Política / Justiça
Flávio Bolsonaro celebra ação dos EUA contra PCC e CV, mas clã já teve vínculos citados com suspeitos do crime organizado
Relações políticas, homenagens, nomeações e alianças envolvendo integrantes da família Bolsonaro voltam ao debate após decisão dos EUA sobre facções brasileiras
31/05/2026
10:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas foi comemorada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do PL à Presidência. A medida, anunciada após uma visita dele ao ex-presidente norte-americano Donald Trump, passou a ser tratada pelo parlamentar como um trunfo político no debate sobre segurança pública.
O episódio, no entanto, reacendeu discussões sobre episódios anteriores envolvendo integrantes da família Bolsonaro e pessoas investigadas ou acusadas de ligação com o crime organizado, especialmente no Rio de Janeiro, onde milícias atuam há décadas em comunidades e bairros da capital e da região metropolitana.
Em nota, a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que a família não compactua com facções, grupos armados ou organizações criminosas. Também acusou o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ter mantido contato com pessoas ligadas ao crime, citando a ida de Luciane Farias, esposa de um homem apontado como liderança do Comando Vermelho no Amazonas, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública em 2023.
Segundo a pasta, Luciane participou de reuniões no ministério, mas o governo afirmou que não sabia de quem se tratava. O presidente Lula não se encontrou com ela.
Um dos casos mais citados é o do ex-policial militar Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio conhecido como Escritório do Crime.
Em 2005, Flávio Bolsonaro e Jair Bolsonaro visitaram Adriano na cadeia para entregar a ele a Medalha Tiradentes, uma das principais honrarias concedidas pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A homenagem foi proposta por Flávio, então deputado estadual.
Antes disso, em 2003, o ex-policial já havia recebido outra homenagem. Anos depois, Jair Bolsonaro afirmou à imprensa que a iniciativa teria ocorrido a pedido dele.
Adriano da Nóbrega foi morto em 2020, durante uma operação da Polícia Militar da Bahia, após passar mais de um ano foragido. Ele era acusado de envolvimento em homicídios no Rio de Janeiro e em exploração de máquinas caça-níqueis, atividade proibida no Brasil.
Outro ponto citado no histórico é a nomeação de Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano da Nóbrega, e de Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, esposa dele, no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj.
As duas permaneceram empregadas até 2018 e recebiam salários superiores a R$ 6 mil. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, elas teriam participado de um esquema de “rachadinha”, prática em que parte dos salários de assessores é devolvida ao parlamentar.
Flávio sempre negou as acusações. As investigações foram encerradas depois que o STF e o STJ anularam, em 2021, provas coletadas no caso.
De acordo com os investigadores, Danielle da Nóbrega teria repassado ao menos R$ 150 mil a Fabrício Queiroz, policial militar aposentado e ex-assessor de Flávio. Parte desses valores teria passado por contas controladas por Adriano da Nóbrega, além de contas vinculadas a restaurantes da família do ex-policial.
Além das nomeações e homenagens, declarações antigas de Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro sobre milícias voltaram a ser citadas no debate público.
Em 2018, Jair afirmou que, em regiões onde a milícia era paga, não haveria violência. Já Flávio, em discurso na Alerj, em 2007, classificou as milícias como uma “nova forma de policiamento”, expressão usada por ele com ressalva, mas que gerou críticas pela normalização de grupos armados.
As milícias são organizações criminosas formadas, em muitos casos, por ex-agentes ou agentes de segurança pública, com atuação em cobrança ilegal de moradores, exploração de serviços clandestinos, extorsão e controle territorial.
Outro episódio envolve os irmãos Alan Rodrigues Oliveira e Alex Rodrigues Oliveira, policiais militares presos em 2018 durante a Operação Quarto Elemento, que investigava uma quadrilha especializada em extorsões.
Naquele ano, os dois teriam participado da segurança da campanha de Flávio Bolsonaro ao Senado. Flávio negou que eles integrassem oficialmente a campanha. A irmã dos policiais, Valdenice de Oliveira Meliga, que foi assessora da liderança do PSL na Alerj e tesoureira do partido no Rio, afirmou que os irmãos atuavam como voluntários.
Em 2017, Flávio publicou uma foto ao lado de Valdenice e dos gêmeos, parabenizando-os pelo aniversário.
A aproximação da família Bolsonaro com o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União Brasil) também passou a ser citada.
Bacellar estreitou laços com Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro a partir de 2024, em meio a articulações eleitorais no Rio de Janeiro. Ele chegou a ser tratado como possível nome apoiado pelo grupo para disputar o governo estadual.
Depois, Bacellar perdeu o mandato e foi preso sob suspeita de integrar organização criminosa e de vazar informações para beneficiar o Comando Vermelho.
Outro episódio recente envolve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por crimes relacionados ao Banco Master, incluindo suspeitas de organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro.
Áudio divulgado pelo site The Intercept Brasil apontou que Flávio Bolsonaro mantinha contato com Vorcaro. Segundo a reportagem, o empresário teria combinado o pagamento de R$ 134 milhões para financiar o filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro.
Depois, Flávio afirmou que Vorcaro pagou cerca de R$ 60 milhões pelo projeto e admitiu ter cobrado parcelas pendentes, alegando que se tratava de recursos privados. O senador também reconheceu ter se encontrado pessoalmente com o ex-banqueiro para encerrar a relação.
A fraude atribuída ao Banco Master teria provocado prejuízo de pelo menos R$ 41 bilhões ao sistema financeiro nacional, com impacto também sobre o Banco de Brasília (BRB).
A assessoria de Flávio Bolsonaro rejeitou a tese de proximidade com grupos criminosos. Em nota, afirmou que não existe boletim de ocorrência ou processo que sustente essa associação.
O senador também costuma dizer que as acusações envolvendo seu gabinete na Alerj fizeram parte de uma tentativa de destruir sua reputação. Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda, em março, Flávio declarou que nunca houve processo criminal contra ele e negou ter cobrado parte dos salários de assessores.
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