Política / Investigação
Ex-presidente do BRB afirma à PF que Ibaneis pediu negociação para vender banco ao Master
Paulo Henrique Costa relatou suposta orientação durante jantar na casa de Daniel Vorcaro; defesa do ex-governador nega o pedido e contesta a versão apresentada
29/10/2026
17:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, afirmou à Polícia Federal (PF) que o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) pediu que ele estruturasse uma negociação para vender o banco público ao Banco Master, então controlado pelo empresário Daniel Vorcaro. A declaração foi prestada em depoimento realizado em 15 de outubro, mas a defesa de Ibaneis nega que ele tenha feito qualquer solicitação nesse sentido.
Segundo reportagem do Metrópoles, o relato integra o material encaminhado pela Polícia Federal ao Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da investigação sobre operações envolvendo as duas instituições financeiras.
Paulo Henrique, Vorcaro e outros investigados foram indiciados pela PF. O indiciamento representa uma conclusão da investigação policial sobre possíveis responsabilidades, mas não equivale a uma condenação judicial.
Encontro teria ocorrido na residência de Vorcaro
No depoimento, Paulo Henrique afirmou que recebeu, em 24 de setembro, uma mensagem do gabinete de Ibaneis convocando-o para um jantar na residência de Daniel Vorcaro.
O ex-presidente do BRB relatou que estava na Bahia e precisou retornar a Brasília para participar do encontro.
“Eu tento fugir, mas não dava para fugir do jantar”, declarou aos investigadores.
Segundo sua versão, o governador estava entre os presentes e, durante a conversa, teria solicitado a elaboração de uma proposta de venda do BRB ao Master.
“O governador fala: ‘olha Paulo, eu queria te apresentar o Daniel’. Eu falei: ‘Eu já conheço, a gente faz algumas cessões de crédito e tal’”, relatou.
Na sequência, de acordo com o depoente, Ibaneis teria feito o pedido diretamente.
“Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master”, afirmou Paulo Henrique, reproduzindo as palavras que atribuiu ao então governador.
O ex-gestor disse ter sido surpreendido porque, internamente, defendia a manutenção do banco sob controle público.
Participação do Iprev teria sido mencionada
Ainda segundo Paulo Henrique, Ibaneis teria indicado a possibilidade de negociar ações do BRB pertencentes ao Instituto de Previdência dos Servidores do Distrito Federal (Iprev).
O ex-presidente afirmou que o instituto possuía, à época, aproximadamente 16,5% de participação no banco, percentual citado de memória durante o depoimento.
“Vender o banco não é uma decisão do presidente, é uma decisão do acionista”, declarou, ao explicar sua interpretação sobre as atribuições de cada parte.
Na versão apresentada à PF, o ex-governador teria mencionado especificamente a intenção de vender a participação acionária do Iprev.
A negociação de uma participação acionária, entretanto, não significa necessariamente a transferência integral do controle de uma instituição financeira. O alcance de uma eventual operação dependeria da estrutura proposta e das autorizações exigidas.
Paulo Henrique afirmou que, embora discordasse da iniciativa, entendia que deveria cumprir a orientação por considerar que a decisão caberia aos acionistas.
Ex-gestor relata desentendimento com Vorcaro
O depoente também afirmou ter ficado irritado com Daniel Vorcaro por supostamente ter organizado a reunião com Ibaneis sem comunicá-lo previamente.
Segundo ele, os investigadores poderiam encontrar mensagens enviadas ao empresário demonstrando sua insatisfação.
Paulo Henrique relatou ainda que, em conversa posterior com o então governador, voltou a manifestar posição contrária à privatização do BRB.
“Eu fui pego de surpresa, mas de maneira contrária”, declarou.
Apesar da discordância, afirmou que o pedido teria sido apresentado como uma decisão dos acionistas, e não da administração executiva do banco.
Defesa de Ibaneis nega pedido de venda
Procurada pelo Metrópoles, a defesa de Ibaneis Rocha contestou expressamente a versão apresentada pelo ex-presidente do BRB.
Em manifestação assinada por advogados liderados por Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, a defesa afirmou que o ex-governador nunca orientou Paulo Henrique a negociar a instituição com o Banco Master.
Segundo os advogados, Ibaneis “jamais sugeriu ao então presidente do BRB, que era pessoa de sua confiança técnica, que tomasse qualquer decisão no sentido de abrir negociações com o Banco Master”.
A defesa também sustentou que Paulo Henrique possuía autonomia para conduzir as operações do banco.
“Neste contexto, não é verdade que o ex-governador tenha apresentado o banqueiro Daniel Vorcaro ao então presidente do BRB”, acrescentou.
As declarações evidenciam versões divergentes sobre a reunião e sobre a eventual participação de Ibaneis nas tratativas envolvendo as instituições financeiras.
Depoente não identifica todos os participantes
Durante o depoimento, Paulo Henrique informou que sete pessoas participaram do jantar na residência de Vorcaro.
Ao ser questionado sobre a identidade dos demais presentes, seus advogados solicitaram que não fossem divulgados outros nomes naquele momento, mencionando a expectativa de um possível acordo de colaboração premiada.
O ex-presidente do BRB não identificou os demais participantes.
A referência a uma possível colaboração não significa que exista acordo firmado ou homologado pela Justiça.
Investigação busca esclarecer responsabilidades
O relato de Paulo Henrique acrescenta uma nova versão à investigação sobre as relações entre o BRB e o Banco Master.
A Polícia Federal deverá avaliar as declarações em conjunto com documentos, mensagens e outros elementos reunidos durante a apuração.
Até o momento, o depoimento apresentado na reportagem não comprova, isoladamente, que Ibaneis tenha determinado a venda do banco ou participado de alguma irregularidade.
A defesa do ex-governador rejeita a acusação, enquanto as circunstâncias do encontro e a eventual existência de tratativas para negociação de ações permanecem entre os pontos a serem esclarecidos pela investigação.
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