Política / Investigação
Assessora de Flávio negociou emenda de R$ 199 mil com condenado no caso Marielle, aponta PF
Conversas apreendidas mostram tratativas entre funcionária do senador e Robson Calixto, o “Peixe”; Flávio afirma que repasse foi legal e seguiu critérios técnicos
21/09/2026
18:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Uma assessora do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tratou diretamente, em 2023, da liberação de uma emenda parlamentar com Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”, posteriormente condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por integrar organização criminosa armada no caso do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A negociação aparece em mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) no celular de Calixto.
O recurso envolvido nas conversas era de R$ 199 mil, destinado por Flávio a um projeto de futebol do Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), no Rio de Janeiro. A PF investiga indícios de desvio de recursos relacionados aos repasses. O senador afirma que a verba foi destinada dentro da legislação e seguindo critérios técnicos do Ministério do Esporte.
As conversas foram extraídas do celular de Calixto em março de 2024, quando ele foi alvo de busca e apreensão nas investigações do caso Marielle. Nos registros, o contato da assessora Maria de Fátima Bezerra Castro aparecia salvo como “Fafá Flávio Bolsonaro”.
Em uma das mensagens, Calixto pediu que a assessora verificasse com o senador a possibilidade de conseguir ajuda financeira para o projeto. Ela respondeu solicitando que a demanda fosse formalizada por e-mail ou ofício e perguntou quando ele estaria em Brasília.
A investigação aponta ainda que a assessora sugeriu que Calixto participasse de um evento no qual estaria Flávio para cobrar pessoalmente a liberação dos recursos. Segundo o relatório da PF citado nas reportagens, poucos dias depois desse encontro, o senador destinou recursos que posteriormente entraram na apuração policial sobre supostas irregularidades no instituto.
Dados do Portal da Transparência, citados no material da investigação, registram o pagamento dos R$ 199 mil em 29 de novembro de 2023 ao Ifop. No ano seguinte, Calixto continuou solicitando recursos, mas os registros consultados pelas reportagens não apontam novos pagamentos referentes a esses pedidos.
Segundo a PF, Flávio destinou aproximadamente R$ 600 mil à organização investigada. Além dos R$ 199 mil destinados ao projeto Jogadores do Futuro, o material menciona cerca de R$ 400 mil direcionados a Barra do Piraí (RJ) por meio de emenda Pix.
Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) incorporada à investigação identificou que parte dos recursos destinados ao instituto foi utilizada para pagar um escritório de advocacia pertencente aos próprios responsáveis pela entidade. Para os investigadores, o achado constitui indício a ser apurado sobre a aplicação das verbas.
A investigação faz parte da Operação Emendatio, deflagrada pela Polícia Federal para apurar suspeitas de desvio de emendas parlamentares destinadas a entidades sem fins lucrativos no Rio de Janeiro. Entre os crimes investigados estão peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Flávio Bolsonaro não foi alvo dos mandados da operação, conforme as informações divulgadas sobre o caso.
Outro ponto do relatório da PF envolve um pedido atribuído a Maria de Fátima. Em mensagem, a assessora perguntou a Calixto se ele conseguiria quatro ingressos para um camarote no desfile das campeãs do Carnaval do Rio. Os investigadores classificaram a solicitação como possível “vantagem indevida”.
As mensagens indicam que Calixto conseguiu quatro credenciais com outro interlocutor. O próprio material, entretanto, ressalta que não é possível determinar pelos diálogos se os ingressos chegaram a ser entregues à assessora.
Em 25 de fevereiro de 2026, a Primeira Turma do STF condenou Robson Calixto a nove anos de prisão por participação em organização criminosa armada. No mesmo julgamento, Domingos Brazão e Chiquinho Brazão receberam penas de 76 anos e três meses, cada um, pelos homicídios de Marielle Franco e Anderson Gomes, pela tentativa de homicídio de Fernanda Chaves e pela participação na organização criminosa.
É importante distinguir as responsabilidades estabelecidas no julgamento: Calixto não foi condenado como autor ou mandante do assassinato de Marielle, mas por integrar a organização criminosa armada.
A assessoria de Flávio Bolsonaro afirma que os recursos foram destinados regularmente e que a entidade apresentou notas fiscais das aquisições e devolveu valores não utilizados.
Segundo a manifestação, “a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar” e eventuais irregularidades devem ser investigadas pelos órgãos de controle.
Até o material consultado, o senador não havia sido apontado como alvo da Operação Emendatio. A existência das mensagens entre sua assessora e Calixto e a destinação das emendas são elementos da investigação, mas não estabelecem, por si só, participação de Flávio Bolsonaro em eventual desvio dos recursos.
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