Política Externa / Diplomacia
Mauro Vieira cobra fim imediato de ataques de Milei contra o Brasil
Chanceler classifica como “invenções” acusações de financiamento brasileiro à campanha de Sergio Massa e defende retomada da normalidade diplomática
09/08/2026
09:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o presidente da Argentina, Javier Milei, deve interromper imediatamente as agressões dirigidas ao Brasil e às instituições brasileiras. Segundo o chanceler, a redução das tensões é necessária para que os dois países retomem uma relação diplomática normal.
Em entrevista concedida no sábado, 8 de agosto, ao jornal argentino Clarín, Vieira ressaltou a importância histórica e estratégica da relação entre os dois maiores países da América do Sul.
“A relação entre Argentina e Brasil é fundamental e transcende quem estiver no poder em qualquer momento”, afirmou o ministro, que estava em Cali, na Colômbia, para a posse do presidente Abelardo de la Espriella.
Vieira disse ainda que o governo brasileiro precisa saber se a administração argentina compartilha da mesma disposição para preservar os vínculos bilaterais.
“Para o governo brasileiro, a relação entre os 2 países é primordial e precisamos saber se o atual governo argentino compartilha dessa visão em relação ao Brasil. Essas ofensas foram muito graves. Portanto, essa relação deve ser preservada, as agressões suspensas e o caminho para a normalidade na relação bilateral retomado”, declarou.
A nova escalada de tensão ocorreu depois da participação de Javier Milei na convenção nacional do PL, realizada em 25 de julho, em São Paulo, quando o partido confirmou o senador Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República.
Durante o evento, Milei fez ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), chamando-o de “ladrão” e “presidiário”.
As declarações provocaram reação do governo brasileiro e contribuíram para aprofundar a crise diplomática. Em 5 de agosto, o Brasil decidiu rebaixar o nível de sua representação diplomática em Buenos Aires.
Outro ponto de atrito envolve declarações de Milei sobre uma suposta participação brasileira em uma “campanha anti-Argentina”.
Em entrevista à rádio argentina Mitre, em 26 de julho, Milei afirmou que o governo brasileiro teria sido responsável por 25% dos recursos utilizados nessa campanha. Também acusou brasileiros ligados a Lula de terem participado ativamente da campanha presidencial de Sergio Massa, adversário de Milei na eleição argentina de 2023.
“Sabe quem mais colocou dinheiro nesta campanha anti-argentina? O governo do Brasil. 25% dos recursos saíram do governo do Brasil. E depois eles vêm me falar de interferência”, declarou Milei.
O presidente argentino também afirmou que brasileiros teriam atuado como assessores de Massa durante a disputa presidencial.
Mauro Vieira rejeitou as acusações e classificou as declarações como “invenções, não eventos reais”.
“Não precisa ser economista para entender esse absurdo desses bilhões em pagamentos… ou as referências que ele fez sobre o ex-ministro da Fazenda argentino, que era candidato à presidência”, afirmou.
Segundo Vieira, as visitas realizadas por Sergio Massa ao Brasil ocorreram no exercício de suas atribuições como ministro da Economia da Argentina.
Na entrevista, Mauro Vieira abordou ainda o desgaste diplomático entre Brasil e Estados Unidos.
Segundo o chanceler, as tensões aumentaram depois que o governo norte-americano realizou publicamente uma consulta ao Brasil relacionada ao candidato escolhido para comandar sua embaixada em Brasília. Vieira afirmou que a condução do episódio contrariou procedimentos previstos na Convenção de Viena.
O ministro também criticou manifestações de autoridades norte-americanas sobre o sistema eleitoral brasileiro e episódios relacionados ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Isso ocorreu em meio a comentários de autoridades americanas e do Departamento de Estado a respeito do sistema eleitoral brasileiro, incluindo pedidos de visitas ao Brasil e ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que está atualmente preso. Foi um exagero”, declarou.
Vieira também comentou a suspensão do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Na avaliação do chanceler, a decisão norte-americana teria sido utilizada como instrumento de pressão para acelerar a aceitação de Daniel Perez, indicado pelo governo do presidente Donald Trump para assumir a embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
Vieira afirmou, entretanto, que o pedido de concessão do agrément, autorização formal necessária para que um embaixador estrangeiro possa assumir o posto, ainda não havia sido encaminhado ao presidente Lula.
“Ele [Lula] está muito ocupado a 2 meses da eleição”, afirmou o chanceler.
As declarações de Mauro Vieira ocorrem em um momento de pressão sobre duas relações estratégicas da diplomacia brasileira. Enquanto o governo cobra o fim dos ataques de Milei para normalizar o diálogo com a Argentina, o Itamaraty também administra o aumento das divergências com os Estados Unidos.
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