Política / Nacional
Tereza Cristina preside instituto bancado por empresas enquanto é cotada para chapa presidencial
Senadora afirma que atuação é voluntária e nega lobby; entidade tem apoio de companhias do agro, setor financeiro, combustíveis e infraestrutura
11/06/2026
14:15
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura e nome citado nos bastidores como possível vice em uma chapa com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência, assumiu a presidência do conselho de administração de um instituto financiado por oito empresas de setores com forte presença no debate econômico e legislativo nacional.
O Instituto Diálogos tem entre seus apoiadores companhias ligadas ao agronegócio, sistema financeiro, biocombustíveis, logística e infraestrutura. As empresas não informaram os valores destinados à manutenção da entidade. A senadora e os patrocinadores afirmam que foram adotadas regras internas para evitar conflitos de interesse.
De acordo com o estatuto, a função ocupada por Tereza Cristina não tem remuneração. O documento também estabelece que os fundadores e proprietários do instituto são oito empresas, e que novas adesões dependem da aprovação de dois terços dessas companhias.
A legislação não impede, em regra, que parlamentares integrem conselhos ou diretorias de entidades privadas. A restrição ocorre em casos envolvendo empresas com benefícios ou contratos com o poder público, ou estatais. Especialistas, no entanto, apontam que situações desse tipo exigem transparência para afastar dúvidas sobre possíveis conflitos de interesse.
A maior parte das fundadoras atua em áreas próximas à trajetória política de Tereza Cristina, especialmente o agronegócio. Integram o instituto empresas como Tereos Açúcar e Energia, Cargill, Yara Fertilizantes, Corteva Agriscience, Cocamar e FS Indústria de Biocombustíveis.
Também participam o Itaú Unibanco, do setor financeiro, e a Hidrovias do Brasil, ligada aos ramos de logística e setor portuário.
O valor da contribuição mensal das empresas não aparece nos documentos registrados em cartório. A estrutura financeira, porém, sustenta ao menos a contratação de um diretor com salário de R$ 50 mil, além da realização de eventos e viagens. Pelo estatuto, empresas inadimplentes por mais de três meses perdem o direito a voto nas decisões da entidade.
A reportagem questionou a senadora, o instituto e as empresas sobre os valores de contribuição, mas a informação não foi divulgada. No site da entidade, há uma página dedicada à transparência, porém sem balanço financeiro disponível. A identificação das oito empresas como fundadoras e patrocinadoras foi publicada no portal somente após os questionamentos.
No estatuto, o Instituto Diálogos afirma ter como finalidade influenciar a formulação de políticas públicas em defesa do livre mercado, da propriedade privada, das liberdades individuais, do desenvolvimento socioeconômico sustentável e do combate às desigualdades sociais.
Para isso, a entidade prevê a elaboração de estudos e pesquisas, além da realização de palestras, eventos, seminários e congressos. O estatuto também permite ampliar receitas por meio de doações, contratação para produção de estudos e prestação de apoio técnico a interessados. Por ser uma instituição sem fins lucrativos, os recursos devem ser reinvestidos nas próprias atividades.
Embora ocupe formalmente a presidência do conselho, Tereza Cristina é a principal figura pública associada ao instituto. Ela foi palestrante no lançamento da entidade, realizado em fevereiro, em um hotel de Brasília, e afirmou no evento que idealizou a iniciativa.
“Quando na escolha dos nossos apoiadores, dos nossos colaboradores, isso foi discutido de maneira muito ampla”, disse a senadora, ao defender que o instituto vá além do debate parlamentar. “Quando eu sair do Senado, eu vou me dedicar 100% a esse instituto. Eu já aviso que vai virar uma fundação.”
Desde a criação, o instituto realizou o evento de lançamento em Brasília e, nesta terça-feira (9), promoveu um seminário fechado para convidados sobre a nova geoeconomia mundial.
Procuradas separadamente, as oito empresas patrocinadoras responderam em conjunto por meio de nota assinada pelo diretor-presidente do instituto, Inácio Muzzi.
“As empresas apoiam o Instituto Diálogos por alinhamento ao propósito de estimular debate técnico, plural e fundamentado sobre temas estruturantes do país, visando qualificar decisões públicas e privadas”, afirmou.
Segundo Muzzi, a entidade não tem finalidade nem vínculo político-partidário. Ele também afirmou que as empresas fundadoras não veem conflito de interesses no apoio a um instituto presidido por uma parlamentar.
A escolha de Tereza Cristina, de acordo com o diretor-presidente, ocorreu “por sua trajetória técnica e capacidade de diálogo em uma governança colegiada e independente, sem implicar vínculo partidário”.
Além de Muzzi, a diretoria do instituto conta com Isabella Martins do Carmo, diretora de Relações Governamentais da Cargill, e o engenheiro civil Jacyr da Silva Costa Filho, sócio da consultoria AgroAdvice e diretor financeiro da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Quatro empresas também indicaram vice-presidentes: Hidrovias do Brasil, Tereos, Corteva e Yara.
No lançamento do instituto, Tereza Cristina negou que a entidade tenha como finalidade defender interesses privados no Congresso. A senadora afirmou que sua atuação se dá como iniciativa individual e que o debate será voltado a temas nacionais.
“Nós não vamos fazer lobby. Nós vamos discutir assuntos gerais que sejam de interesse do país”, declarou.
A parlamentar também mencionou que a defesa de interesses setoriais do agronegócio já ocorre por meio da Frente Parlamentar da Agropecuária, da qual é vice-presidente.
“Quero sentar no conselho do instituto sem o chapéu de senadora. Eu quero sentar com o chapéu de uma brasileira que tem muita preocupação com os rumos do nosso país”, afirmou.
Em nota, Tereza Cristina disse que planejava havia pelo menos três anos a criação do instituto, fundado em setembro de 2025, e ressaltou que o estatuto prevê salvaguardas e punições em caso de conflito de interesse.
“Nenhum tipo de lobby empresarial é permitido e não há qualquer vinculação dos temas discutidos, aprovados sempre por maioria, à agenda legislativa, muito menos ao mandato parlamentar, exercido de forma altamente republicana”, afirmou.
A senadora tem sido citada por aliados como possível vice de Flávio Bolsonaro em uma candidatura presidencial. Publicamente, porém, ela tem dito que não pretende ocupar essa posição e trabalha para buscar apoio a uma eventual candidatura à presidência do Senado em 2027, caso a oposição saia vitoriosa nas eleições.
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