Saúde / Comportamento
Carnaval pode gerar euforia ou exaustão emocional, alertam especialistas
Psicóloga aponta que festa estimula bem-estar, mas também pode provocar ansiedade, sobrecarga social e sensação de inadequação
12/02/2026
07:20
AFYA
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Tradicionalmente associado à alegria e à celebração coletiva, o Carnaval ocupa lugar central na cultura brasileira. Para milhões de pessoas, a festa representa uma pausa na rotina e um momento de liberdade emocional. Em São Paulo, por exemplo, levantamento da Secretaria de Turismo e Viagens registrou que, em 2025, cerca de 4,5 milhões de foliões participaram da programação, distribuída em mais de 700 blocos de rua.
No entanto, segundo a professora de Psicologia da Afya Centro Universitário Itaperuna, Mariana Ramos, os efeitos do Carnaval sobre a saúde mental não são homogêneos. “Enquanto para algumas pessoas a festa desperta alegria, energia e senso de pertencimento, para outras pode provocar ansiedade, desconforto emocional, sensação de inadequação e sobrecarga social”, afirma.
A especialista explica que o período favorece a diminuição das inibições sociais, seja pelo afastamento temporário das obrigações profissionais, seja pelo clima de descontração coletiva. O cérebro tende a interpretar o Carnaval como uma ruptura da rotina, o que estimula a liberação de neurotransmissores ligados ao prazer e ao bem-estar, como a dopamina.
“O aumento dos estímulos prazerosos e da interação social pode gerar euforia e motivação. Porém, quando não há respeito aos próprios limites, esse mesmo processo pode resultar em exaustão física e emocional”, ressalta Mariana Ramos.
Além da intensa estimulação sensorial — como multidões, barulho elevado e alteração no padrão de sono — há também o fator psicológico relacionado à expectativa coletiva de felicidade.
Segundo a psicóloga, pessoas que não se identificam com a festa podem sentir culpa ou comparação ao não participar. “Existe uma pressão implícita para estar feliz e celebrar. Quando isso não corresponde ao estado emocional real, pode surgir isolamento e sofrimento”, alerta.
Indivíduos com perfil mais introvertido ou que já convivem com ansiedade tendem a sentir maior impacto em ambientes de alta estimulação. O organismo pode permanecer em estado constante de alerta, favorecendo irritabilidade, cansaço mental e crises ansiosas.
Para preservar a saúde mental durante o período, a recomendação é respeitar os próprios limites e reconhecer que não há uma forma única de vivenciar o Carnaval.
“Curtir a festa, descansar, viajar ou permanecer em casa são escolhas igualmente legítimas. O autocuidado envolve também saber dizer não”, enfatiza a professora.
No Brasil, algumas iniciativas demonstram que o Carnaval pode ser também um espaço estruturado de cuidado e inclusão. No Rio de Janeiro, blocos como “Loucura Suburbana” e “Zona Mental” promovem a participação ativa de usuários, familiares e profissionais da rede de saúde mental em ambientes planejados e acolhedores.
Essas experiências funcionam como instrumentos de cidadania e enfrentamento ao estigma, ao combinar celebração com acompanhamento e organização. A proposta integra convivência comunitária, fortalecimento de vínculos e valorização da saúde mental como parte essencial do bem-estar coletivo.
O debate reforça que o Carnaval, embora culturalmente associado à euforia, também exige atenção ao equilíbrio emocional e às diferentes formas de vivência da festividade.
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