Campo Grande (MS), Terça-feira, 23 de Junho de 2026

Política / Opinião

Sinais de Trump na América Latina acendem alerta para eleição brasileira de 2026

Vitória da direita na Colômbia, acenos ao bolsonarismo e críticas ao sistema eleitoral colocam o Brasil no centro da disputa regional

23/06/2026

17:00

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

A movimentação recente da direita latino-americana acendeu um sinal de alerta no governo brasileiro e entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A vitória da extrema direita na Colômbia, somada a manifestações de Donald Trump e de setores ligados ao bolsonarismo, reforça a percepção de que a eleição brasileira de 2026 poderá entrar no radar direto da disputa política internacional.

Na Colômbia, o resultado eleitoral foi recebido com preocupação por lideranças progressistas da região. O presidente Gustavo Petro levantou questionamentos sobre a apuração, enquanto aliados de Trump celebraram mais um avanço de forças conservadoras na América Latina. Para o governo Lula, o episódio é observado como parte de um movimento mais amplo de reorganização da direita no continente.

O segundo sinal veio dos Estados Unidos. Na madrugada desta terça-feira, Trump compartilhou em sua rede social um texto de um articulista alinhado ao seu campo político, comemorando vitórias recentes de aliados trumpistas na América Latina e apontando o Brasil como o próximo grande teste regional.

A leitura feita por integrantes do campo governista é de que o ex-presidente norte-americano pretende manter influência sobre disputas políticas no continente, especialmente em países governados por lideranças progressistas. O Brasil, pela dimensão econômica, pelo peso diplomático e pela liderança regional de Lula, naturalmente passa a ocupar lugar central nessa estratégia.

Também circulam rumores de que Trump poderá voltar a atacar o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), caso o ex-presidente Jair Bolsonaro tenha nova decisão judicial desfavorável. Esse tipo de manifestação, se ocorrer, tende a ampliar a tensão entre setores da direita norte-americana e instituições brasileiras.

A derrota do campo progressista na Colômbia tem peso especial para Lula. Depois da vitória de Javier Milei na Argentina, a mudança colombiana amplia o isolamento regional do presidente brasileiro entre os maiores países da América do Sul. Hoje, entre os governos progressistas do continente, restam com maior proximidade política o Brasil e o Uruguai, este com peso econômico e geopolítico menor.

A Colômbia era importante para a política externa brasileira em temas como integração regional, meio ambiente, segurança, transição energética e cooperação amazônica. O presidente Gustavo Petro era visto como aliado relevante nessas pautas. Apesar de o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, defender que o Brasil manterá diálogo com o novo governo colombiano, a expectativa é de maior alinhamento de Bogotá com Washington.

A vitória de Abelardo de la Espriella, conhecido como “El Tigre”, também foi comemorada por setores bolsonaristas no Brasil. Uma de suas principais bandeiras é o endurecimento das políticas de segurança pública, com proposta de construção de grandes presídios inspirados no modelo adotado por Nayib Bukele, em El Salvador.

Esse discurso deve ser usado como comparação na campanha brasileira de 2026, especialmente para pressionar o governo Lula na área de segurança pública. A oposição tende a explorar o tema como uma das principais frentes de desgaste eleitoral.

Outro ponto de atenção é o debate sobre o sistema eleitoral brasileiro. Artigo publicado no site norte-americano Newsmax, assinado por John Gizzi, menciona discussões sobre se a disputa no Brasil será considerada livre e justa por todos os lados. No Brasil, porém, não há debate institucional relevante sobre a lisura das urnas eletrônicas ou do processo eleitoral.

A contestação preventiva de resultados eleitorais é uma marca recorrente do trumpismo e de grupos de extrema direita em diferentes países. Por isso, qualquer tentativa de colocar sob suspeita o sistema eleitoral brasileiro antes mesmo da disputa precisa ser observada com atenção pelas instituições democráticas.

Se a eleição brasileira passou a ser tratada como peça importante na estratégia política de Trump para a América Latina, o governo Lula e as forças democráticas terão de se preparar para um ambiente eleitoral mais tensionado. A presença de observadores internacionais, o fortalecimento da transparência institucional e a atuação firme da Justiça Eleitoral podem ser fundamentais para reduzir espaços de contestação artificial.

Há ainda um elemento interno relevante: durante o pleito de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) será presidido pelo ministro Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro. Esse fator deve aumentar a atenção política sobre a condução do processo eleitoral, ainda que a Justiça Eleitoral brasileira tenha histórico consolidado de organização e fiscalização das eleições.

O cenário exige cautela. A eleição de 2026 não será apenas uma disputa nacional entre governo e oposição. Ela tende a ocorrer em meio a uma reorganização da direita continental, ao avanço do trumpismo sobre a América Latina e a uma disputa internacional cada vez mais explícita por influência política.

Para o Brasil, o desafio será proteger a soberania do processo eleitoral, impedir interferências externas e garantir que a escolha do próximo presidente seja feita exclusivamente pelos eleitores brasileiros.


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