Campo Grande (MS), Segunda-feira, 18 de Maio de 2026

Política / Investigação

Declarações de Flávio, Eduardo e Mário Frias expõem versões contraditórias sobre financiamento de filme de Bolsonaro

Mensagens e documentos apontam negociações com Daniel Vorcaro para bancar “Dark Horse”, enquanto aliados tentam explicar origem e gestão dos recursos

17/05/2026

16:00

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

As explicações dadas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pelo deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) e pelo deputado federal Mário Frias sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), têm sido marcadas por mudanças de versão e contradições públicas.

O caso ganhou repercussão após documentos e mensagens obtidos pelo The Intercept Brasil e confirmados pela TV Globo indicarem que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, comprometeu-se a repassar cerca de R$ 134 milhões para financiar o longa. Desse total, ao menos R$ 61 milhões teriam sido pagos. As negociações envolveram contatos diretos de Flávio Bolsonaro, que pedia recursos ao empresário.

Daniel Vorcaro está preso em São Paulo, acusado pela Polícia Federal de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras que, segundo a investigação, pode chegar a R$ 12 bilhões. A relação do banqueiro com integrantes da família Bolsonaro passou a ser um dos pontos centrais da crise envolvendo a pré-campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Antes da revelação das mensagens, Flávio Bolsonaro vinha tentando associar o escândalo do Banco Master ao governo Lula e ao PT. O senador chegou a dizer que nunca havia tido contato com Vorcaro. Depois da divulgação dos diálogos, admitiu que mentiu sobre a relação com o banqueiro e alegou que havia uma cláusula de confidencialidade relacionada ao contrato de financiamento do filme.

As contradições também envolvem Eduardo Bolsonaro. Inicialmente, ele disse ter apenas apresentado um advogado responsável pela estrutura financeira do projeto. Depois, com a divulgação de um contrato em que aparece formalmente como produtor-executivo, admitiu que assinou o documento. O contrato atribuía a Eduardo funções relacionadas à captação de recursos, decisões estratégicas e preparação de documentos para investidores.

Mário Frias, também ligado à produção do filme, afirmou inicialmente que não havia “um único centavo” de Daniel Vorcaro em “Dark Horse”. No dia seguinte, recuou e passou a dizer que o relacionamento jurídico da produção era com a empresa Entre Investimentos e Participações, ligada a estruturas que atuavam em parceria com empresas de Vorcaro, e não diretamente com o banqueiro.

Flávio muda versão sobre relação com Vorcaro

Antes de as mensagens virem a público, Flávio Bolsonaro usou, em um evento de pré-campanha em Santa Catarina, uma camiseta com a frase “O PIX é do Bolsonaro; o Master é do Lula”. Também defendia a criação de uma CPMI para investigar o escândalo do Banco Master.

Com a divulgação dos diálogos, porém, surgiu uma relação direta entre o senador e Daniel Vorcaro. Nas mensagens, Flávio tratava o banqueiro como “irmão”, “irmãozinho” e “irmãozão”. Em um áudio enviado em setembro de 2025, ele relatou dificuldades financeiras ligadas ao filme.

Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. [...] Tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso”, afirmou Flávio Bolsonaro em uma das mensagens.

Para justificar o tratamento, o senador disse que chamar alguém de “irmão” seria apenas uma expressão comum entre cariocas, comparando o uso ao tratamento adotado por vendedores ambulantes em praias.

Um dia antes da prisão de Daniel Vorcaro, em 16 de novembro de 2025, Flávio escreveu ao banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”

Depois da repercussão, o senador confirmou ter pedido dinheiro a Vorcaro, mas afirmou que se tratava de “patrocínio privado para um filme privado” sobre a história do pai. Ele também negou uso de dinheiro público ou recursos via Lei Rouanet.

É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, declarou.

No dia seguinte, em entrevista ao programa Mais, da GloboNews, Flávio Bolsonaro admitiu ter mentido ao negar a relação com Vorcaro. Segundo ele, havia uma cláusula de confidencialidade no contrato vinculado ao fundo que financiava o filme.

Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual? Isso gera multa, isso gera exposição dos investidores”, afirmou.

