Eleições / Tecnologia
Urna eletrônica completa 30 anos: conheça sua criação, as primeiras falhas e os questionamentos sobre fabricantes
Sistema desenvolvido pela Justiça Eleitoral estreou em 1996 com equipamentos da Unisys, passou por mudanças tecnológicas e chegou a 2026 com mecanismos de auditoria e fiscalização
24/10/2026
13:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A urna eletrônica brasileira completa 30 anos em 2026, depois de transformar o processo de votação e apuração dos resultados eleitorais no país. Criado a partir de um projeto conduzido pela Justiça Eleitoral, o sistema começou a ser utilizado em 1996, enfrentou falhas técnicas em suas primeiras versões, passou por questionamentos sobre contratos de fabricação e recebeu sucessivas atualizações de segurança.
A história dos equipamentos envolve órgãos públicos, pesquisadores, empresas de tecnologia e decisões judiciais. Um dos capítulos mais relevantes ocorreu com a Unisys Brasil, fabricante das primeiras urnas, que enfrentou problemas técnicos durante a implantação do sistema e teve contratos questionados em uma ação apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF), em 2002.
Os episódios estão documentados, mas exigem uma distinção: defeitos de funcionamento, suspeitas sobre contratações públicas e fraude na votação são situações diferentes. A existência de uma falha mecânica ou de uma contestação administrativa não demonstra, por si só, que votos tenham sido adulterados.
A informatização das eleições começou antes da urna eletrônica
A modernização do processo eleitoral brasileiro teve início antes da criação dos equipamentos utilizados atualmente.
Em 1985, a Justiça Eleitoral começou a implantação de um cadastro nacional informatizado de eleitores. A medida permitiu organizar informações que anteriormente eram mantidas de forma descentralizada.
Outro avanço ocorreu em 1994, quando computadores passaram a ser utilizados na totalização dos resultados eleitorais, embora os votos ainda fossem registrados em cédulas de papel e contados manualmente.
A criação de um equipamento específico para registrar os votos ganhou impulso em 1995, durante a presidência do ministro Carlos Velloso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O projeto reuniu profissionais da Justiça Eleitoral e especialistas de diferentes instituições, incluindo integrantes das Forças Armadas, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A proposta era desenvolver uma máquina que permitisse ao eleitor escolher os candidatos por meio de um teclado numérico, visualizar as informações na tela e registrar os votos eletronicamente.
A Lei nº 9.100, de 1995, autorizou a utilização do sistema eletrônico de votação e apuração nas eleições municipais do ano seguinte.
Unisys Brasil venceu licitação para fabricar as primeiras urnas
Depois de estabelecer os requisitos técnicos, o TSE realizou uma licitação internacional para contratar a fabricação dos equipamentos.
Participaram da disputa as empresas Unisys, IBM e Procomp. A concorrência considerou critérios relacionados ao preço, ao desempenho e à qualidade dos protótipos.
A Unisys Brasil venceu o processo e assinou contrato com o tribunal em 13 de março de 1996.
Foram adquiridas 77.969 urnas eletrônicas do modelo UE1996, destinadas à implantação inicial da votação informatizada.
É importante diferenciar a criação do sistema de sua fabricação industrial. A concepção da urna e a definição das especificações técnicas ficaram sob responsabilidade da Justiça Eleitoral e dos profissionais envolvidos no projeto. A Unisys foi contratada para produzir os equipamentos.
Como funcionavam as primeiras urnas eletrônicas
O modelo utilizado em 1996 era tecnologicamente mais simples que as versões atuais, mas já apresentava características que permaneceram nas gerações seguintes.
A urna possuía teclado numérico, tela de identificação dos candidatos, terminal do mesário e sistema de alimentação elétrica com bateria.
Entre as características técnicas do equipamento estavam:
Processador: Intel 386SX, de 40 MHz.
Memória: 2 MB.
Armazenamento: dois disquetes de 1,44 MB.
Teclado: numérico, semelhante ao de um telefone.
Tela: utilizada para apresentar informações dos candidatos.
Terminal do mesário: destinado aos procedimentos de identificação e liberação da votação.
Impressora: utilizada para emissão de documentos eleitorais, incluindo a zerésima e o Boletim de Urna.
Bateria: permitia o funcionamento em situações de interrupção do fornecimento de energia.
A impressão de documentos eleitorais não deve ser confundida com a impressão individual do voto. O Boletim de Urna apresenta os resultados registrados no equipamento, enquanto o voto impresso individual é um mecanismo diferente, destinado à conferência pelo eleitor.
