Política / Investigação
Vorcaro tratou filme ligado a Bolsonaro como prioridade após cobrança atribuída a Flávio, mostram mensagens
Diálogos revelados pelo Intercept apontam que dono do Banco Master passou a acompanhar pessoalmente pagamentos para o projeto “Dark Horse”
02/06/2026
19:00
INTERCEPT
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Mensagens reveladas pelo Intercept Brasil indicam que o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, passou a tratar como prioridade os pagamentos relacionados ao filme “Dark Horse”, projeto cinematográfico ligado à família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), após uma cobrança atribuída ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Os diálogos, divulgados na série Vaza Flávio, mostram que, em janeiro de 2025, Vorcaro demonstrou preocupação específica com o cronograma financeiro do filme, mesmo em meio a outros pagamentos milionários pendentes em sua estrutura pessoal e empresarial.
Segundo as mensagens, a execução de parte dos pagamentos ligados ao banqueiro era concentrada pelo empresário e pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como homem de confiança do dono do Banco Master. Zettel aparece em conversas coordenando operações financeiras e relatando ao banqueiro a existência de 55,5 milhões em pagamentos pendentes, sem especificação, nas mensagens, se o valor era em reais ou dólares.
Apesar do volume de compromissos financeiros, o material divulgado aponta que o projeto cinematográfico recebeu atenção especial após uma cobrança feita pelo empresário brasiliense Thiago Miranda, responsável por aproximar Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro nas tratativas do filme.
De acordo com as mensagens, em 20 de janeiro de 2025, data prevista para o primeiro aporte do cronograma financeiro do projeto, Thiago Miranda enviou uma mensagem a Daniel Vorcaro cobrando agilidade no pagamento.
“Cara, hoje é a data limite daquele primeiro aporte filme. Preciso acelerar. Estamos no laço”, escreveu Miranda ao banqueiro.
Na mesma conversa, Miranda informou que já havia falado com Fabiano Zettel, escalado por Vorcaro para operacionalizar parte dos pagamentos. Em seguida, encaminhou ao banqueiro uma captura de tela de uma conversa com Flávio Bolsonaro.
Na mensagem atribuída ao senador, cuja data não pôde ser confirmada no material divulgado, Flávio pede que Miranda pressione o jurídico do investidor para destravar a operação.
“Fala Thiago, te escrevo a pedido do pessoal do nosso filme pra vc dar um gás na resposta do jurídico do investidor”, escreveu Flávio, segundo a reprodução divulgada.
O senador também teria acrescentado: “Lembrando que estamos com o roteirista amarrado até janeiro só”. Em seguida, encerrou a mensagem em tom informal: “Ela me perturbam e eu te perturbo aqui!! rs”.
Pouco depois de receber a cobrança de Miranda, Daniel Vorcaro respondeu: “Vou atras aqui”.
Nos dias seguintes, as mensagens indicam que Vorcaro passou a acompanhar pessoalmente a situação dos pagamentos. Em 21 de janeiro, Fabiano Zettel voltou a procurar o banqueiro em busca de orientação sobre os compromissos financeiros pendentes.
“Me dá um norte?”, escreveu Zettel.
Na sequência, completou: “Mesmo que seja ‘não faz porra nenhuma até eu voltar’…”.
Zettel informou então: “Total = 55,5M”. Depois, perguntou: “Manda quanto? Paga o que?”.
Horas depois, Vorcaro questionou especificamente sobre o projeto cinematográfico: “O filme ta nesse negocio?”.
Zettel respondeu que não e justificou que o fluxo financeiro era elevado. “Porque o fluxo é gigante… 10 de 2.5 de dólares”, escreveu.
A referência sugere um cronograma de pagamentos em dólares, compatível com documentos financeiros divulgados anteriormente pelo Intercept, que apontaram um planejamento de aportes de quase US$ 24 milhões para o projeto cinematográfico. Pela cotação da época, o valor equivaleria a aproximadamente R$ 134 milhões.
A preocupação de Daniel Vorcaro com o pagamento ao filme aparece de forma ainda mais direta em mensagens trocadas no dia 28 de janeiro de 2025.
Na ocasião, o banqueiro perguntou novamente a Fabiano Zettel se o pagamento relacionado ao projeto havia sido feito.
“Filme vc pagou?”, questionou Vorcaro.
A resposta foi negativa. “Irmão, Não vem 1 real tem 3 semanas… kkkkkkk Paguei foi nada…”, respondeu Zettel.
Poucos minutos depois, Zettel informou que o filme sequer estava incluído na lista de pagamentos pendentes que estava sendo processada naquele momento.
“E filme não está na lista de 55.5”, escreveu.
Foi então que Vorcaro respondeu: “Esse e o mais importante disparado”.
Na sequência, completou: “Nao pode falhar mais”.
As mensagens indicam que, para o banqueiro, os aportes ligados ao filme deveriam receber prioridade superior a outros compromissos financeiros em andamento.
Documentos já divulgados anteriormente pelo Intercept Brasil apontam que, até maio de 2025, pelo menos US$ 10,6 milhões foram recebidos pelo fundo Havengate, responsável pela produção do filme.
O fundo estaria sob controle de Paulo Calixto, advogado do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
A nova leva de mensagens ajuda a detalhar os bastidores desses repasses. Segundo a reportagem, os diálogos mostram que as transferências ligadas ao filme não eram tratadas como uma operação comum dentro do conjunto de compromissos financeiros de Daniel Vorcaro.
Ao contrário, mesmo diante de dezenas de milhões em pagamentos pendentes, o banqueiro teria determinado que o projeto cinematográfico era o compromisso mais importante naquele momento.
As conversas chamam atenção também pelo contexto vivido pelo Banco Master no início de 2025.
Segundo documentos e investigações citados pela reportagem, a instituição já enfrentava dificuldades relacionadas à liquidez, à captação de recursos e ao monitoramento regulatório desde o fim de 2024.
O Banco Central teria intensificado cobranças sobre capitalização e liquidez da instituição, enquanto o grupo buscava novas fontes de recursos.
É nesse cenário que as mensagens mostram Daniel Vorcaro mobilizado para garantir que os aportes destinados ao filme “Dark Horse” não fossem interrompidos.
O Intercept Brasil informou que procurou Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel, Flávio Bolsonaro, Thiago Miranda e Paulo Calixto para obter posicionamentos sobre as informações apresentadas.
Até a publicação da reportagem, não houve retorno dos citados. O espaço segue aberto para manifestação.
A revelação ocorre em meio ao aumento da exposição política de Flávio Bolsonaro, que tem sido citado em diferentes episódios envolvendo articulações políticas, relações com empresários e movimentações ligadas ao grupo bolsonarista.
O senador é pré-candidato à Presidência da República pelo PL e aparece como um dos principais nomes da família Bolsonaro no cenário eleitoral nacional.
As mensagens não indicam, por si só, conclusão judicial sobre irregularidade, mas colocam sob questionamento a relação entre agentes políticos, empresários e financiadores privados em torno de um projeto audiovisual ligado à imagem da família Bolsonaro.
No centro da controvérsia está o fato de que, após a cobrança atribuída a Flávio Bolsonaro, o dono do Banco Master passou a tratar os pagamentos ao filme como prioridade, chegando a afirmar que o projeto era “o mais importante disparado” e que “não pode falhar mais”.
Usei como base o conteúdo do arquivo enviado.
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