Política / Diplomacia
Itamaraty pede explicações à Argentina sobre possível participação de aliados de Milei na saída de Flávio Bolsonaro
Representante argentina foi chamada para reunião em Brasília após informações sobre a passagem do senador pelo país; governo brasileiro evita ampliar tensão diplomática
30/10/2026
12:00
MTP
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O Ministério das Relações Exteriores solicitou esclarecimentos à representação diplomática da Argentina sobre a possível participação de integrantes do governo do presidente Javier Milei na viagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos, após sua derrota nas eleições presidenciais brasileiras.
A conversa ocorreu na quinta-feira (29 de outubro), em Brasília, entre um embaixador brasileiro responsável pelas relações com os países do Mercosul e a ministra-conselheira Emilia Cortés, encarregada de negócios da Argentina no Brasil.
Segundo informações divulgadas inicialmente pelo UOL e confirmadas pelo Metrópoles, a reunião durou poucos minutos e teve caráter informativo. O objetivo foi buscar esclarecimentos sobre as circunstâncias da passagem de Flávio pelo território argentino e eventual participação de autoridades locais na organização do deslocamento.
Fontes diplomáticas afirmaram que o encontro não foi tratado como uma reprimenda formal ao governo Milei.
Brasil busca informações sem ampliar crise diplomática
A iniciativa do Itamaraty ocorre em meio à preocupação do governo brasileiro com possíveis desdobramentos internacionais da saída de Flávio Bolsonaro do país.
Apesar das suspeitas levantadas sobre a participação de pessoas próximas ao presidente argentino, a orientação do Palácio do Planalto é evitar medidas que agravem as relações com Buenos Aires e Washington.
A convocação da representante argentina foi apresentada como uma oportunidade para obter informações diretamente do governo vizinho, sem antecipar conclusões sobre eventual envolvimento de autoridades na viagem.
Emilia Cortés está à frente da representação diplomática argentina em Brasília após o afastamento dos embaixadores dos dois países, consequência do desgaste político entre os governos de Lula e Milei.
Flávio passou pela Argentina antes de seguir para os Estados Unidos
Flávio Bolsonaro deixou o Brasil na noite de terça-feira (27 de outubro), dois dias depois de perder o segundo turno das eleições presidenciais para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo as informações divulgadas sobre o trajeto, o senador atravessou a fronteira pela região de Foz do Iguaçu (PR), em direção a Puerto Iguazú, na província argentina de Misiones.
O governo argentino confirmou que Flávio entrou no país por volta das 22h50 e embarcou aproximadamente 40 minutos depois, às 23h30, em uma aeronave particular operada pela empresa Baires Fly S.A.
O avião, um Gulfstream G400, seguiu para Guayaquil, no Equador, antes de completar o deslocamento até Miami, nos Estados Unidos, onde o senador chegou na manhã de quarta-feira (28).
Flávio estava acompanhado da esposa e das duas filhas.
A viagem ocorreu após determinações judiciais brasileiras relacionadas à entrega de passaportes e a restrições de deslocamento internacional.
O senador nega ter fugido do país e afirma que pretende continuar sua atuação política a partir dos Estados Unidos.
Imprensa argentina aponta possível atuação de assessor de Milei
Reportagens publicadas na Argentina mencionaram a possível participação de Santiago Caputo, um dos principais assessores políticos de Javier Milei, na organização da passagem de Flávio Bolsonaro pelo país.
As informações levantaram questionamentos sobre o conhecimento e a eventual atuação de integrantes do governo argentino na logística da viagem.
Até o momento descrito nas reportagens, porém, não havia confirmação oficial de que Caputo tenha participado da operação ou de que o governo Milei tenha coordenado a saída do senador do Brasil.
É justamente esse possível envolvimento que o Itamaraty procura esclarecer por meio dos canais diplomáticos.
A passagem de Flávio pela Argentina está documentada nas informações divulgadas sobre seu deslocamento, mas a existência de uma atuação deliberada de autoridades argentinas para facilitar eventual descumprimento de ordem judicial brasileira ainda depende de comprovação.
Relação entre Lula e Milei já enfrentava desgaste
O episódio ocorre em um momento de dificuldades nas relações diplomáticas entre Brasil e Argentina.
Desde a chegada de Javier Milei à Presidência argentina, divergências políticas e declarações públicas dirigidas ao presidente Lula provocaram atritos entre os dois governos.
O desgaste levou à retirada dos embaixadores das respectivas representações diplomáticas, reduzindo o nível de interlocução entre Brasília e Buenos Aires.
Com isso, a ministra-conselheira Emilia Cortés passou a responder pela representação argentina na capital brasileira.
Apesar das diferenças políticas, Brasil e Argentina mantêm relações comerciais relevantes e participam do Mercosul, o que exige diálogo permanente sobre questões econômicas e regionais.
Planalto evita transformar episódio em confronto internacional
A postura adotada pelo governo brasileiro indica uma tentativa de separar as investigações relacionadas a Flávio Bolsonaro das relações diplomáticas com outros países.
Integrantes do Planalto consideram que eventuais responsabilidades pela saída do senador devem ser apuradas pelas autoridades judiciais e policiais competentes.
Ao mesmo tempo, o governo procura preservar canais de negociação com a Argentina e os Estados Unidos, evitando que o caso comprometa outras agendas bilaterais.
A reunião com Emilia Cortés, portanto, representou um pedido de informações, e não o anúncio de uma medida de retaliação diplomática.
O Itamaraty aguarda esclarecimentos sobre a possível participação de integrantes do governo argentino na viagem de Flávio Bolsonaro, enquanto o Palácio do Planalto mantém a orientação de não ampliar a crise com o governo de Javier Milei.
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