionados a um processo que interessava ao Banco Master. (BOL)
O encontro não constava da agenda oficial do STF.
A articulação envolveu Cezinha de Madureira, além do advogado Ciro Rocha Soares e de outros interlocutores. Mensagens recuperadas do celular do banqueiro mostram que, na véspera, Cezinha informou a Vorcaro sobre a reunião. Pouco antes do encontro, o deputado escreveu que o ministro já aguardava o empresário. (Folha de S.Paulo)
Mendonça sustenta que Vorcaro procurou o ministro para tratar da Suspensão de Tutela Provisória 976, relacionada a créditos de precatórios de interesse do banco. Segundo sua versão, naquele momento o julgamento estava interrompido por pedido de vista de outro ministro. (UOL Notícias)
Ainda em março, Mendonça recebeu no STF um advogado ligado a Vorcaro sobre o mesmo assunto. O ministro afirma que mantém em seu gabinete os memoriais apresentados nos encontros. (UOL Notícias)
A presença de Cezinha de Madureira nessa rede de contatos ganhou maior relevância depois que o parlamentar passou a ser alvo de uma investigação da Polícia Federal.
Em pedido relacionado às buscas contra o deputado, a PF apontou suspeitas de uma estrutura destinada à chamada “comercialização de influência” perante integrantes do STF, do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A investigação, contudo, ressaltou que os elementos apresentados naquele procedimento não indicavam irregularidades dos magistrados mencionados. Cezinha nega as acusações e afirma confiar na Justiça. (Folha de S.Paulo)
Essa distinção é relevante: a investigação sobre eventuais atos praticados por intermediários não significa, automaticamente, que ministros citados tenham participado de qualquer negociação irregular.
As mensagens revelaram ainda contatos posteriores ao encontro de março.
Em maio de 2025, Vorcaro recebeu convite relacionado a um evento do Instituto Iter, entidade fundada por Mendonça. Posteriormente, houve uma discussão entre os intermediários sobre a conveniência da presença do banqueiro. (Folha de S.Paulo)
Ciro Soares escreveu que “o homem” havia pedido que Vorcaro fosse chamado para o evento, mas que Cezinha considerava melhor que ele não comparecesse.
As conversas divulgadas não esclarecem quem era a pessoa chamada de “o homem” naquele trecho específico e tampouco demonstram que Vorcaro tenha efetivamente participado do evento. (Folha de S.Paulo)
Outra revelação colocou o Instituto Iter sob atenção. A entidade recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, empresa de Lucas Kallas, empresário que manteve negócios anteriores com Vorcaro. (UOL Notícias)
Segundo as informações divulgadas, o acordo foi celebrado em abril de 2024 na forma de um mútuo conversível destinado à estruturação do instituto. O Iter começou a devolver os recursos em janeiro de 2026.
A entidade e a Cedro negam irregularidades. O fato de Kallas ter mantido relações empresariais anteriores com Vorcaro não demonstra que o financiamento ao instituto tenha sido realizado pelo ex-banqueiro ou em seu benefício. (UOL Notícias)
As controvérsias chegaram também ao campo eleitoral porque Mendonça integra o TSE.
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) apresentou à Procuradoria-Geral da República (PGR) um pedido para afastar cautelarmente o ministro das funções no tribunal eleitoral. O parlamentar sustenta que episódios envolvendo o caso Master levantariam dúvidas sobre sua imparcialidade. A acusação representa a posição política e jurídica do deputado e ainda depende de apreciação pelas autoridades competentes. (Folha de S.Paulo)
Também houve críticas públicas dentro do próprio Supremo. A condução do caso Master colocou Mendonça em confronto com outros ministros e com a PGR, que questionou aspectos jurídicos do relatório produzido pela PF sob determinação do magistrado. (UOL Notícias)
Mendonça, por sua vez, sustenta a legalidade de suas decisões e rejeita a interpretação de que tenha utilizado o processo com finalidade política.
Mendonça chegou ao Supremo após ser indicado pelo então presidente Jair Bolsonaro, em 2021, e aprovado pelo Senado.
Essa origem política passou a ser utilizada por críticos para relacionar sua atuação atual ao bolsonarismo. A indicação por um presidente, porém, não estabelece por si só que um ministro do STF atue judicialmente em nome do grupo político responsável por sua nomeação. Qualquer avaliação desse tipo depende de atos concretos e de sua fundamentação.
Também é necessário separar essa relação política dos atos de 8 de janeiro de 2023. O STF condenou participantes das invasões e depredações das sedes dos Três Poderes por crimes que incluíram tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Isso não permite atribuir automaticamente esses crimes a todos os integrantes ou apoiadores do campo político associado ao ex-presidente. (Supremo Tribunal Federal)
A tese de que Mendonça estaria sendo tratado como um “cordeirinho” enquanto outros ministros, como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino, recebem maior volume de críticas é uma interpretação sobre a cobertura política e jornalística, e não um fato objetivamente demonstrado.
Da mesma forma, afirmar que o objetivo do ministro seria “aparelhar o Judiciário para fragilizar o processo eleitoral” ou criar ambiente favorável ao golpismo exigiria evidências sobre intenção e finalidade que os fatos públicos disponíveis não estabelecem.
O que está documentado é que Mendonça foi indicado ao STF por Bolsonaro, encontrou-se com Vorcaro fora do tribunal, recebeu posteriormente um advogado do banqueiro, teve contatos intermediados por Cezinha de Madureira e conduz decisões relevantes relacionadas ao caso Master. (BOL)
Esses fatos podem fundamentar questionamentos institucionais e políticos. A conclusão de que constituiriam uma estratégia deliberada para interferir nas eleições, entretanto, permanece como acusação ou interpretação de seus críticos, e não como resultado comprovado das investigações conhecidas até este sábado (19).
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.
Leia Também
Leia Mais
Mensagens de Vorcaro citam “Kassio”, viagem e pagamentos; Nunes Marques nega irregularidades
Leia Mais
Mensagens de Vorcaro citam filhos de Fux e Kassio e advogado ligado a Mendonça
Leia Mais
WhatsApp ganha novo atalho no iPhone para encontrar mensagens dentro das conversas
Leia Mais
CNHs vencidas desde junho voltam a valer até dezembro; entenda quem tem direito
Municípios