Política / Exterior
Tarifas de Trump contra o Brasil viram crise política e colocam Flávio Bolsonaro no centro do debate
Imprensa internacional aponta ruptura entre Lula e Trump após ameaça de sobretaxa e classificação de facções como terroristas
04/06/2026
07:45
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A nova ofensiva do governo dos Estados Unidos contra o Brasil abriu uma crise política em Brasília e passou a ser tratada pela imprensa internacional como um novo ponto de tensão entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. A avaliação foi publicada pelo jornal britânico Financial Times, que associou as medidas recentes a uma articulação política envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, do PL-RJ.
Segundo a reportagem, os anúncios feitos por Washington romperam uma espécie de trégua entre Lula e Trump, estabelecida após a primeira rodada de tarifas impostas no ano passado. Agora, a ameaça de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros e a decisão de classificar facções criminosas do país como organizações terroristas reacenderam o embate diplomático e eleitoral.
O jornal britânico avaliou que as medidas provocaram uma “tempestade política” no Brasil, em meio ao ambiente de pré-campanha. O texto relaciona os anúncios a um esforço de lobby de Flávio Bolsonaro, que esteve recentemente na Casa Branca e se encontrou com Donald Trump pouco antes das decisões voltadas ao Brasil.
A leitura feita pelo Financial Times é que Flávio Bolsonaro tenta se aproximar de lideranças alinhadas ao trumpismo, movimento que ganhou força em diferentes países da América Latina nos últimos ciclos eleitorais. A aproximação ocorre em um momento em que o senador é tratado como um dos nomes do campo bolsonarista para a disputa presidencial.
No dia 28 de maio, o governo americano anunciou a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida vinha sendo defendida pela família Bolsonaro havia mais de um ano, mas é rejeitada pelo governo brasileiro, que teme efeitos jurídicos e diplomáticos mais amplos, incluindo eventual abertura para ações externas no território nacional.
Poucos dias depois, na terça-feira, 2 de junho, os Estados Unidos anunciaram uma proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. O comunicado americano citou críticas ao Pix e a práticas atribuídas ao governo brasileiro, classificadas como “irrazoáveis” e prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.
A reação do presidente Lula foi imediata. O petista passou a usar as medidas americanas para atacar politicamente Flávio Bolsonaro, a quem acusou de atuar contra os interesses nacionais ao incentivar pressões dos Estados Unidos sobre o Brasil. No discurso político, Lula passou a chamar a proposta de tarifa de “TariFlávio”.
A expressão busca associar diretamente o senador bolsonarista ao risco de prejuízo econômico para setores produtivos brasileiros. Para o governo, a tentativa é transformar a medida de Trump em um tema de soberania nacional e defesa da economia brasileira.
O Financial Times também citou análise do consultor político Thomas Traumann, segundo a qual a oposição de Lula ao primeiro tarifaço americano ajudou a melhorar sua popularidade. O jornal comparou o movimento ao caso do líder canadense Mark Carney, que venceu uma eleição com discurso de enfrentamento aos Estados Unidos.
Apesar disso, a reportagem aponta que Flávio Bolsonaro foi colocado na defensiva após a proposta de novas tarifas. O senador divulgou um vídeo afirmando que pediu a Donald Trump para não impor novas taxas ao Brasil, numa tentativa de se afastar da acusação de ter estimulado sanções contra o país.
O jornal britânico avaliou ainda que Trump não declarou apoio formal a nenhum candidato na eleição presidencial brasileira. Ainda assim, gestos recentes foram interpretados no Brasil como sinais de proximidade com o bolsonarismo.
Na terça-feira, Donald Trump publicou uma foto ao lado de Flávio Bolsonaro e chamou o senador de “um jovem inteligente que ama seu país”. A manifestação ocorreu no mesmo período em que o governo americano endureceu o tom contra o Brasil.
Para Thomas Traumann, o conjunto de declarações e medidas indica uma tentativa dos Estados Unidos de influenciar o cenário eleitoral brasileiro contra a reeleição de Lula. A avaliação reforça a percepção de que a relação entre Brasília e Washington voltou a ocupar espaço central no debate político nacional.
A crise ocorre em um momento delicado para o governo brasileiro, que busca evitar prejuízos comerciais e, ao mesmo tempo, transformar a pressão externa em argumento político interno. Para a oposição bolsonarista, a aproximação com Trump pode mobilizar sua base ideológica, mas também traz o risco de desgaste caso as tarifas afetem empresas, exportadores e trabalhadores brasileiros.
Na prática, a disputa em torno das tarifas coloca a política externa no centro da pré-campanha. O governo tenta enquadrar o episódio como defesa da soberania nacional, enquanto aliados de Flávio Bolsonaro buscam reduzir o impacto negativo da associação entre o senador e eventuais sanções econômicas contra o Brasil.
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