Primeira eleição eletrônica ocorreu em 1996
A estreia da urna eletrônica aconteceu nas eleições municipais de 3 de outubro de 1996.
Naquele ano, aproximadamente 32 milhões de eleitores, cerca de um terço do eleitorado brasileiro, tiveram acesso ao novo sistema.
Os equipamentos foram utilizados em 57 municípios, incluindo capitais e cidades com mais de 200 mil eleitores, conforme os critérios estabelecidos para a implantação inicial.
A mudança representou uma transformação na forma de registrar e apurar votos, mas a primeira experiência também revelou problemas de funcionamento.
Equipamentos da Unisys apresentaram falhas técnicas
Reportagens publicadas em 1996 registraram dificuldades mecânicas e operacionais em parte das urnas fabricadas pela Unisys.
Entre os problemas relatados estavam:
Falhas de impressão: defeitos nos mecanismos utilizados para emitir documentos eleitorais.
Problemas em teclados e sensores: ocorrências que dificultavam a operação de alguns equipamentos.
Travamentos: interrupções no funcionamento que exigiam procedimentos de recuperação ou substituição.
Dificuldades com disquetes: problemas relacionados aos dispositivos utilizados no armazenamento e transporte de informações.
Erros de operação: situações envolvendo o manuseio dos equipamentos por integrantes das equipes eleitorais.
Substituição de urnas: necessidade de recorrer a equipamentos de contingência ou à votação em papel em determinadas seções.
Em reportagem publicada em 1º de agosto de 1996, a Folha de S.Paulo informou que problemas mecânicos haviam sido identificados em parte das aproximadamente 18 mil urnas já entregues aos tribunais regionais.
Na ocasião, segundo o relato jornalístico, o TSE informou que a fabricante trabalhava na correção dos defeitos.
No primeiro turno daquele ano, também foram registradas dificuldades que levaram à substituição da votação eletrônica pelo sistema convencional em algumas seções.
O então presidente do TSE, ministro Marco Aurélio Mello, reconheceu a ocorrência de falhas técnicas e problemas de manuseio.
Esses registros demonstram que a implantação não ocorreu sem dificuldades. Entretanto, as falhas documentadas não comprovam, isoladamente, manipulação deliberada de votos ou alteração dos resultados eleitorais.
Expansão levou o sistema a todo o país
Depois da experiência inicial, a Justiça Eleitoral ampliou gradualmente a utilização das urnas.
Em 1998, a votação eletrônica passou a alcançar uma parcela maior do eleitorado brasileiro.
Nas eleições de 2000, todos os municípios passaram a utilizar o sistema eletrônico de votação, consolidando sua implantação nacional.
A expansão exigiu a produção de novos equipamentos, o aperfeiçoamento dos programas e a ampliação dos procedimentos de treinamento, manutenção e fiscalização.
Ao longo das décadas seguintes, as urnas passaram por mudanças em seus componentes, capacidade de processamento, armazenamento, acessibilidade e mecanismos de segurança.
PDT questionou contratos da Unisys no Supremo em 2002
Um dos episódios mais importantes envolvendo a fabricante ocorreu em 28 de agosto de 2002, quando o Partido Democrático Trabalhista (PDT) apresentou ao STF a Petição nº 2.763.
O partido solicitou acesso a documentos relacionados a contratos celebrados entre o Tribunal Superior Eleitoral e a Unisys Brasil.
Entre os documentos mencionados estavam o Processo Administrativo nº 1.673/2001 e o Contrato TSE nº 06/2002, relacionados à prestação de serviços e à preparação de equipamentos para as eleições daquele ano.
Segundo os registros do Supremo, o PDT afirmou ter solicitado anteriormente a documentação ao tribunal eleitoral, sem obter o atendimento pretendido.
O partido sustentava que o acesso aos documentos poderia permitir a análise de eventuais irregularidades e subsidiar medidas judiciais.
Quais suspeitas foram levantadas sobre a empresa
Os questionamentos apresentados pelo PDT envolviam principalmente procedimentos contratuais, terceirizações e a situação econômico-financeira da fabricante.
Entre os pontos mencionados estavam:
Terceirização de serviços: o partido questionou a participação da empresa TMP Worldwide do Brasil em atividades relacionadas à preparação das urnas.
Fabricação de equipamentos: houve questionamento sobre a suposta terceirização da produção de 51 mil urnas à empresa Tegra Eletrônica.
