Campo Grande (MS), Quinta-feira, 30 de Abril de 2026

Política / Justiça

Governo mira possíveis dissidências no MDB após derrota de Messias no Senado

Votação secreta rejeitou indicação ao STF por 42 votos a 34 e abriu crise política entre Planalto e partidos da base

30/04/2026

07:00

DA REDAÇÃO

©DIVULGAÇÃO

A rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) abriu uma nova frente de desgaste entre o Palácio do Planalto e partidos que integram a base do governo no Senado. Depois da derrota em plenário, auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva passaram a tentar identificar possíveis dissidências na votação secreta que barrou o nome do atual advogado-geral da União.

O placar foi de 42 votos contrários, 34 favoráveis e uma abstenção. Para ser aprovado, Messias precisava receber ao menos 41 votos favoráveis, o equivalente à maioria absoluta dos 81 senadores. A votação ocorreu após a aprovação do indicado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde ele havia passado por sabatina e obtido aval por placar apertado.

O resultado foi considerado histórico. Foi a primeira rejeição de um indicado ao STF pelo Senado em mais de um século, situação rara desde os episódios registrados no governo de Floriano Peixoto, no fim do século 19. A derrota também teve forte peso político para o governo, que contava com a aprovação de Messias para ocupar a vaga aberta com a aposentadoria antecipada do ministro Luís Roberto Barroso.

Nos bastidores, integrantes do governo passaram a desconfiar de votos contrários vindos de partidos que, oficialmente, davam sinais de apoio à indicação. A principal suspeita recai sobre setores do MDB, uma das maiores bancadas do Senado, com nove parlamentares. A legenda ocupa espaço relevante no governo federal e já chegou a comandar três ministérios na atual gestão.

A avaliação de auxiliares de Lula é que parte dos senadores emedebistas pode não ter seguido a orientação favorável a Messias. Como a votação foi secreta, não há como confirmar individualmente quem votou contra ou a favor. Ainda assim, o tamanho da derrota alimentou a leitura de que houve resistência dentro de siglas consideradas importantes para a base governista.

Segundo relatos de bastidores, lideranças do governo esperavam um desempenho melhor no plenário. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), trabalhava com a expectativa de alcançar os votos necessários para aprovar a indicação. O resultado, porém, ficou distante da margem mínima exigida e expôs falhas na articulação política.

No MDB, a reação à desconfiança foi de incômodo. Caciques da legenda rejeitam a leitura de traição e atribuem a derrota à condução política do próprio governo. Reservadamente, emedebistas avaliam que o Planalto demorou a organizar a base, subestimou resistências internas e não construiu um acordo sólido o suficiente para garantir os 41 votos necessários.

A escolha de Jorge Messias já enfrentava resistências antes da votação. Parte do Senado defendia outro nome para a vaga, especialmente o do ex-presidente da Casa Rodrigo Pacheco, que tinha apoio de lideranças importantes. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, também foi apontado nos bastidores como um dos atores centrais da articulação contrária à aprovação.

A oposição também atuou para transformar a votação em uma derrota política do governo. Senadores contrários à indicação argumentavam que Messias, por ocupar a Advocacia-Geral da União e ser próximo de Lula, teria perfil excessivamente vinculado ao Executivo. Governistas, por outro lado, defendiam que ele reunia experiência jurídica e trajetória técnica para ocupar a vaga no Supremo.

Com a rejeição, o nome de Jorge Messias foi arquivado, e Lula terá que indicar outro candidato ao STF. A nova escolha deve exigir uma negociação mais cuidadosa com o Senado, especialmente em um ambiente político marcado por disputa entre governo, oposição e partidos de centro.

A derrota também tende a afetar a relação do Planalto com sua base parlamentar. A partir de agora, o governo deve tentar reconstruir pontes, identificar onde perdeu apoio e recalibrar a articulação antes de enviar uma nova indicação ao Senado.


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