Campo Grande (MS), Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

Agronegócio  / Mercado

Carne de jumento movimenta tradição alimentar e comércio global em vários países

Proteína asinina é consumida há milênios e integra cadeias econômicas na Ásia, Europa, África e América Latina

17/06/2026

10:30

DA REDAÇÃO

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O consumo de carne de jumento atravessa séculos e permanece presente em tradições alimentares de diferentes regiões do mundo. Embora ainda cause estranhamento em parte da população brasileira, a proteína asinina integra sistemas culturais, gastronômicos e econômicos na Ásia, Europa, África e América Latina, além de movimentar cadeias comerciais ligadas à carne, couro, leite, colágeno e derivados.

Poucos animais estiveram tão ligados à formação das sociedades quanto o jumento. Usado historicamente no transporte de pessoas, alimentos, água, minérios e mercadorias, o Equus asinus também teve papel importante na agricultura, nas rotas comerciais da Antiguidade e em campanhas militares. No semiárido brasileiro, especialmente no Nordeste, o animal foi durante décadas peça essencial no cotidiano rural, antes de perder espaço para veículos motorizados.

Menos conhecida, no entanto, é a presença do jumento na alimentação humana. A prática acompanha diferentes civilizações desde os primeiros processos de domesticação animal. Estima-se que o jumento tenha sido domesticado há cerca de sete mil anos, no nordeste da África, antes de se espalhar pelo Oriente Médio, pela Ásia e por outras regiões do mundo.

Na China, a carne asinina consolidou uma das tradições mais antigas e economicamente relevantes. Desde períodos imperiais, o produto deixou de ser apenas alimento popular e passou a ocupar espaço também como iguaria, principalmente nas províncias do norte do país.

O prestígio gastronômico é resumido em um antigo provérbio chinês: “carne de dragão no céu, carne de jumento na terra”. Entre os pratos mais conhecidos está o Lürou Huoshao, chamado internacionalmente de Donkey Burger, sanduíche feito com carne de jumento cozida lentamente e servida em pão crocante. A proteína também é utilizada em preparos como o hotpot, prato muito popular na culinária chinesa.

Além da carne, a China desenvolveu uma cadeia ligada ao ejião, gelatina medicinal obtida a partir do colágeno da pele do animal e usada há milhares de anos na medicina tradicional chinesa. Esse aproveitamento integrado de carne, couro, leite e derivados transformou o jumento em ativo econômico importante para o mercado asiático contemporâneo.

Na Europa Mediterrânea, o consumo também mantém raízes históricas. Países como Itália, França e regiões da Península Ibérica preservaram pratos tradicionais com carne de jumento. No norte italiano, receitas como Stracotto d’Asino, Ragù d’Asino e Stufato d’Asino atravessaram gerações. Já na França e na Bélgica, embutidos artesanais como o Saucisson d’Âne mantêm viva essa cultura alimentar.

Em períodos de escassez, especialmente durante as Guerras Napoleônicas, a carne de equídeos ganhou relevância como fonte de proteína para populações urbanas e tropas militares. A ampliação do consumo levou governos europeus a regulamentarem o abate e a comercialização desses animais no século XIX.

Na América Latina, também há registros relevantes. No México, o chito, carne asinina salgada, curada e seca, é comercializado há décadas por vendedores ambulantes. Em países como Peru, Bolívia e Colômbia, a carne de jumento foi usada na produção de embutidos populares por ter baixo teor de gordura e custo mais acessível. Em algumas regiões bolivianas, chegou a substituir o charque bovino e de lhama em momentos de maior pressão econômica.

O consumo tradicional ainda aparece em países da Ásia Central, como Cazaquistão e Quirguistão, além de regiões do Vietnã, do sul da Nigéria e de Burkina Faso. Mais recentemente, na Argentina, um projeto de fornecimento de proteína asinina em cadeias alternativas de consumo ganhou repercussão nacional.

No século XXI, a demanda internacional voltou a crescer, impulsionada principalmente pelo mercado asiático. A urbanização chinesa, a mecanização agrícola e a redução de áreas destinadas à criação animal contribuíram para a queda do rebanho asinino na China. Com isso, países da África, da Ásia Central e da América Latina passaram a integrar cadeias globais de exportação de carne, couro, colágeno e derivados.

O Brasil aparece como país relevante nesse cenário por ser um dos maiores produtores mundiais de proteína animal e possuir sistema de inspeção sanitária reconhecido internacionalmente. No Nordeste, especialmente no bioma Caatinga, os asininos se adaptaram ao clima semiárido desde o período colonial e formaram um rebanho numeroso, mesmo após décadas de abandono e substituição por máquinas e veículos.

A legislação brasileira permite o abate de equídeos desde 1952, com fiscalização do Ministério da Agricultura e regras previstas no Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA). O processo exige critérios de inspeção, rastreabilidade e bem-estar animal, como ocorre em outras cadeias de proteína de origem animal.

Mais do que uma discussão econômica ou ideológica, a proteína de jumento mostra como cultura, religião, ciência, necessidade alimentar e mercado influenciam os hábitos de consumo ao longo da história. O animal que ajudou a transportar cargas, movimentar lavouras e sustentar comunidades rurais segue presente em cadeias globais que conectam tradição, nutrição, saúde, indústria e comércio internacional.

Por Alex Bastos, zootecnista e administrador agropecuário.


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