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Zuenir Ventura morre aos 95 anos e deixa legado de sete décadas no jornalismo brasileiro
Autor de “1968: O Ano que Não Terminou” e “Cidade Partida”, jornalista e escritor morreu nesta terça-feira, no Rio de Janeiro
22/09/2026
08:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O jornalista e escritor Zuenir Ventura, uma das referências da imprensa brasileira, morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro. A morte foi confirmada pela Academia Brasileira de Letras (ABL), instituição que ele integrava desde 2015. Informações publicadas nesta manhã apontam pneumonia como causa da morte.
Com uma trajetória de aproximadamente sete décadas, Zuenir transitou entre reportagem, crônica, literatura e ensino. Sua carreira acompanhou momentos decisivos da história política e social brasileira e produziu obras que ultrapassaram as páginas dos jornais.
Nascido Zuenir Carlos Ventura, em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais, mudou-se ainda jovem para o Estado do Rio de Janeiro. Estudou Letras Neolatinas e entrou para o jornalismo nos anos 1950.
Ao longo da carreira, passou por veículos como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil, além de atuar como colunista de O Globo. Também foi professor universitário e tornou-se conhecido entre colegas e alunos como “Mestre Zu”.
Uma das obras mais conhecidas de Zuenir, “1968: O Ano que Não Terminou”, foi publicada em 1988 e reconstruiu acontecimentos políticos, sociais e culturais de um dos períodos mais turbulentos da história contemporânea brasileira.
O livro aborda a mobilização estudantil, as transformações culturais e o avanço da repressão durante a ditadura militar. Décadas depois, continuaria sendo uma das principais referências de sua produção.
A experiência daquele período também atingiu diretamente sua família. Em 1968, Zuenir e a mulher, a jornalista Mary Akiersztein, foram presos e levados ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no Rio de Janeiro.
O trabalho de Zuenir também se destacou pela cobertura de questões sociais e de direitos humanos. Em 1989, produziu para o Jornal do Brasil a série “O Acre de Chico Mendes”, sobre o líder seringueiro assassinado no ano anterior.
A reportagem lhe rendeu importantes reconhecimentos, entre eles o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog. A própria ABL registra Zuenir como vencedor do grande Prêmio Esso pela cobertura sobre Chico Mendes.
A violência urbana e a desigualdade social voltariam ao centro de seu trabalho alguns anos depois. Após acompanhar a realidade de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, publicou “Cidade Partida”, em 1994.
O livro-reportagem examinou a convivência entre diferentes realidades sociais da cidade e se tornou outro título central da bibliografia do jornalista.
Entre suas demais obras estão “Chico Mendes: Crime e Castigo”, “Inveja: Mal Secreto”, “Minhas Histórias dos Outros”, “1968: O que Fizemos de Nós” e “Sagrada Família”.
Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 30 de outubro de 2014, sucedendo o escritor Ariano Suassuna na Cadeira 32. A ABL registra Suassuna como o sexto ocupante da cadeira e Zuenir como seu sucessor.
A posse ocorreu em 6 de março de 2015. Em seu discurso, Zuenir recordou a relação com Ariano e episódios vividos ao lado do escritor paraibano, a quem sucedia na Academia.
Mesmo em idade avançada, continuava ligado à produção intelectual e cultural. Em agosto deste ano, a programação da Festa Literária Internacional de Niterói incluiu a exibição de “Mestre Zu”, documentário biográfico dedicado ao jornalista.
Além dos principais prêmios jornalísticos recebidos durante a carreira, Zuenir foi reconhecido pela atuação ligada à defesa dos direitos humanos, uma característica presente em parte significativa de suas reportagens e livros.
Seu estilo combinava apuração jornalística, narrativa e atenção às transformações sociais do país, especialmente em temas como violência, desigualdade, liberdade e cidadania.
Fora das redações, também ficou conhecido pelo bom humor e pelo otimismo que cultivava mesmo diante dos temas difíceis que acompanhou profissionalmente.
Zuenir Ventura deixa a mulher, Mary Akiersztein, os filhos Elisa e Mauro e os netos Alice e Eric. Com sua morte, o jornalismo brasileiro perde um profissional cuja produção ajudou a documentar e interpretar parte importante da história recente do país.
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