Política / Justiça
Moraes aparece como peça central nos bastidores da derrota de Messias e da dosimetria do 8 de Janeiro
Rejeição ao indicado de Lula ao STF e avanço da revisão de penas expõem rearranjo de forças entre Senado, Supremo e governo federal
01/05/2026
12:45
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A derrota da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e a movimentação em torno da dosimetria das penas dos condenados pelo 8 de Janeiro abriram uma nova leitura sobre o equilíbrio de forças em Brasília. Nos bastidores, a articulação conduzida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, é vista por interlocutores políticos como parte de um arranjo mais amplo, no qual o ministro Alexandre de Moraes aparece como personagem decisivo, ainda que sem presença formal no centro da operação.
O episódio reuniu interesses cruzados, alianças incomuns e movimentos que expuseram tensões entre o Palácio do Planalto, o Senado Federal e setores do próprio STF. A combinação entre a rejeição de Messias e a revisão das penas ligadas aos atos de 8 de Janeiro passou a ser interpretada como um sinal de reorganização política em torno da Corte e do Congresso.
Um dos pontos centrais dessa análise é a proximidade entre Davi Alcolumbre e Alexandre de Moraes. O presidente do Senado é apontado como um dos parlamentares mais próximos do ministro do STF. A relação entre os dois é antiga e também envolve o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, com quem ambos mantêm laços de amizade e diálogo frequente em Brasília.
Essa proximidade alimenta a leitura de que Alcolumbre não conduziria uma movimentação sensível, como a revisão das penas dos condenados pelo 8 de Janeiro, sem algum tipo de consulta ou acomodação prévia com o relator do caso no Supremo.
Até pouco tempo atrás, evitar a redução das penas era visto como ponto importante para a autoridade de Moraes na condução dos processos relacionados aos atos antidemocráticos. Por isso, o avanço da dosimetria passou a ser interpretado como uma concessão política relevante.
Outro elemento citado nos bastidores é o impacto do caso envolvendo o Banco Master. A crise teria alterado o ambiente político e ampliado a vulnerabilidade de diferentes atores, especialmente após o ministro André Mendonça assumir posição relevante no caso.
Nesse contexto, a indicação de Jorge Messias ao STF passou a ser vista por parte dos envolvidos como um movimento com potencial de alterar o equilíbrio interno da Corte. Mendonça era um dos apoiadores de Messias e, segundo relatos políticos, foi para a casa dele que o indicado se dirigiu após se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na noite da derrota, em busca de apoio e avaliação do cenário.
A resistência ao nome de Messias, porém, já existia antes mesmo da crise envolvendo o Banco Master. Nos bastidores, Alexandre de Moraes teria considerado a escolha de Lula um erro político desde o início e apostado que o nome enfrentaria dificuldades no Senado. A preferência, segundo essa leitura, seria por Rodrigo Pacheco, aliado de longa data e figura com bom trânsito institucional.
Com o agravamento do caso Banco Master, a articulação contra Messias teria ganhado mais força. A leitura de bastidor é que barrar a indicação exigiria concessões no Congresso, entre elas o avanço da dosimetria das penas do 8 de Janeiro e o enfraquecimento de uma eventual CPI do Banco Master.
Essa combinação explicaria, segundo interlocutores, o chamado “combo Messias-dosimetria”: de um lado, a derrota do indicado de Lula ao Supremo; de outro, a abertura de espaço para reavaliar penas aplicadas a condenados pelos atos de 8 de Janeiro.
Nesse arranjo, Moraes teria aceitado um recuo parcial em uma pauta sensível a ele, permitindo o avanço da dosimetria como parte de uma acomodação política mais ampla.
Com a rejeição de Jorge Messias, o ministro André Mendonça permanece em posição de relativo isolamento no STF, sem a chegada de um aliado próximo à Corte.
A indicação de Messias era vista por setores ligados a Mendonça como uma oportunidade de reduzir sua condição minoritária em determinados debates internos. A derrota, portanto, teve impacto não apenas no governo Lula, mas também no equilíbrio entre grupos e afinidades dentro do Supremo.
A votação também expôs um cenário incomum em Brasília. Antigos aliados passaram a atuar em lados opostos, enquanto adversários tradicionais se aproximaram por conveniência política.
De um lado, o governo federal e Alexandre de Moraes, que estiveram alinhados em diferentes momentos recentes, apareceram em campos tensionados. De outro, figuras como André Mendonça e Jorge Messias, ligados a trajetórias políticas distintas, acabaram conectadas por interesses convergentes na disputa pela vaga no Supremo.
A movimentação também aproximou, ainda que indiretamente, Alexandre de Moraes e Flávio Bolsonaro, por meio da articulação de Davi Alcolumbre em torno da dosimetria.
A rejeição de Jorge Messias revelou a fragilidade da articulação governista no Senado. O resultado surpreendeu pela quantidade de votos contrários e expôs traições dentro de campos que, até a véspera, eram considerados próximos ao indicado ou ao próprio governo.
Segundo essa leitura política, Messias foi abandonado por parlamentares que haviam sinalizado apoio. O mesmo teria ocorrido com André Mendonça, que recebeu promessas de votos favoráveis de integrantes da bancada evangélica, mas viu parte desses apoios desaparecer no momento decisivo.
O episódio também mostrou que o voto contrário ao governo não teve uma única motivação. Houve resistência pessoal a Messias, insatisfação com Lula, interesses regionais, cálculo eleitoral e disputas internas de poder.
A derrota no Senado passou a ser interpretada como um sinal de enfraquecimento político do presidente Lula. A avaliação nos bastidores é que parte do Centrão e setores próximos ao Supremo agiram convencidos de que o governo atravessa um momento de perda de força e de maior dificuldade para impor sua agenda.
Essa percepção teria dado sustentação ao movimento contra Messias e permitido uma derrota considerada de grande impacto para o Palácio do Planalto.
Ainda assim, interlocutores lembram que o cenário político brasileiro é instável e pode mudar rapidamente. Caso Lula recupere capacidade de articulação e saia fortalecido das próximas disputas políticas e eleitorais, o equilíbrio entre governo, Congresso e Supremo poderá ser novamente redesenhado.
O episódio envolvendo Jorge Messias, Davi Alcolumbre, Alexandre de Moraes, André Mendonça e a dosimetria do 8 de Janeiro revela uma nova etapa da disputa institucional em Brasília.
Mais do que uma votação isolada para o STF, o caso expôs uma rede de interesses que envolve sucessão na Corte, controle de pautas sensíveis, investigações, alianças parlamentares e cálculo eleitoral.
A derrota de Messias mostrou que o governo já não consegue contar automaticamente com a maioria em temas estratégicos. Ao mesmo tempo, o avanço da discussão sobre as penas do 8 de Janeiro indica que o Congresso busca ampliar sua influência sobre temas que até então estavam concentrados no Supremo.
No centro dessa disputa, Alexandre de Moraes aparece como o “sujeito oculto” da articulação: não como protagonista formal, mas como figura decisiva para compreender os movimentos que reorganizaram, ao mesmo tempo, a indicação ao STF e a revisão das penas dos condenados pelos atos de 8 de Janeiro.
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