Política / Eleições 2026
Flávio Bolsonaro evita detalhar repasse de R$ 61 milhões ligado a Vorcaro para filme sobre o pai
Candidato afirma que produtora já prestou contas de “Dark Horse”, mas contrato, financiadores e movimentações do fundo americano seguem sem divulgação pública.
26/08/2026
12:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) deixou de apresentar pessoalmente a prestação de contas detalhada que havia prometido sobre o financiamento de “Dark Horse”, filme dedicado à trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O projeto recebeu recursos intermediados por um fundo dos Estados Unidos e teve pagamentos atribuídos ao empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
O caso ganhou repercussão depois da divulgação de mensagens que, segundo reportagem do The Intercept, mostrariam conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre recursos para financiar a produção. O valor total negociado teria chegado a R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido efetivamente repassados pelo empresário.
As transferências teriam partido da Entre Investimentos e Participações, empresa relacionada a Vorcaro, com destino ao Havengate, fundo sediado no Texas, Estados Unidos. A estrutura é controlada por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
A movimentação financeira passou a ser investigada pela Polícia Federal (PF) para esclarecer a origem e o destino dos recursos e verificar se parte do dinheiro relacionado ao projeto cinematográfico teria sido utilizada para despesas de Eduardo Bolsonaro.
Até o momento, porém, não há conclusão apresentada no material sobre eventual irregularidade nos repasses.
Em 19 de maio, diante das primeiras informações sobre o financiamento, Flávio afirmou publicamente que havia solicitado à produtora e ao fundo uma prestação de contas sobre os gastos.
“Quero acrescentar duas coisas que foram os meus pedidos tanto à produtora quanto ao fundo: que eles se organizassem para fazer uma prestação de contas a todo mundo das despesas que foram feitas em função desse investimento do filme, de forma transparente, em até 30 dias. Foi isso que eu pedi”, declarou na ocasião.
Dias antes, o senador também havia indicado que poderia tornar público o contrato de financiamento, desde que houvesse autorização de seus advogados.
Flávio sustentou que uma cláusula de confidencialidade existente no documento teria sido a razão para ter negado anteriormente conhecer Vorcaro.
Passado o período mencionado pelo parlamentar, entretanto, a divulgação pública detalhada não ocorreu nos termos inicialmente anunciados.
A campanha passou a sustentar que a responsabilidade pela prestação de contas caberia à Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme.
A Go Up Entertainment apresentou informações financeiras no âmbito de um inquérito conduzido pela Polícia Civil de São Paulo.
A investigação apura se recursos destinados ao filme teriam sido desviados de um contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama, também proprietária da produtora.
O documento apresentado pela defesa de Karina consiste em uma perícia privada, elaborada a partir de contratos, extratos bancários, planilhas, demonstrativos de despesas e outros documentos disponibilizados aos peritos pela própria produtora.
Segundo o laudo, “Dark Horse” já teria consumido aproximadamente R$ 75,2 milhões. A perícia sustenta que a produção foi financiada com investimentos privados e afirma não ter identificado utilização de recursos provenientes de outros contratos públicos, emendas parlamentares ou da Lei Rouanet.
O material, porém, não apresentou publicamente uma relação detalhada dos financiadores, contratos e notas fiscais, nem discriminou individualmente despesas como pagamentos de elenco, técnicos, hospedagem, alimentação e logística.
Por se tratar de perícia contratada pela defesa, suas conclusões integram os elementos apresentados pelos envolvidos e não equivalem, por si só, a uma conclusão das autoridades responsáveis pelas investigações.
O mesmo laudo informa que o fundo americano Havengate celebrou, em 24 de fevereiro de 2025, um contrato para investir na produção.
O aporte informado foi de US$ 13,4 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 75,2 milhões na referência utilizada pelo documento.
Apesar do valor, não foram divulgados no material os detalhes completos sobre a composição do investimento e o caminho percorrido pelos recursos até sua aplicação nas despesas da produção.
Essa ausência de detalhamento mantém dúvidas sobre a relação entre os R$ 61 milhões atribuídos a Vorcaro, o aporte informado pelo Havengate e os R$ 75,2 milhões apontados como custo do filme até então.
O caso ganhou novo desdobramento na segunda-feira (24). O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a acessar elementos reunidos pela Polícia Civil paulista sobre a Go Up Entertainment.
O material poderá ser utilizado em outra investigação relacionada à destinação de emendas parlamentares à produtora, procedimento que está sob relatoria de Dino.
Com o compartilhamento, investigadores federais poderão confrontar informações financeiras, contratos e outros elementos reunidos pelas autoridades paulistas com os dados existentes nas apurações federais.
Questionado novamente sobre a divulgação do contrato e a prestação de contas, Flávio Bolsonaro passou a sustentar que as explicações necessárias já foram apresentadas pela produtora.
Na segunda-feira, ao ser perguntado se havia desistido de tornar público o contrato relacionado ao financiamento, reagiu às cobranças.
“Olha só, vocês vão parar no tempo? O Brasil está lambendo em chamas, todo mundo endividado, Brasil quebrado, vocês querem insistir com relação de fundo privado, que não tem contrapartida pública de nada?”, respondeu.
Em seguida, tentou afastar politicamente sua imagem da de Vorcaro.
“Vocês não vão me colocar na mesma página desse cara. Hoje o governo Lula [PT] que deve explicações, vão cobrar explicações dele”, declarou.
A assessoria da campanha de Flávio Bolsonaro afirmou na terça-feira (25) que a prestação de contas solicitada pelo senador já teria sido realizada pela Go Up e que não haveria irregularidades no financiamento do longa-metragem.
Segundo a campanha, caberia à própria produtora divulgar o balanço.
Em relação ao Havengate, a assessoria sustenta que o fundo está sujeito a regras de confidencialidade nos Estados Unidos e que somente poderia prestar contas às autoridades americanas. O mesmo argumento é utilizado para justificar a não divulgação do contrato relacionado a Vorcaro.
Assim, embora exista um laudo privado sobre aproximadamente R$ 75,2 milhões aplicados na produção, permanecem sem divulgação pública detalhada o contrato citado por Flávio, a identificação completa dos financiadores e a discriminação das despesas. As investigações em andamento deverão esclarecer se os recursos tiveram exclusivamente a destinação privada alegada pelos responsáveis ou se existem fatos com repercussão nas apurações conduzidas pelas autoridades.
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