Capacidade financeira: foram citados registros de protestos em nome da Unisys, utilizados pelo partido para questionar sua situação econômico-financeira.
Fiscalização contratual: o PDT pretendia examinar a documentação para avaliar a regularidade dos serviços e a supervisão exercida pela administração eleitoral.
Essas informações integravam as alegações apresentadas pelo partido.
A existência dos questionamentos não significa que as irregularidades tenham sido comprovadas judicialmente, tampouco demonstra que tenha ocorrido interferência nos votos registrados pelas urnas.
STF arquivou processo sem analisar o mérito das suspeitas
Em 25 de setembro de 2002, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, arquivar a Petição nº 2.763.
O relator, ministro Gilmar Mendes, acompanhou o entendimento do então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, de que o Supremo não tinha competência para examinar aquele pedido de exibição de documentos.
A decisão teve natureza processual.
Isso significa que os ministros não realizaram, naquele julgamento, uma análise definitiva sobre a regularidade de todos os contratos questionados pelo PDT.
O arquivamento, portanto, não pode ser apresentado como comprovação das suspeitas levantadas pelo partido nem como uma decisão de mérito que tenha examinado cada uma das alegações.
Também não houve reconhecimento judicial de fraude eleitoral naquela ação.
Experiência com voto impresso apresentou dificuldades em 2002
Outro capítulo da evolução das urnas ocorreu nas eleições de 2002, quando a Justiça Eleitoral realizou uma experiência com impressão individual do voto em parte dos equipamentos.
O objetivo era permitir uma conferência adicional do registro eletrônico.
Entretanto, segundo informações divulgadas pelo TSE, a experiência apresentou problemas operacionais.
Entre as dificuldades registradas estavam:
Travamentos de papel nos mecanismos de impressão.
Falhas mecânicas durante o funcionamento.
Formação de filas em determinadas seções.
Necessidade de intervenção de funcionários para solucionar problemas.
Riscos ao sigilo do voto em situações nas quais a intervenção humana se tornou necessária.
Esses episódios contribuíram para a decisão de não manter aquele modelo de impressão individual nas eleições seguintes.
A discussão sobre voto impresso, entretanto, continuou presente em propostas legislativas e debates públicos ao longo dos anos.
Quatro fabricantes participaram da produção das urnas
A Unisys Brasil não foi a única empresa responsável pela fabricação dos equipamentos utilizados nas eleições brasileiras.
De acordo com levantamento divulgado pelo TSE em julho de 2026, quatro fabricantes participaram da produção das diferentes gerações de urnas ao longo de três décadas.
A relação histórica inclui:
Unisys Brasil: modelos UE1996 e UE2002.
Procomp Indústria Eletrônica: modelos UE1998 e UE2000.
Diebold/Diebold Procomp: diferentes gerações de equipamentos, incluindo modelos produzidos entre 2004 e 2015.
Positivo Tecnologia: modelos UE2020 e UE2022.
Segundo o levantamento do tribunal, até 2026 foram produzidos 1.487.115 equipamentos, distribuídos em 14 modelos.
As empresas contratadas são responsáveis pela fabricação conforme as especificações determinadas pela Justiça Eleitoral, que também acompanha e fiscaliza o processo de produção.
Como as urnas são fiscalizadas atualmente
Os mecanismos de segurança passaram por sucessivas modificações desde a primeira eleição eletrônica.
A Justiça Eleitoral utiliza procedimentos técnicos destinados a verificar a autenticidade dos programas, o funcionamento dos equipamentos e a correspondência entre os votos registrados e os resultados divulgados.
Entre os principais mecanismos estão:
Assinaturas digitais: utilizadas para verificar a autenticidade dos programas instalados nas urnas.
Resumos digitais: permitem conferir a integridade dos arquivos e identificar alterações.
Criptografia: empregada na proteção de informações e procedimentos do sistema.
Boletim de Urna (BU): documento emitido ao final da votação, com os resultados registrados em cada seção.
Registro Digital do Voto (RDV): permite procedimentos técnicos de conferência dos votos registrados, preservando o sigilo do eleitor.
Teste de Integridade: simulação de votação em urnas selecionadas, com comparação entre votos previamente registrados e resultados eletrônicos.
Teste de Autenticidade: verificação dos programas instalados nos equipamentos antes do início da votação.
Fiscalização por entidades habilitadas: acompanhamento de etapas de preparação, auditoria e funcionamento dos sistemas.
