Política / Diplomacia
Abin alerta governo e TSE para risco de interferência dos EUA nas eleições brasileiras
Relatório reservado aponta cenário crítico de pressão externa sobre o Brasil; documento foi enviado à Presidência, ao TSE e ao Ministério da Justiça
20/09/2026
12:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elaborou um relatório reservado no qual avalia riscos de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. O documento foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. A existência do relatório foi divulgada neste fim de semana e confirmada pela TV Brasil, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).
A avaliação ocorre a duas semanas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. O documento não afirma que uma interferência eleitoral norte-americana esteja comprovada. Trata-se de uma análise de risco produzida pela inteligência brasileira, que aponta possibilidade de agravamento das pressões externas no período eleitoral.
Segundo o relatório, a Abin atribui um “nível de criticidade” ao cenário e relaciona a preocupação à política externa do segundo governo do presidente norte-americano Donald Trump, especialmente à estratégia dos Estados Unidos para ampliar sua influência na América Latina e reduzir a presença de rivais, entre eles a China, em setores considerados estratégicos. A existência dessa avaliação também foi noticiada pela Folha de S.Paulo.
A preocupação da inteligência brasileira surge depois de uma sequência de atritos diplomáticos e comerciais entre Brasília e Washington.
Desde 2025, os dois países enfrentaram divergências envolvendo tarifas comerciais, decisões do Judiciário brasileiro, plataformas digitais e sanções impostas pelos Estados Unidos. O material apresentado pela Agência Brasil recorda, entre outros episódios, as sanções que chegaram a atingir o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, posteriormente retirados da lista da Lei Magnitsky.
O relatório também menciona medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos. Em julho de 2026, Washington anunciou uma sobretaxa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, atingindo, segundo o texto, aproximadamente 19% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano. Posteriormente, outra tarifa de 12,5% foi aplicada a determinados produtos.
Apesar das divergências, os dois governos mantêm canais de negociação. Em 31 de agosto, os ministérios brasileiros das Relações Exteriores e do Desenvolvimento confirmaram oficialmente uma reunião com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, para avançar nas negociações sobre tarifas aplicadas aos produtos brasileiros.
Outro foco de tensão envolve o tratamento dado pelos Estados Unidos às organizações criminosas brasileiras.
Em maio, o governo norte-americano passou a designar Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O governo brasileiro havia se manifestado contra essa classificação.
Na última terça-feira (15), Trump voltou ao tema em documento encaminhado ao Congresso dos Estados Unidos. O presidente norte-americano afirmou que, na avaliação de seu governo, o Brasil não conseguiu enfrentar adequadamente PCC e CV. O Ministério da Justiça brasileiro contestou as críticas e apresentou ações adotadas pelo país contra o crime organizado.
Brasil e Estados Unidos, entretanto, também mantêm cooperação nessa área. Em abril, os dois governos anunciaram acordo para ampliar o combate ao tráfico internacional de armas e drogas.
Mesmo em meio às divergências, Lula e Trump mantiveram encontros e conversas telefônicas nos últimos meses.
Segundo o levantamento da Agência Brasil, depois de um breve contato durante a Assembleia Geral da ONU de 2025, os dois presidentes se encontraram em Kuala Lumpur, na Malásia. Outro encontro ocorreu em maio de 2026, em Washington, quando discutiram principalmente a relação comercial e o combate ao crime organizado.
Os dois também conversaram por telefone pelo menos quatro vezes. O contato mais recente citado no levantamento ocorreu em agosto, durou cerca de 1h20 e teve como temas as negociações comerciais e conflitos internacionais.
Em 21 de agosto, o governo brasileiro informou oficialmente que uma conversa entre Lula e Trump abriu caminho para a retomada das negociações comerciais entre as duas administrações.
Lula e Trump voltarão a estar no mesmo ambiente na terça-feira (22), durante a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.
Como presidente do Brasil, Lula fará o primeiro discurso do Debate Geral. Trump está programado para discursar em seguida. Até este domingo (20), não há reunião bilateral confirmada entre os dois presidentes.
O governo brasileiro pretende levar ao discurso de Lula temas relacionados à soberania nacional, multilateralismo, democracia e não interferência externa, além de assuntos como conflitos internacionais, meio ambiente e combate ao crime organizado.
Nesse contexto, o relatório da Abin acrescenta um componente sensível à viagem presidencial. A avaliação de risco da agência ocorre quando o processo eleitoral brasileiro entra em sua fase final, mas, até o momento, o documento divulgado não constitui prova de que os Estados Unidos estejam efetivamente interferindo na votação de 2026. Ele registra uma avaliação preventiva da inteligência brasileira sobre riscos e pressões externas no período eleitoral.
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