Política Externa / Diplomacia
Diplomacia brasileira enfrenta tensão com EUA e Argentina às vésperas da eleição
Lula amplia contatos com líderes estrangeiros enquanto atritos com Trump e Milei entram no debate político e aumentam a pressão sobre a política externa brasileira
09/08/2026
07:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A política externa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atravessa uma fase de maior tensão com parceiros importantes do Brasil, especialmente Estados Unidos e Argentina, ao mesmo tempo em que o Palácio do Planalto procura intensificar contatos com outros governos.
A movimentação ocorre em um ambiente cada vez mais influenciado pela proximidade das eleições brasileiras. Os conflitos diplomáticos passaram a alimentar também a disputa política interna, principalmente diante da aproximação dos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Javier Milei, da Argentina, com setores da oposição brasileira.
Nos últimos dias, Lula manteve conversas com diferentes chefes de Estado. Entre os contatos estão Gustavo Petro, presidente da Colômbia, em 5 de agosto; Vladimir Putin, da Rússia, em 4 de agosto; Xi Jinping, da China, em 27 de julho; e Santiago Peña, do Paraguai, em 30 de julho.
Segundo interlocutores do governo, novas conversas internacionais podem ocorrer nas próximas semanas. O objetivo é preservar canais diplomáticos e demonstrar capacidade de interlocução do Brasil com diferentes blocos e países.
Os atritos externos ganharam uma dimensão adicional com a corrida presidencial brasileira. Trump e Milei mantêm proximidade política com setores da direita e com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Nesse cenário, episódios diplomáticos passaram a ser utilizados tanto pelo governo quanto por seus adversários no debate doméstico sobre o posicionamento internacional do Brasil.
A doutora em Relações Internacionais Carolina Pavese avalia que a política externa dos governos Lula tradicionalmente procura combinar relações com países desenvolvidos e uma maior aproximação entre nações do chamado Sul Global.
“Um traço da política externa de Lula sempre foi investir tanto em parceiros bem consolidados do norte global, quanto em buscar fortalecer uma cooperação sul-sul”, afirma.
Para a especialista, os conflitos recentes também acabam repercutindo diretamente na polarização política brasileira.
“Isso impacta diretamente a estratégia que o Brasil emprega para promover uma defesa do Estado, porque não é só uma dissonância ideológica entre o governo de Lula e Trump e Milei. Há um ataque direto dessas lideranças para impulsionar essa polarização”, avalia Pavese.
Apesar dos desgastes, integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty defendem a manutenção dos canais diplomáticos e uma participação ativa do Brasil em discussões internacionais.
Lula também sinalizou interesse em conversar diretamente com Donald Trump, numa tentativa de administrar as divergências acumuladas entre Brasília e Washington.
Outra oportunidade para a atuação diplomática brasileira será a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), prevista para setembro, em Nova York.
Temas como mudanças climáticas, multilateralismo e cooperação internacional devem integrar a agenda brasileira. Pela tradição da Assembleia Geral, o Brasil realiza o primeiro discurso entre os países-membros na abertura do debate geral.
A crise entre Brasil e Estados Unidos ganhou novos capítulos com o aumento de tarifas sobre produtos brasileiros e questões envolvendo as representações diplomáticas dos dois países.
O governo norte-americano também revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
A decisão foi relacionada à demora brasileira na concessão do agrément, autorização necessária para que um país aceite formalmente o embaixador indicado por outro governo, ao nome escolhido por Trump para representar os Estados Unidos em Brasília, Daniel Perez.
A sucessão de episódios ampliou o desgaste entre os dois governos.
Pavese lembra que divergências ideológicas não impediram uma interlocução direta durante os primeiros governos Lula, quando os Estados Unidos eram presididos pelo republicano George W. Bush.
“Mesmo sendo um republicano, havia um canal de diálogo e cooperação em agendas de interesse mútuo”, observa.
Na América do Sul, o principal foco de tensão está na relação com a Argentina.
Depois de sucessivas declarações do presidente Javier Milei contra Lula e integrantes do governo brasileiro, Brasília decidiu reduzir o nível de sua representação diplomática no país vizinho.
O embaixador brasileiro em Buenos Aires permanece no Brasil, enquanto a representação passou a ser conduzida por um encarregado de negócios.
A medida aprofundou um distanciamento que já vinha sendo registrado desde o início do governo Milei.
O presidente argentino também passou a criticar publicamente a política externa brasileira e sustenta que o país estaria se isolando internacionalmente. O governo Lula, por sua vez, intensifica contatos com outros chefes de Estado e aposta nos próximos encontros multilaterais para reforçar sua presença diplomática em um momento em que as relações internacionais começam a se cruzar de forma mais direta com a disputa eleitoral brasileira.
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