Teste Público de Segurança: iniciativa que permite a especialistas examinar mecanismos de proteção e identificar possíveis vulnerabilidades.
Esses procedimentos possuem finalidades distintas e compõem o conjunto de medidas de fiscalização adotadas pelo TSE.
Boletim de Urna permite conferir resultados por seção
O Boletim de Urna é um dos principais instrumentos públicos de conferência da apuração.
Emitido após o encerramento da votação, o documento apresenta os votos contabilizados para cada candidatura, além de outras informações sobre a seção eleitoral.
Os dados podem ser comparados com os resultados posteriormente divulgados pela Justiça Eleitoral.
Esse procedimento permite verificar se os números registrados localmente correspondem aos utilizados na totalização oficial.
O boletim não identifica em quem cada eleitor votou, preservando o sigilo individual.
Testes de integridade verificam registro dos votos
No Teste de Integridade, urnas previamente selecionadas são submetidas a uma simulação de votação.
Os votos utilizados no procedimento são registrados antecipadamente em cédulas de controle e depois digitados nos equipamentos.
Ao final, os resultados produzidos pelas urnas são comparados com os registros de referência.
O objetivo é verificar se os votos digitados foram corretamente contabilizados pelo sistema.
Já o Teste de Autenticidade examina se os programas instalados nas urnas correspondem às versões oficiais preparadas pela Justiça Eleitoral.
As duas modalidades de auditoria são diferentes, mas complementares.
Mato Grosso do Sul participa das auditorias de 2026
No segundo turno das eleições presidenciais de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS) selecionou 23 urnas eletrônicas de 18 municípios para procedimentos de fiscalização.
O sorteio ocorreu em 24 de outubro, na sede do tribunal, em Campo Grande.
Desse total, 20 equipamentos foram destinados aos testes de integridade e três às verificações de autenticidade.
Os procedimentos estão previstos para domingo (25), simultaneamente à realização do segundo turno.
As urnas encaminhadas aos testes de integridade são substituídas por equipamentos de contingência nas seções eleitorais sorteadas, permitindo que os eleitores votem normalmente.
O caso exemplifica a aplicação dos mecanismos de auditoria desenvolvidos ao longo da história da votação eletrônica brasileira.
Há comprovação de fraude envolvendo a Unisys?
Os registros históricos mostram que as primeiras urnas fabricadas pela Unisys apresentaram falhas técnicas e que contratos relacionados à empresa foram questionados judicialmente.
Entretanto, os documentos mencionados não demonstram que a fabricante tenha manipulado votos ou alterado resultados eleitorais.
O TSE afirma que não houve comprovação de fraude na captação ou na totalização de votos por meio das urnas eletrônicas brasileiras.
Essa posição institucional não elimina a possibilidade de investigar defeitos, examinar contratos ou questionar procedimentos administrativos.
Para caracterizar fraude eleitoral, seria necessário apresentar evidências capazes de demonstrar uma interferência irregular no registro, na apuração ou na totalização dos votos.
Da mesma forma, eventuais irregularidades em licitações ou contratações públicas precisam ser examinadas com base em documentos, provas e decisões das autoridades competentes.
Três décadas de mudanças e questionamentos
Desde 1996, o Brasil passou de uma experiência inicial em parte dos municípios para um sistema de votação eletrônica utilizado nacionalmente.
Nesse período, a tecnologia evoluiu, os equipamentos foram substituídos por novas gerações e os mecanismos de fiscalização passaram por aperfeiçoamentos.
A trajetória também inclui falhas operacionais, experiências que não foram mantidas e questionamentos administrativos e judiciais.
A participação da Unisys Brasil integra essa história tanto pela fabricação das primeiras urnas quanto pelos problemas técnicos registrados na implantação e pelas controvérsias contratuais levadas ao Supremo.
Trinta anos depois, a avaliação da segurança do sistema continua dependendo de documentação, fiscalização, auditorias e evidências verificáveis.
O histórico mostra que reconhecer problemas técnicos e examinar suspeitas contratuais é compatível com a exigência de provas para qualquer afirmação de fraude eleitoral.
Fontes oficiais consultadas: o histórico das fabricantes, os 14 modelos e o total de 1.487.115 urnas constam de levantamento do TSE de julho de 2026. O STF confirma o arquivamento da Petição 2.763 em setembro de 2002 por questão de competência, sem julgamento do mérito das alegações contratuais.
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