Justiça / Master
Mensagens indicam que Vorcaro pediu a Sicário certificados de vacinação com data retroativa
Diálogos de dezembro de 2024 mostram envio de dados pessoais e documentos contra febre amarela; assessoria de Monique Alfradique afirma que atriz foi vacinada regularmente
19/09/2026
12:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, indicam que o empresário solicitou a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário, a obtenção de certificados internacionais de vacinação contra a febre amarela com datas retroativas. Os diálogos foram trocados em 12 de dezembro de 2024 e fazem parte do material obtido nas investigações envolvendo o banqueiro. (C-Level)
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Vorcaro enviou a Sicário um modelo de certificado e pediu a emissão de outros dois documentos. Durante a conversa, foram encaminhados dados pessoais da atriz Monique Alfradique, incluindo nome completo, CPF e data de nascimento. Horas depois, o ex-banqueiro recebeu arquivos que seriam os certificados solicitados. (C-Level)
Não há evidência pública de que a atriz tenha participado do pedido ou soubesse da suposta adulteração. A assessoria de Monique afirma que suas doses contra a febre amarela foram aplicadas regularmente em unidades de saúde credenciadas, sendo a mais recente em 22 de abril de 2024, na Fiocruz. (C-Level)
A troca de mensagens ocorreu entre 8h57 e 13h30 daquele dia.
Inicialmente, Vorcaro encaminhou a Sicário um certificado de vacinação e escreveu que precisava obter outros dois documentos semelhantes.
Mais tarde, Sicário repassou uma mensagem atribuída a um interlocutor não identificado informando que um dos documentos estava pronto e perguntando se seria necessário inserir as informações no sistema.
Na sequência, Mourão solicitou o CPF da pessoa para concluir o procedimento. Vorcaro então enviou os dados pessoais de Monique Alfradique. (C-Level)
Por volta das 13h25, Sicário encaminhou novas mensagens ao banqueiro. Uma delas informava que havia sido registrada uma aplicação em 9 de abril de 2024.
O interlocutor também mencionou a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e afirmou que os dados já constariam do sistema, embora a geração do documento ainda estivesse sendo processada. Segundo a mensagem, um PDF havia sido preparado como alternativa caso o documento oficial não fosse disponibilizado a tempo. (C-Level)
Sicário posteriormente enviou a Vorcaro o endereço eletrônico do Meu SUS Digital e dois arquivos apresentados como certificados de vacinação.
A existência dessas mensagens indica uma solicitação para produzir documentos com informações retroativas, mas a reportagem disponível não esclarece quem teria feito eventual lançamento no sistema nem permite concluir, sem perícia e outras provas, como os arquivos foram produzidos.
Questionado sobre o episódio, o Ministério da Saúde afirmou que os sistemas do SUS possuem mecanismos de segurança, controle de acesso e rastreabilidade destinados a preservar a integridade das informações.
A pasta informou ainda que não há registro de comprometimento desses mecanismos. Também ressaltou que informações relacionadas à saúde são consideradas dados pessoais protegidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). (C-Level)
Normalmente, as informações sobre vacinas aplicadas pelo SUS são registradas por profissionais de saúde e incluem dados como lote, fabricante e identificação de quem realizou a aplicação. Esses registros alimentam os sistemas oficiais que permitem posteriormente a emissão dos comprovantes.
A presença dos dados de Monique Alfradique nas conversas não significa que a atriz tenha solicitado ou autorizado eventual alteração.
Sua assessoria afirmou que “as duas doses da vacina contra a febre amarela ministradas em Monique Alfradique ocorreram de forma absolutamente regular” em unidades devidamente credenciadas. (C-Level)
Segundo a manifestação, a última aplicação ocorreu na Fiocruz, em 22 de abril de 2024.
A defesa de Daniel Vorcaro, procurada pela reportagem responsável pela revelação, não apresentou manifestação sobre o conteúdo das mensagens. (C-Level)
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão foi preso em 4 de março de 2026, durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. A PF o apontava como um dos responsáveis por atividades relacionadas ao grupo conhecido como “A Turma”, investigado por obtenção de informações sigilosas, monitoramento e intimidação de pessoas consideradas adversárias dos interesses de Vorcaro. (CNN Brasil)
Mourão atentou contra a própria vida enquanto estava sob custódia na Superintendência da PF em Minas Gerais e foi levado ao Hospital João XXIII, em Belo Horizonte. A morte foi oficialmente declarada em 6 de março de 2026. Laudos e imagens posteriormente incorporados ao processo apontaram suicídio e não encontraram evidências de participação de terceiros. (UOL Notícias)
Investigações da PF atribuem ao grupo ligado a Sicário atividades como obtenção indevida de informações e intimidação. As conclusões sobre responsabilidades individuais permanecem sujeitas aos respectivos processos e à análise judicial. (Folha de S.Paulo)
O episódio também remete a outra investigação envolvendo registros de vacinação. Em março de 2024, a PF indiciou o então ex-presidente Jair Bolsonaro por associação criminosa e inserção de dados falsos em sistema de informações na apuração sobre certificados de vacinação contra a Covid-19. (Notícias STF)
O caso, porém, foi arquivado pelo STF em 28 de março de 2025, após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR). A PGR considerou que não havia elementos independentes suficientes para comprovar os crimes atribuídos a Bolsonaro, além das declarações de colaboração premiada. O ministro Alexandre de Moraes acolheu o pedido. (Notícias STF)
No episódio envolvendo Vorcaro, a apuração agora poderá buscar esclarecer se os certificados mencionados nas conversas foram efetivamente adulterados, quem teria produzido ou inserido eventuais informações e se os documentos chegaram a ser utilizados. As mensagens reveladas constituem elementos da investigação, mas a eventual responsabilização criminal depende da comprovação dos fatos e da participação de cada envolvido.
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