Apesar da explicação, Flávio não respondeu diretamente quem assinou o contrato, quem incluiu a cláusula de confidencialidade e se o documento poderia ser divulgado.

Relação era “profissional”, mas mensagens indicam proximidade

Outra inconsistência apontada nas declarações de Flávio Bolsonaro está na tentativa de classificar a relação com Daniel Vorcaro como “estritamente profissional” e “monotemática”, limitada ao filme. O conteúdo das mensagens, no entanto, indica que o senador também organizava jantares com o banqueiro.

Em uma dessas conversas, foi cogitada a presença de Jair Bolsonaro. Não há, porém, indicação de que o encontro tenha ocorrido.

Flávio também disse que, no período das negociações, “ninguém tinha ideia” das suspeitas envolvendo o Banco Master. A versão é contestada pelo contexto político da época. Em julho de 2024, o próprio Jair Bolsonaro havia criticado o Banco Master nas redes sociais, sugerindo favorecimento da instituição pelo sistema financeiro. Além disso, o assunto já era debatido no Senado e o Banco Central havia se manifestado publicamente contra operações ligadas ao grupo.

As mensagens reveladas pelo Intercept Brasil mostram que os pedidos de dinheiro feitos por Flávio a Vorcaro continuaram até novembro de 2025.

O senador também demonstrou desconhecimento sobre aspectos centrais da estrutura financeira da produção. Embora tenha afirmado que apenas buscava investidores, disse não saber exatamente o nome do fundo responsável pelo financiamento e não soube precisar o orçamento total do filme.

Eduardo Bolsonaro e o contrato de produtor-executivo

As explicações de Eduardo Bolsonaro também passaram por mudanças. Após Flávio afirmar que os recursos pagos por Daniel Vorcaro eram administrados por um fundo nos Estados Unidos, ligado ao advogado de imigração de Eduardo, a Polícia Federal passou a investigar se o financiamento do filme teria sido usado para justificar transferências de dinheiro que poderiam bancar a permanência do deputado cassado no exterior.

Eduardo vive nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado. Os investigadores apuram se o dinheiro foi aplicado efetivamente na produção audiovisual, se houve desvio de finalidade ou se parte dos recursos financiou despesas pessoais do ex-parlamentar.

O valor pago por Vorcaro, de R$ 61 milhões, chamou atenção por ser mais que o dobro do orçamento do filme “O Agente Secreto”, que recebeu R$ 28 milhões e representou o Brasil no Oscar 2026, com quatro indicações.

Em resposta, Eduardo afirmou nas redes sociais que seu status migratório nos Estados Unidos impediria o recebimento irregular de recursos.

A história que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca”, escreveu.

Inicialmente, o deputado cassado disse que apenas havia apresentado a Mário Frias um advogado especializado em gestão financeira. Segundo ele, o escritório cuidaria somente da parte burocrática, financeira e legal dos recursos.

A versão mudou depois que veio a público o contrato assinado por Eduardo Bolsonaro em janeiro de 2024, no qual ele aparece formalmente como produtor-executivo do filme ao lado de Mário Frias. A partir daí, Eduardo afirmou que sua participação ocorreu para impedir que o projeto fosse interrompido.

Ele declarou ter assumido pessoalmente riscos financeiros para manter o diretor da produção por dois anos e disse que, após a chegada de novos investidores, deixou a função. O deputado cassado também afirmou ter recebido de volta US$ 50 mil que teria investido inicialmente.

Segundo documentos revelados pelo Intercept Brasil e confirmados pela TV Globo, o contrato atribuía a Eduardo participação em decisões estratégicas de financiamento, preparação de documentos para investidores e identificação de recursos, créditos fiscais, incentivos e patrocínios.

Mário Frias recua após negar dinheiro de Vorcaro

As declarações de Mário Frias também mudaram após a divulgação do caso. Na primeira nota, publicada na quarta-feira, 13 de maio, o deputado afirmou de forma categórica que não havia recursos de Daniel Vorcaro no filme.

Não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”, escreveu.

