Política / Internacional
Lula critica tratamento dos EUA ao Brasil e diz que país não aceitará pressão externa
Presidente afirmou que enviará nova carta a Donald Trump e cobrou ministros por entregas antes do período de restrições eleitorais
03/06/2026
11:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quarta-feira, 3 de junho, que o Brasil não pode aceitar o tratamento recebido dos Estados Unidos nos últimos dias, em meio ao aumento das tensões diplomáticas e comerciais com o governo de Donald Trump.
A declaração foi feita na abertura da segunda reunião ministerial do ano, realizada em Brasília. O encontro ocorreu em um momento de reorganização da equipe do governo, preparação política para o período eleitoral e pressão sobre os ministérios para acelerar entregas antes das restrições previstas pela legislação.
“Nós somos muito grandes. Nós temos muita história e nós não podemos aceitar o tratamento que os EUA deram ao Brasil nesta semana. Não é possível”, afirmou Lula, ao criticar as medidas anunciadas por Washington.
O presidente disse que o Brasil não pode ser tratado como uma “republiqueta insignificante” e afirmou que o governo brasileiro se manteve aberto ao diálogo com a Casa Branca. Lula também relembrou o encontro que teve com Donald Trump, em 7 de maio, em Washington.
Segundo ele, a reunião havia deixado a impressão de que os dois países poderiam estabelecer uma nova fase de relacionamento, baseada em diálogo democrático e respeito institucional. O anúncio de novas medidas comerciais, no entanto, teria surpreendido o governo brasileiro.
Durante a fala, Lula também criticou, sem citar nominalmente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República. O presidente acusou adversários políticos de atuarem contra o Brasil em meio a interesses eleitorais.
“Estão tentando trair o Brasil com interesses mesquinhos, rasteiros, de uma disputa eleitoral. E não há disputa eleitoral em qualquer país do mundo que possa dar valor a alguém que trai a pátria, a alguém que é capaz de vender o seu país por interesses mesquinhos deles”, disse.
A fala ocorre após a reunião de Flávio Bolsonaro com Donald Trump, nos Estados Unidos, e em meio à reação do governo brasileiro a medidas anunciadas por Washington. O Palácio do Planalto atribui parte da ofensiva americana à atuação política da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Nova carta a Trump
Na abertura da reunião, Lula também afirmou que pretende enviar uma nova carta ao presidente Donald Trump. Segundo o petista, a intenção é defender o fim de conflitos internacionais e alertar para os riscos de uma escalada global de violência.
O presidente disse que escreverá quantos artigos forem necessários na imprensa americana e internacional para expor sua posição sobre guerras e tensões geopolíticas. Ele mencionou o risco de conflitos mais graves e o impacto que o uso de armas nucleares poderia causar ao planeta.
“Todos eles sabem que, se a gente tiver um conflito mais sério, que for necessário usar armas nucleares, a gente não está ganhando de um país, a gente está destruindo o planeta Terra”, afirmou Lula.
O presidente também fez um apelo aos integrantes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para que atuem pelo encerramento de guerras e conflitos em andamento.
Tensão comercial com os Estados Unidos
As relações entre Brasil e Estados Unidos se deterioraram nos últimos dias após investigações baseadas na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana apontarem supostas práticas comerciais desleais adotadas pelo Brasil.
A partir dessas apurações, o governo americano passou a discutir a possibilidade de impor novas sobretaxas a produtos brasileiros, com alíquotas citadas de 25% e 12,5%. O governo brasileiro contesta as medidas e avalia que a pressão comercial tem motivação política.
Além das tarifas, a Casa Branca anunciou que passará a classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida está prevista para entrar em vigor na sexta-feira, 5 de junho.
O governo brasileiro vê com preocupação o conjunto de decisões e afirma que seguirá defendendo os interesses nacionais nas negociações com Washington.
Cobrança por entregas
A reunião ministerial desta quarta-feira foi a primeira com a nova composição do governo após a saída de auxiliares que deixaram cargos para disputar as eleições. Entre os temas tratados estão o andamento das ações das pastas, o alinhamento político e a estratégia de comunicação do governo.
Durante o encontro, Lula cobrou dos ministros a conclusão de entregas antes do chamado defeso eleitoral, período em que a legislação restringe inaugurações, publicidade institucional, anúncios de obras, pronunciamentos oficiais e transferências de recursos.
O presidente pediu que as iniciativas sejam finalizadas até 3 de julho e que passem pelo aval da Casa Civil antes de serem divulgadas ou executadas.
“É importante que a gente apronte tudo até o dia 3 de julho”, afirmou.
Nos bastidores, o governo demonstra preocupação com a forma como as ações do Palácio do Planalto têm sido percebidas pela população e com o ritmo de entregas antes do início das restrições eleitorais. A orientação é acelerar projetos, organizar a comunicação e reforçar a presença das políticas públicas nos estados e municípios.
Com a reunião, Lula busca alinhar o governo em duas frentes: responder à crise diplomática com os Estados Unidos e fortalecer a agenda interna antes da fase mais rígida do calendário eleitoral.
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