Política / Investigação
Ex-funcionária de Mario Frias diz que devolvia parte do salário e pagou fatura da esposa do deputado
Documentos obtidos pelo G1 apontam PIX para ex-chefe de gabinete, empréstimos consignados e pagamentos ligados a familiares do parlamentar
23/05/2026
07:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Comprovantes bancários e extratos financeiros de uma ex-servidora do gabinete do deputado federal Mario Frias (PL-SP) indicam possíveis repasses de parte do salário ao então chefe de gabinete do parlamentar, Raphael Azevedo, além de pagamentos ligados a familiares do deputado. As informações foram divulgadas pelo G1, com base em documentos referentes ao período entre fevereiro de 2023 e março de 2024.
A ex-funcionária foi identificada como Gardênia Morais, que atuou como secretária parlamentar no gabinete entre fevereiro de 2023 e maio de 2024. Durante esse período, segundo os documentos analisados pela reportagem, ela também contratou cinco empréstimos consignados em seu nome, que somaram R$ 174.886.
Parte desses valores teria sido transferida ao então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, em datas próximas às liberações dos empréstimos.
De acordo com os extratos, Gardênia recebia o salário em uma conta do Banco do Brasil e, em seguida, transferia os recursos para outra conta de sua titularidade no Itaú. A partir dessa segunda conta, realizava repasses para Raphael Azevedo, para a ex-esposa dele e para outra parente.
Entre os comprovantes citados pelo G1, aparecem transferências via PIX de R$ 4.600, em fevereiro de 2023, R$ 5.000, em março, e R$ 1.500, em abril. Também foram identificados pagamentos mensais de R$ 3.200 destinados à ex-mulher de Azevedo. Somados, os valores localizados pela reportagem chegam a R$ 35.116.
Segundo Gardênia, os repasses não se limitariam aos comprovantes obtidos pela reportagem. Ela afirmou que havia outros pagamentos e declarou que “tinha mais pessoas devolvendo” dinheiro dentro do gabinete.
Os documentos também apontam pagamentos relacionados a familiares de Mario Frias. Em janeiro de 2024, Gardênia fez um PIX de R$ 1.000 para Maria Lucia Frias, mãe do deputado. Já em dezembro de 2023, ela quitou uma fatura de cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do parlamentar, no valor de R$ 4.832,32.
Outro ponto citado na reportagem é um saque em dinheiro vivo de R$ 49.999,99, realizado em março de 2024. Segundo a ex-servidora, o valor foi entregue posteriormente, mas ela não informou a quem. Antes do saque, Gardênia havia recebido depósitos de Raphael Azevedo e da esposa dele que totalizavam R$ 50 mil.
Ao G1, Gardênia afirmou que devolvia parte do salário após um acordo feito com o então chefe de gabinete.
“O meu salário foi subindo gradativamente. Lá na Câmara a gente tem os ‘steps’. No final, estava girando em torno de R$ 20 mil. Me restavam, em média, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu ‘step’”, declarou.
A ex-servidora também disse que Mario Frias teria conhecimento das devoluções.
“O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado”, afirmou.
Sobre os empréstimos consignados, Gardênia relatou que apenas um teria sido feito para uso pessoal. Segundo ela, os demais teriam sido contratados a pedido do deputado e de Raphael Azevedo para quitar dívidas da campanha de 2022.
“Dos cinco empréstimos, um é meu particular, no restante todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa. Enfim, meu nome... Para você ter noção de como ficou minha situação hoje, eu moro de favor na casa da minha ex-sogra”, relatou.
A prática conhecida como “rachadinha” consiste na devolução de parte dos salários de assessores a parlamentares ou intermediários. Embora não exista um crime específico com esse nome na legislação brasileira, o Ministério Público costuma enquadrar casos semelhantes como peculato, quando há suspeita de desvio de recursos públicos.
O caso surge em meio a outras controvérsias envolvendo Mario Frias. Recentemente, o deputado ganhou destaque por atuar como produtor-executivo do filme “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mensagens divulgadas pelo site The Intercept Brasil, confirmadas pela TV Globo e pelo G1, apontam que o banqueiro Daniel Vorcaro teria destinado cerca de R$ 61 milhões para financiar o projeto.
O atual chefe de gabinete de Mario Frias, Diego Ramos, afirmou desconhecer as suspeitas e disse acreditar que o deputado também não tinha conhecimento dos fatos. Já Raphael Azevedo não respondeu aos questionamentos da reportagem até a publicação do material.
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