Política / Governo
Kassab libera participação do PSD no novo governo Lula, mas defende independência do partido
Presidente nacional da sigla também analisa derrota de Flávio Bolsonaro e propõe mudanças nas regras eleitorais e no funcionamento do Judiciário.
27/10/2026
16:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, anunciou nesta terça-feira (27) que integrantes do partido poderão ocupar cargos no quarto governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito no domingo (25). A autorização, entretanto, não representa adesão automática da legenda à base governista, segundo o dirigente.
Durante evento promovido pelo Dominium Group, em Brasília, Kassab afirmou que o PSD pretende preservar sua autonomia política, mesmo diante da possibilidade de ampliar sua participação na administração federal.
“Sobre o novo governo, vamos permitir que nossos companheiros integrem o governo, mas sem submissão. A independência é o melhor caminho”, declarou.
A posição ocorre após o PSD permanecer neutro no segundo turno da eleição presidencial. A legenda havia lançado Ronaldo Caiado como candidato ao Palácio do Planalto, mas ele não avançou à etapa final da disputa.
Diferentemente de outras grandes siglas do centro político, que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL), o PSD não declarou apoio formal a nenhum dos dois candidatos.
A neutralidade adotada durante a campanha é considerada por integrantes do PSD um fator que pode facilitar as negociações com o presidente reeleito.
Nos bastidores, dirigentes da legenda esperam que a postura seja considerada na distribuição dos ministérios e de outros cargos da administração federal.
No atual mandato de Lula, o PSD participou do governo com representantes nos ministérios da Agricultura, Minas e Energia e Pesca.
Apesar da possibilidade de manutenção ou ampliação desses espaços, Kassab sinalizou que a participação de filiados não deverá comprometer a independência partidária.
O dirigente também comentou o resultado da eleição presidencial, marcada pela recuperação de Lula no segundo turno, depois de Flávio Bolsonaro terminar a primeira etapa da disputa à frente.
Na avaliação de Kassab, o desempenho do presidente reeleito não foi uma surpresa para quem acompanhava a evolução das intenções de voto.
“Lula é um sênior da política às vésperas de se aposentar. O conhecimento sobre Flávio só ocorreu no segundo turno, quando os candidatos ficam expostos. Todos já conheciam quem é Lula”, afirmou.
Segundo o presidente do PSD, levantamentos internos já indicavam crescimento gradual de Lula antes da votação decisiva.
“Quem observava os trackings viu, desde o primeiro turno, uma ascendência de Lula maior, numa curva lenta, e Flávio paralisado”, declarou.
Kassab argumentou que a campanha pelo voto útil havia concentrado em Flávio Bolsonaro parte significativa do eleitorado mais identificado com o bolsonarismo, enquanto os votos restantes de outros candidatos não migrariam necessariamente para o senador.
Além das articulações para o novo governo, Kassab defendeu uma reforma eleitoral que substitua o atual modelo proporcional pelo voto distrital misto nas eleições legislativas.
Nesse sistema, parte dos deputados seria escolhida diretamente pelos eleitores de distritos territoriais, enquanto as demais vagas seriam preenchidas conforme a votação recebida pelos partidos.
O dirigente criticou o peso das redes sociais nas disputas eleitorais e citou os resultados de Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP), que receberam votações expressivas e contribuíram para a eleição de outros candidatos de suas legendas.
Na avaliação de Kassab, o modelo atual permite que parlamentares concentrem votos em regiões com as quais mantêm pouca ligação presencial.
“De 80% a 90% dos eleitores deles nunca os viram, nunca os encontraram, e nunca vão encontrá-los”, afirmou.
O dirigente também criticou o que considera uma atuação parlamentar excessivamente orientada pela repercussão nas redes sociais, em detrimento da elaboração de políticas públicas.
A proposta de reforma ganhou relevância após o PL conquistar 121 cadeiras na Câmara dos Deputados e alcançar 29 representantes no Senado nas eleições de 2026.
Kassab anunciou que o PSD pretende adotar uma posição obrigatória em favor do voto distrital misto.
“O PSD vai fechar questão pelo distrital misto. Quem não votar vai ser convidado a deixar o partido”, declarou.
A intenção é que o Congresso discuta a reforma ainda em 2026, antes da posse dos parlamentares eleitos. Eventuais mudanças, contudo, dependerão da aprovação legislativa e das regras constitucionais aplicáveis.
Kassab defendeu ainda alterações na composição e no funcionamento dos tribunais superiores, em meio ao debate político provocado pelas investigações relacionadas ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
O dirigente apresentou como proposta o estabelecimento de idade mínima de 60 anos para ingresso nos tribunais superiores, acompanhada de mandatos de 12 anos.
Também sugeriu períodos de restrição profissional e política após a saída dos magistrados dessas cortes.
“Um denominador comum de grande chance de ser aprovado é a idade mínima de 60 anos com mandato de 12 anos para todos os tribunais superiores”, afirmou.
Kassab acrescentou que defende uma quarentena de dois anos para emissão de pareceres, quatro anos para o exercício da advocacia e oito anos para a disputa de eleições.
As medidas exigiriam mudanças nas regras atualmente aplicadas ao Judiciário e dependeriam de deliberação do Congresso Nacional.
Com as declarações, o presidente do PSD sinaliza disposição para negociar a participação de integrantes da legenda no novo governo Lula, ao mesmo tempo em que procura estabelecer uma agenda própria de reformas políticas e institucionais.
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