Artigo / Opinião
Eleições, com os vícios de sempre
09/08/2026
08:00
Pedro Cardoso da Costa
Pedro Cardoso da Costa
Em pouco mais de dois meses, no Brasil serão realizadas eleições para a Presidência da República, os governos estaduais e os vice-governadores; para dois cargos no Senado, para os 513 deputados federais e 1.049 deputados estaduais e distritais.
Nada há a comemorar. Tudo começa pela manutenção dos vícios de sempre. Os caciques definem quem vai concorrer e quanto receberá de verba pública, sem qualquer participação efetiva do cidadão.
A maioria concorrerá à reeleição, por dois mandatos consecutivos, para os cargos executivos e sem limitação para os cargos proporcionais e para o cargo de senador. Depois das eleições, os derrotados voltam à velha cantilena de defender o fim da reeleição.
As convenções nunca passaram de mera formalidade, referendando as escolhas de uma ou, no máximo, de três pessoas. Se não desde o início da história das eleições, há décadas o roteiro é o mesmo. O atual presidente define a própria candidatura e dita quem serão seus candidatos nos estados. Nos demais partidos, o processo não é diferente.
Depois das meras formalidades das convenções, segue-se o jogo proforma, com as promessas de sempre. Elas se repetem até mesmo para quem pleiteia o quarto mandato, como se estivesse debutante disputando o primeiro.
Por parte de quem já exerce cargos há décadas, não há uma análise sobre suas realizações nem sobre a persistência de problemas sociais crônicos, que parecem nunca ter sido, ao menos, minimizados.
Em 2024, fiz um recorte de manchetes de jornais sobre as condições sociais dos brasileiros. Não parece haver nenhuma esperança, e qualquer escolha seria justificável quando se tem mais de 500 anos de política tradicional, que resultou num legado de 6 milhões de pessoas sem banheiro, 33 milhões sem água potável, 100 milhões sem saneamento básico, 23 milhões convivendo sob domínio absoluto do crime organizado ao seu lado, 11% de analfabetos absolutos, que não reconhecem um “ó”, além de, há trinta anos consecutivos, o número de assassinatos ultrapassar 40 mil por ano.
Caso fosse num país desenvolvido, o partido que tivesse governado por vinte anos pediria desculpas à população pelos indicadores sociais do fracasso, reconheceria o que deixou de fazer, não lançaria candidato a cargo algum e muito menos se apresentaria como alternativa viável para mudar aquilo que não conseguiu melhorar quando esteve no poder.
As campanhas fecham esse ciclo de mediocridade. Não se discutem projetos realistas, nem se promove um debate baseado em informações precisas sobre o que foi realizado ou sobre quais ações serão efetivamente implementadas para resolver os problemas sociais.
Toda a campanha se resume a apontar quem tem o passado mais nebuloso, quem falou ou deixou de falar determinada frase. A população já está cansada desse tipo de disputa. Mas, ainda assim, como somos uma sociedade totalmente omissa, vamos ter de escolher obrigatoriamente entre acusados de “rachadinhas” ou o chefe dos “mensalões, petrolões e descontões” contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
E como nada é feito para aumentar o senso crítico do eleitor, a consciência política de hoje é similar à dos anos setenta.
Pedro Cardoso da Costa
Interlagos – SP
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