Campo Grande (MS), Terça-feira, 30 de Junho de 2026

Política / Mercosul

Lula defende Mercosul como estratégia para segurança, clima e desenvolvimento regional

Presidente assumiu em Assunção a presidência temporária do bloco e anunciou proposta de reforço ao Focem

30/06/2026

13:00

DA REDAÇÃO

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta terça-feira, 30 de junho, em Assunção, no Paraguai, que o Mercosul seja tratado como uma estrutura estratégica para a estabilidade, a segurança e o desenvolvimento da América do Sul, e não apenas como um acordo comercial entre países vizinhos.

A declaração foi feita durante a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, em um contexto internacional marcado por disputas geopolíticas, mudanças climáticas, avanço do crime organizado e polarização política. No encontro, o Brasil assumiu oficialmente a presidência temporária do bloco pelos próximos seis meses.

“O Mercosul permanece como o principal espaço institucional em uma região cada vez mais polarizada”, afirmou Lula.

Ao apresentar as prioridades da presidência brasileira, o presidente defendeu uma agenda voltada ao crescimento econômico, integração física, segurança, transição energética, fortalecimento democrático e redução das desigualdades entre os países do bloco.

Um dos principais pontos do discurso foi o fortalecimento do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul, o Focem, criado para financiar obras e projetos que reduzam diferenças de desenvolvimento entre os países membros.

Segundo Lula, o Brasil está disposto a ampliar sua participação financeira no fundo, com aporte de US$ 100 milhões por ano durante a próxima década. A proposta faz parte de uma nova etapa do programa, chamada de Focem-II.

O presidente destacou que, desde a criação, o fundo já financiou mais de mil quilômetros de rodovias, 680 quilômetros de ferrovias, 750 quilômetros de linhas de transmissão de energia e cerca de 100 quilômetros de redes de saneamento básico.

“O Mercosul precisa fazer diferença na vida das pessoas”, afirmou.

Na área econômica, Lula apresentou números para mostrar a evolução do comércio dentro do bloco. Segundo ele, o intercâmbio entre os países do Mercosul cresceu de US$ 4,5 bilhões, em 1991, para mais de US$ 50 bilhões em 2025.

O comércio do bloco com o restante do mundo também avançou. Em 2025, movimentou quase US$ 760 bilhões, crescimento superior a 6% em relação ao ano anterior, com exportações acima de US$ 400 bilhões.

Para o presidente, esses dados indicam que o Mercosul recuperou protagonismo nas relações internacionais e voltou a ampliar sua presença nos mercados globais.

Além do comércio, Lula defendeu maior coordenação regional para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Ele citou alertas da Organização Meteorológica Mundial sobre novos episódios do fenômeno El Niño, que podem provocar secas prolongadas, enchentes e ondas de calor.

Na avaliação do presidente, a integração sul-americana precisa estar acima de diferenças ideológicas quando o tema envolve proteção da população, resposta a desastres e adaptação climática.

A transição energética também foi tratada como prioridade. Lula afirmou que os países do Mercosul têm condições privilegiadas para avançar na produção de hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis para aviação e integração dos sistemas elétricos e de gás natural.

O presidente também destacou a concentração de reservas de minerais críticos na região, considerados essenciais para a indústria de baterias, veículos elétricos e tecnologias digitais. Para ele, transformar essas riquezas em cadeias produtivas regionais é uma questão de soberania e segurança econômica.

Na parte política do discurso, Lula alertou para o avanço da desinformação e dos ataques às instituições democráticas em diferentes países. Ele defendeu maior cooperação para proteger minorias, combater a violência contra as mulheres e fortalecer mecanismos de participação social.

Na segurança pública, o presidente afirmou que o crime organizado já atua de forma transnacional, com controle de territórios, movimentação de recursos ilícitos e expansão no ambiente digital. Por isso, defendeu uma resposta integrada entre os países, envolvendo cooperação policial, judicial e financeira.

Antes do pronunciamento, Lula pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos terremotos registrados na Venezuela na última semana. Ele manifestou solidariedade ao povo venezuelano e afirmou que tragédias dessa natureza reforçam a importância da cooperação humanitária entre países sul-americanos.

Ao encerrar a participação, o presidente defendeu que os integrantes do Mercosul preservem sua autonomia nacional, mas ampliem o diálogo diante das transformações da economia mundial.

“Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes. Nossa força estará na capacidade de dialogar com todos, sem deixar de lado nossos interesses”, concluiu Lula.

Com a presidência temporária brasileira, o bloco deve concentrar esforços em uma agenda de integração econômica, infraestrutura, segurança regional e transição energética. Na prática, a estratégia busca tornar o Mercosul mais presente na vida da população e mais relevante no cenário internacional.


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