Artigo / Opinião
Educação, a saída para o Brasil
19/07/2026
09:00
WILSON AQUINO
WILSON AQUINO*
Enquanto no Brasil a leitura de livros, per capita, é de apenas 3,96 livros por ano, o menor índice já registrado pela série histórica da pesquisa Retratos da Leitura, em países desenvolvidos como Estados Unidos, com 17 livros por ano, Reino Unido, com 15, e França, com 14, esse número é de três a quatro vezes superior.
Mais grave ainda: 53% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos três meses, e o país perdeu 6,7 milhões de leitores nos últimos quatro anos. Pela primeira vez na história, os não leitores são maioria no Brasil.
Somente com a reversão desses lamentáveis números o país conseguirá, a médio e longo prazos, finalmente ganhar terreno no campo do desenvolvimento. Um país que não lê e, consequentemente, não estuda, não progride.
Não alcança o desenvolvimento tão desejado, conquistado por países como China, com 6,6 livros por ano, Japão, com 6,2, e Coreia do Sul, com 5,7. São nações que, mesmo com realidades distintas, mantêm indicadores de leitura superiores aos nossos e colhem os frutos disso em inovação, produtividade e qualidade de vida.
Se, de um lado, os pais são grandes responsáveis pela falta de incentivo de seus filhos ao hábito da leitura e à busca de conhecimento por outros livros e fontes, além daqueles da rotina escolar, o poder público, especialmente o Executivo e o Legislativo, em todos os níveis, é o maior responsável pelo país estar patinando há décadas, sem alcançar grandes avanços rumo ao tão desejado desenvolvimento.
É preciso gerar mais riqueza e renda para a Nação e, consequentemente, para as famílias, permitindo maior qualidade de vida, com atendimentos exemplares em todas as áreas, especialmente em infraestrutura e saúde.
Se o país leva a sério a máxima de que a educação é prioridade, por que tratar livros e materiais didáticos como mercadorias comuns?
Um livro deveria ter tributação zero em toda a sua cadeia produtiva, do papel à estante. Mais do que isso, o governo deveria instituir subsídios diretos para a produção e a distribuição de livros, especialmente para bibliotecas públicas e escolares.
Países como a Coreia do Sul e o Japão não chegaram aonde chegaram por acaso. Investiram pesadamente em bibliotecas, programas nacionais de leitura e redução de barreiras fiscais ao conhecimento.
Enquanto o Brasil insiste em tratar o livro como um artigo qualquer, países que competem conosco no cenário global fazem o oposto e colhem os resultados em produtividade, inovação e desenvolvimento humano. Buenos Aires, capital da Argentina, por exemplo, tem mais livrarias do que todo o Brasil.
Não é apenas a tributação que clama por reforma urgente. São inúmeras as medidas que o governo poderia adotar para reverter o processo educacional do país.
A começar pelas escolas, com mais investimento em infraestrutura para proporcionar conforto e condições dignas de trabalho no processo de ensino e aprendizagem, em tempo integral, principalmente para os ensinos básico e fundamental.
Escolas sem bibliotecas, sem laboratórios, sem quadras esportivas, com salas superlotadas e professores desmotivados não formam leitores. Formam repetidores de conteúdo.
Também é preciso resgatar o respeito e a liberdade do professor dentro da sala de aula e, ao mesmo tempo, dar um basta ao que uma minoria procura fazer hoje, utilizando o espaço escolar para doutrinar crianças e adolescentes com políticas partidárias e ideológicas.
Dentro da sala deve imperar, o tempo todo, o respeito mútuo entre professores e alunos, além de um sério programa de ensino e aprendizagem, baseado em evidências e focado no desenvolvimento do pensamento crítico.
Os poderes Legislativo e Executivo deveriam criar concursos e premiações à leitura de livros, campeonatos de conhecimento e olimpíadas do saber para estimular crianças e adolescentes a buscarem as primeiras colocações, assim como ocorre no esporte.
Se o país é capaz de mobilizar milhões de jovens em torneios de futebol e vôlei, por que não seria capaz de fazer o mesmo com a leitura e o conhecimento?
Um país onde 53% da população não lê é um país refém da própria ignorância. É um país vulnerável a discursos vazios, promessas fáceis e líderes que exploram a falta de informação para se perpetuar no poder.
A leitura não é apenas um prazer ou um passatempo. É o antídoto mais poderoso contra a manipulação, o obscurantismo e a estagnação.
É preciso que cada família entenda seu papel: ler para os filhos, dar o exemplo e encher a casa de livros. É preciso que cada professor seja valorizado, respeitado e preparado.
É preciso que cada gestor público tenha a coragem de fazer da educação a verdadeira prioridade, não no discurso, mas no orçamento. É preciso que o livro seja tratado não como mercadoria, mas como patrimônio nacional, com tributação zero e acesso facilitado a todos.
A China, o Japão, a Coreia do Sul, os Estados Unidos e tantos outros países não chegaram ao desenvolvimento por acaso. Chegaram porque leram antes, estudaram antes e investiram em conhecimento antes.
O Brasil ainda está a tempo. Mas o relógio não para. E, a cada dia que passa sem ação, o abismo se aprofunda.
A educação é a saída. Sempre foi. E continuará sendo enquanto houver tempo.
*Jornalista, professor e escritor
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