Artigo / Opinião
Reforma Tributária muda a forma como empresas administram o caixa antes mesmo da cobrança dos novos impostos
CBS, IBS e split payment colocam gestão financeira e organização fiscal no centro da adaptação das empresas ao novo sistema tributário brasileiro
05/08/2026
11:45
Rodrigo Molinaro*
Rodrigo Molinaro
A Reforma Tributária entrou definitivamente na agenda das empresas brasileiras. Com a regulamentação do novo sistema de tributação sobre o consumo, o país inicia uma transição que se estenderá até 2033 e substituirá gradualmente cinco tributos — PIS, Cofins, ICMS, ISS e parte do IPI — pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Embora a mudança seja gradual, especialistas afirmam que seus efeitos sobre a gestão financeira das empresas começam agora.
O desafio não está apenas em compreender a nova legislação. A implementação de mecanismos como o split payment, a revisão dos processos fiscais e a adaptação dos sistemas internos deverão alterar a forma como as empresas administram fluxo de caixa, créditos tributários e planejamento financeiro.
A mudança atinge praticamente todo o ambiente empresarial brasileiro. Segundo o Sebrae, as micro e pequenas empresas representam cerca de 99% dos negócios do país e respondem por aproximadamente 30% do Produto Interno Bruto (PIB). Já dados do IBGE apontam a existência de mais de 22 milhões de empresas e outras organizações ativas, que precisarão conviver simultaneamente com o sistema atual e o novo modelo tributário durante o período de transição.
Além da adaptação operacional, entidades empresariais como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) defendem que a simplificação tributária é um passo importante para reduzir um dos principais entraves ao ambiente de negócios brasileiro: a elevada complexidade do sistema de arrecadação, frequentemente apontada como fator que aumenta custos, gera insegurança jurídica e reduz a competitividade das empresas.
Para Rodrigo Molinaro, especialista em Contabilidade e Controladoria do Grupo Villela, muitas empresas ainda enxergam a Reforma Tributária apenas sob a perspectiva da carga de impostos, quando o principal desafio estará na adaptação da gestão financeira.
“A discussão não deve se limitar à alíquota que será paga no futuro. A reforma altera processos, exige integração entre as áreas fiscal, financeira e contábil e aumenta a importância de uma gestão tributária estruturada. Empresas que deixarem essa adaptação para os últimos anos da transição tendem a enfrentar mais dificuldades.”
Entre os pontos que mais despertam atenção está justamente o split payment, mecanismo que poderá direcionar automaticamente ao Fisco a parcela correspondente aos tributos no momento do pagamento de uma operação comercial. Na prática, isso reduz o intervalo entre a venda e o recolhimento dos impostos, exigindo maior controle sobre o capital de giro e planejamento mais preciso do fluxo de caixa.
Outro aspecto relevante envolve a convivência entre dois sistemas tributários durante vários anos. Até a conclusão da transição, empresas precisarão administrar simultaneamente regras do modelo atual e do novo regime, o que aumenta a necessidade de revisão de processos internos, atualização tecnológica e acompanhamento permanente da legislação.
Nesse contexto, o especialista do Grupo Villela avalia que organizações com passivos tributários, inconsistências cadastrais ou dificuldades na gestão de créditos fiscais poderão enfrentar obstáculos adicionais durante a adaptação. A revisão técnica das obrigações fiscais, a regularização tributária e a organização dos processos internos passam a integrar uma estratégia de preparação para o novo ambiente regulatório.
“A Reforma Tributária representa uma mudança estrutural na forma como as empresas administram suas obrigações fiscais. Mais do que cumprir novas regras, será necessário desenvolver uma gestão tributária capaz de acompanhar um sistema mais integrado, digital e baseado na qualidade das informações prestadas”, afirma Rodrigo Molinaro.
Segundo ele, a transição não deve ser encarada apenas como uma alteração legislativa, mas como uma transformação na governança financeira das empresas. Em um ambiente em que liquidez, eficiência operacional e capacidade de investimento se tornam diferenciais competitivos, a adaptação ao novo sistema tributário tende a influenciar diretamente a sustentabilidade dos negócios nos próximos anos.
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