Saúde / Prevenção
Menos açúcar no início da vida é associado a risco 46% menor de Alzheimer, aponta estudo
Pesquisa acompanhou dados de mais de 60 mil pessoas e encontrou associação entre restrição de açúcar nos primeiros mil dias de vida e menor risco de demência décadas depois
21/09/2026
07:45
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Neste 21 de setembro, Dia Mundial da Conscientização sobre a Doença de Alzheimer, um estudo publicado em julho reforça a discussão sobre como hábitos adotados ainda no início da vida podem estar relacionados à saúde cerebral na velhice. A pesquisa encontrou risco 46% menor de Alzheimer entre pessoas submetidas a menor disponibilidade de açúcar durante os primeiros mil dias após a concepção.
O trabalho, publicado em 22 de julho de 2026 na revista científica npj Aging, analisou 60.394 participantes do UK Biobank, nascidos no Reino Unido entre 1951 e 1956. Os pesquisadores aproveitaram o racionamento britânico de açúcar do pós-guerra como um experimento natural para comparar pessoas expostas à restrição no início da vida com aquelas nascidas depois do fim do racionamento.
Os resultados apontaram que a exposição à restrição de açúcar durante os primeiros mil dias a partir da concepção, período que inclui gestação e primeiros anos da infância, esteve associada a uma redução de 27% no risco de demência por todas as causas e de 46% no risco de doença de Alzheimer. Também foram observadas associações com riscos menores de depressão e ansiedade.
Os próprios resultados, entretanto, devem ser interpretados com cautela. O estudo encontrou uma associação, e não demonstra que simplesmente reduzir o açúcar na infância seja capaz, isoladamente, de prevenir Alzheimer. Outras pesquisas recentes sobre o racionamento britânico chegaram a conclusões semelhantes sobre possíveis benefícios de longo prazo, mas os pesquisadores destacam a necessidade de estudos adicionais para esclarecer causalidade e mecanismos biológicos.
O médico neuropediatra Gilberto de Brito Henriques, da Afya Educação Médica Belo Horizonte, explica que os primeiros anos representam uma fase de intensa formação e organização cerebral.
“Desde o nascimento, o ser humano começa a desenvolver funções como a visão, a audição e os movimentos voluntários, em um processo marcado por intensa formação de novas sinapses e produção de neurônios. Para que esse processo aconteça de forma satisfatória, três aspectos são fundamentais: uma boa saúde biológica, estímulos adequados e um substrato nutricional e anatômico apropriado.”
Segundo o especialista, alimentação adequada deve fazer parte de um conjunto de cuidados. A construção de hábitos alimentares com menor presença de açúcar adicionado desde cedo pode contribuir para padrões mais saudáveis que se mantenham durante a vida.
“Mais importante do que se prender a uma quantidade exata é criar o hábito de consumir o mínimo possível de açúcar. O ideal é priorizar os açúcares naturalmente presentes nos alimentos, evitando adicionar açúcar a sucos e reduzindo o consumo de doces, balas e refrigerantes.”
O desafio tende a crescer com o envelhecimento da população. Estimativas utilizadas em estudos brasileiros indicam que aproximadamente 8,5% das pessoas com 60 anos ou mais convivem com alguma forma de demência no país, o equivalente a cerca de 2,71 milhões de pessoas. As projeções apontam para aproximadamente 5,6 milhões até 2050.
A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência e provoca comprometimento progressivo da memória e de outras funções cognitivas, afetando também linguagem, orientação, atenção e capacidade de planejamento.
O neurologista Marcelo José da Silva de Magalhães, professor da Afya Montes Claros, explica que a origem da doença é multifatorial, envolvendo fatores genéticos, biológicos e ambientais.
“Entre as alterações cerebrais, destacam-se o acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau. Algumas condições e hábitos podem aumentar o risco ou contribuir para o declínio cognitivo, como inatividade física, hipertensão, diabetes mal controlada, obesidade, alimentação inadequada, consumo excessivo de álcool, isolamento social, perda auditiva não corrigida, baixa escolaridade e traumatismo craniano.”
Os especialistas ressaltam que cuidar do cérebro desde cedo vai muito além de controlar o consumo de açúcar. Atividade física, leitura, aprendizagem, convivência social, controle de fatores cardiovasculares e estímulos intelectuais fazem parte de uma estratégia mais ampla para promover saúde ao longo da vida.
Para as crianças, atividades como leitura, música, aprendizagem de outros idiomas, exercícios físicos e convivência social ajudam a criar uma rotina favorável ao desenvolvimento. A prevenção de traumatismos cranianos, inclusive com equipamentos de proteção adequados durante determinadas práticas esportivas, também é importante.
“Crianças tendem a reproduzir comportamentos observados em seus pais. Assim, ao adotarmos hábitos saudáveis no dia a dia, não apenas cuidamos da nossa própria saúde, mas também oferecemos aos nossos filhos modelos positivos que podem contribuir para a construção de um estilo de vida saudável ao longo de toda a vida”, conclui Marcelo Magalhães.
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