A declaração entrou em choque com as revelações sobre os aportes feitos por Vorcaro e com a admissão posterior de Flávio Bolsonaro de que o banqueiro financiou o projeto. Cerca de 20 horas depois, Frias divulgou uma nova nota, recuando da afirmação inicial.

O deputado passou a dizer que o Banco Master e Daniel Vorcaro não apareciam formalmente como investidores diretos, mas que a relação jurídica da produção ocorria com a Entre Investimentos.

Quando afirmei anteriormente que não há ‘um centavo do Master’ no filme, referia-me ao fato de que Daniel Vorcaro não é e nunca foi signatário de relacionamento jurídico, assim como o Banco Master nunca figurou como empresa investidora”, afirmou Frias.

Segundo ele, não há contradição, mas uma diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento, já que o nome de Vorcaro e o do Banco Master não aparecem no contrato.

Caso pressiona pré-campanha de Flávio

As versões conflitantes aumentaram a pressão sobre a pré-campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência. O senador, que antes buscava associar o caso Banco Master ao governo Lula, passou a ter de explicar sua própria relação com Daniel Vorcaro e os pedidos de financiamento para o filme sobre o pai.

O caso também ampliou o foco da investigação sobre o destino dos recursos. A principal dúvida agora é se os valores foram usados integralmente na produção de “Dark Horse”, se passaram por intermediários financeiros e se parte do dinheiro teve outra finalidade.

As explicações de Flávio, Eduardo e Mário Frias ainda deixam pontos em aberto sobre quem administrava os recursos, quais contratos estavam em vigor, quem eram os investidores formais e qual foi o papel de cada um na captação e gestão do dinheiro.

Enquanto isso, a investigação envolvendo Daniel Vorcaro, o Banco Master e a Operação Compliance Zero segue em andamento, com potencial para gerar novos desdobramentos políticos, financeiros e judiciais.


Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.

Últimas Notícias

Veja Mais

Envie Sua Notícia

Envie pelo site

Envie pelo Whatsapp

Municípios

Rebouças Renascença Reserva Reserva do Iguaçu Ribeirão Claro Ribeirão do Pinhal Rio Azul Rio Bom Rio Bonito do Iguaçu Rio Branco do Ivaí Rio Branco do Sul Rio Negro Rolândia Roncador Rondon Rosário do Ivai Sabáudia Salgado Filho Salto do Itararé Salto do Lontra Santa Amélia Santa Cecília do Pavão Santa Cruz Monte Castelo Santa Fé Santa Helena Santa Inês Santa Isabel do Ivaí Santa Izabel do Oeste Santa Lúcia Santa Maria do Oeste Santa Mariana Santa Mônica Santa Tereza do Oeste Santa Terezinha de Itaipu Santana do Itararé Santo Antônio da Platina Santo Antônio do Caiuá Santo Antônio do Paraíso Santo Antônio do Sudoeste Santo Inácio Sapopema Sarandi Saudade do Iguaçu São Carlos do Ivaí São Jerônimo da Serra São João São João do Caiuá São João do Ivaí São João do Triunfo São Jorge d'Oeste São Jorge do Ivaí São Jorge do Patrocínio São José da Boa Vista São José das Palmeiras São José dos Pinhais São Manoel do Paraná São Mateus do Sul São Miguel do Iguaçu São Pedro do Iguaçu São Pedro do Ivaí São Pedro do Paraná São Sebastião da Amoreira São Tomé Sengés Serranópolis do Iguaçu Sertanópolis Sertaneja Siqueira Campos Sulina Tamarana Tamboara Tapejara Tapira Teixeira Soares Telêmaco Borba Terra Boa Terra Rica Terra Roxa Tibagi Tijucas do Sul Toledo Tomazina Três Barras do Paraná Tunas do Paraná Tuneiras do Oeste Tupãssi Turvo Ubiratã Umuarama União da Vitória Uniflor Uraí Ventania Vera Cruz do Oeste Verê Vila Alta Virmond Vitorino Wenceslau Braz Xambrê

ParanAgora © 2021 Todos os direitos reservados.

PROIBIDA A REPRODUÇÃO, transmissão e redistribuição sem autorização expressa.

Site desenvolvido por: