Política / Internacional
Senadora dos EUA acusa Trump de usar governo para proteger Flávio Bolsonaro
Jeanne Shaheen critica autorização de entrada concedida ao senador brasileiro e promete fiscalização sobre possíveis interferências americanas após a reeleição de Lula
30/10/2026
15:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A senadora democrata Jeanne Shaheen, principal representante de seu partido na Comissão de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos, acusou o presidente Donald Trump de utilizar mecanismos do governo americano para favorecer o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado nas eleições presidenciais brasileiras de 2026.
Em entrevista, a parlamentar classificou como “flagrante e indevido” o suposto uso de instrumentos legais para beneficiar aliados políticos, ao comentar a autorização de entrada concedida a Flávio e as notícias sobre a participação de integrantes do governo americano na organização de sua viagem.
Shaheen também criticou as alegações de fraude eleitoral apresentadas pelo senador brasileiro após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no segundo turno de 25 de outubro.
A democrata afirmou que o Congresso americano deverá acompanhar as próximas decisões da Casa Branca relacionadas ao Brasil, especialmente diante da possibilidade de novas sanções e medidas comerciais.
Senadora questiona autorização humanitária concedida a Flávio
A principal crítica de Jeanne Shaheen está relacionada à autorização de entrada por motivos humanitários que, segundo informações divulgadas, permitiu a permanência temporária de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos.
Para a parlamentar, o episódio levanta dúvidas sobre a utilização de procedimentos migratórios para beneficiar pessoas politicamente próximas ao presidente americano.
“A decisão do governo Trump de conceder autorização humanitária de entrada a Flávio Bolsonaro, investigado por graves crimes financeiros no Brasil, é o exemplo mais recente do uso flagrante e indevido de instrumentos legais pelo governo para proteger aliados políticos”, declarou.
A referência às investigações brasileiras foi feita pela senadora. A existência de procedimentos investigatórios não equivale a uma condenação, e a crítica apresentada representa a avaliação política de Shaheen sobre a atuação do governo americano.
A parlamentar também manifestou preocupação com reportagens do The New York Times e do The Wall Street Journal que apontaram a participação de Jason Miller, ligado à Casa Branca, na contratação da aeronave utilizada pelo senador brasileiro.
As informações publicadas pelos jornais são citadas como parte dos questionamentos sobre a viagem. A eventual responsabilidade de autoridades americanas por irregularidades ainda depende de esclarecimentos oficiais.
Democrata critica contestação do resultado eleitoral brasileiro
Shaheen também se posicionou contra a recusa de Flávio Bolsonaro em reconhecer sua derrota para Lula.
Após chegar aos Estados Unidos, o senador divulgou uma carta na qual se apresentou inicialmente como presidente eleito do Brasil. Posteriormente, o texto foi alterado para identificá-lo como “líder do Brasil”.
Na avaliação da parlamentar americana, as acusações de fraude feitas por Flávio não encontram respaldo nas avaliações dos observadores internacionais.
Ela citou o Carter Center e a Organização dos Estados Americanos (OEA) como instituições que, segundo suas declarações, reconheceram a integridade do processo eleitoral brasileiro.
“As acusações infundadas de fraude de Flávio Bolsonaro e sua recusa em reconhecer a derrota são uma afronta à vontade do povo brasileiro”, afirmou.
A senadora comparou o episódio às contestações eleitorais promovidas por Trump e seus aliados nos Estados Unidos.
Para Shaheen, o respeito aos resultados eleitorais é uma condição essencial para a manutenção das relações democráticas entre os dois países.
Tarifas e sanções também preocupam parlamentares americanos
Outro ponto abordado na entrevista foi a possibilidade de Flávio Bolsonaro e seu irmão, Eduardo Bolsonaro, buscarem apoio do governo Trump para novas medidas econômicas contra o Brasil.
A senadora criticou a política comercial adotada pela Casa Branca e afirmou que decisões anteriores prejudicaram o relacionamento bilateral.
Na avaliação de Shaheen, o Brasil representa um parceiro estratégico para os Estados Unidos por sua dimensão econômica e importância regional.
Ela argumentou que o uso de tarifas e outras medidas de pressão política pode comprometer interesses comerciais compartilhados e dificultar a cooperação diplomática.
A parlamentar também sustentou que o desgaste entre Brasília e Washington pode favorecer uma aproximação econômica brasileira com a China.
Essas considerações refletem a posição da senadora sobre a política externa americana e não representam uma avaliação oficial do governo brasileiro.
Congresso promete fiscalizar decisões de Trump sobre o Brasil
Jeanne Shaheen afirmou que os democratas pretendem intensificar a fiscalização das medidas adotadas pelo governo americano em relação ao Brasil.
A declaração ocorre às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, quando estará em disputa a composição do Congresso.
Segundo a parlamentar, independentemente das divergências políticas, Washington deve reconhecer o resultado das eleições brasileiras e preservar a cooperação institucional com o governo reeleito.
“O povo brasileiro fez sua voz ser ouvida, e os Estados Unidos devem respeitar sua decisão. O Congresso está pronto para trabalhar com o governo Lula a fim de promover nossos interesses comuns”, declarou.
Shaheen acrescentou que os parlamentares democratas exercerão “uma fiscalização rigorosa” para acompanhar eventuais novas ações da administração Trump relacionadas ao Brasil.
A fiscalização parlamentar pode envolver pedidos de informações, audiências e questionamentos a integrantes do Executivo, dentro das atribuições do Congresso americano.
Críticas ampliam pressão política sobre a Casa Branca
As declarações de Jeanne Shaheen se somam aos questionamentos apresentados por 25 deputados democratas ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, sobre a concessão de documentos migratórios e a possível participação de autoridades dos Estados Unidos na viagem de Flávio Bolsonaro.
Os deputados solicitaram esclarecimentos sobre o conhecimento das restrições judiciais brasileiras, a emissão dos documentos e a logística utilizada para a entrada do senador em território americano.
O prazo indicado na carta para o envio das respostas é 13 de novembro de 2026.
As manifestações demonstram que o episódio passou a ser objeto de cobrança política dentro do Congresso dos Estados Unidos, embora as acusações de uso indevido de instrumentos governamentais ainda não constituam conclusões de uma investigação.
Quem é Jeanne Shaheen
Aos 79 anos, Jeanne Shaheen representa o estado de New Hampshire no Senado americano desde 2009.
Integrante do Partido Democrata, ocupa a posição de principal representante da legenda na Comissão de Relações Exteriores do Senado.
Antes de chegar ao Congresso, governou New Hampshire entre 1997 e 2003.
É formada em inglês pela Shippensburg University of Pennsylvania e possui mestrado em ciência política pela Universidade do Mississippi.
Sua atuação na comissão dá relevância institucional às cobranças dirigidas ao governo Trump, especialmente em assuntos relacionados à diplomacia e às relações internacionais.
O caso Flávio Bolsonaro, inicialmente concentrado nas circunstâncias de sua saída do Brasil, passou a envolver também o debate sobre os limites da atuação do governo americano em questões políticas e judiciais de outros países.
A entrevista foi publicada pela Folha de S.Paulo. Reportagens da Reuters e da CNN Brasil também confirmam que Flávio recebeu uma autorização temporária de entrada nos Estados Unidos, chamada parole, que não equivale a visto nem a asilo político.
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