Política / Comércio
The Guardian diz que tarifas de Trump tratam autonomia brasileira como infração comercial
Editorial britânico avalia que pressões sobre o Pix e a regulação das plataformas digitais ultrapassam o campo econômico
15/07/2026
11:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O jornal britânico The Guardian afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está usando acusações comerciais e a ameaça de novas tarifas para pressionar decisões soberanas do Brasil.
Em editorial publicado nesta terça-feira (14), o periódico sustenta que políticas brasileiras relacionadas ao Pix e à responsabilização das plataformas digitais foram enquadradas pelo governo norte-americano como práticas prejudiciais às empresas dos Estados Unidos.
A análise representa a posição editorial do jornal. Segundo o texto, a “verdadeira infração” atribuída ao Brasil não seria o protecionismo econômico, mas a busca por maior autonomia tecnológica, financeira e regulatória.
A publicação ocorre enquanto o governo norte-americano avalia a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre milhares de produtos brasileiros. A medida integra uma investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, que permite a adoção de respostas contra políticas consideradas injustas ou prejudiciais ao comércio norte-americano. (Reuters)
Na avaliação do Guardian, a disputa comercial também envolve divergências sobre a capacidade do Brasil de regulamentar conteúdos publicados nas redes sociais.
O editorial cita decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) relacionadas à responsabilização das plataformas por conteúdos ilícitos, discursos de ódio e manifestações consideradas antidemocráticas.
Para o jornal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende que o Brasil deve manter a autoridade para fiscalizar a circulação de desinformação dentro do território nacional. Já Trump, conforme a interpretação apresentada no editorial, busca proteger os interesses das empresas norte-americanas de tecnologia.
“A ameaça tarifária de Donald Trump enquadra os esforços do Brasil para proteger sua democracia como uma prática comercial desleal”, afirma o texto, que também aponta a aproximação de integrantes do bolsonarismo com setores políticos de Washington.
A investigação comercial dos Estados Unidos menciona políticas brasileiras nas áreas de comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, tarifas preferenciais, combate à corrupção, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
O Pix, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido e administrado pelo Banco Central, também aparece como um dos principais pontos de tensão.
O governo norte-americano argumenta que o modelo brasileiro poderia favorecer o sistema público em detrimento de empresas privadas estrangeiras. O instrumento se tornou o meio de pagamento mais utilizado no país e reduziu a dependência de redes tradicionais operadas por companhias como Visa e Mastercard.
Para o Guardian, a discussão vai além da concorrência comercial e envolve o controle da infraestrutura financeira brasileira.
O editorial observa que o Brasil criou uma plataforma pública capaz de processar pagamentos de forma rápida e com custos reduzidos, diminuindo a dependência de sistemas controlados por empresas estrangeiras.
Na interpretação do jornal, a pressão dos Estados Unidos sobre o Pix representa uma tentativa de limitar a capacidade brasileira de manter uma infraestrutura financeira autônoma.
Fontes ouvidas pela Reuters indicaram que o governo norte-americano prepara uma tarifa de 25% sobre mais de 4 mil produtos brasileiros, abrangendo aproximadamente US$ 15 bilhões em exportações anuais.
Entre os setores potencialmente atingidos estão os de ferro-gusa, etanol, tabaco e açúcar. Produtos como café, carne bovina e alguns componentes aeronáuticos poderiam permanecer fora da nova taxação.
O Brasil rejeita as acusações de práticas comerciais injustas e argumenta que medidas relacionadas ao Pix, à proteção ambiental e à regulação das plataformas integram políticas públicas definidas de acordo com a legislação nacional.
A imposição das tarifas ocorre poucos meses antes das eleições presidenciais de outubro, o que aumenta a repercussão política da disputa comercial.
O editorial também aborda o confronto eleitoral entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontados entre os principais nomes da disputa presidencial.
O jornal classificou como “extremamente audacioso” o pedido feito por Flávio Bolsonaro para que o governo norte-americano adie eventuais tarifas até depois das eleições brasileiras.
O senador argumenta que a taxação poderia prejudicar investimentos e fortalecer eleitoralmente Lula. Ele também defendeu limitações à integração do Pix com redes de pagamentos de países não alinhados ao Ocidente, proposta criticada pelo governo brasileiro como uma concessão à pressão estrangeira.
O Guardian descreve Lula como um dos políticos mais bem-sucedidos deste século e destaca a redução da pobreza registrada durante seus governos. Ao mesmo tempo, recorda que o presidente retornou ao poder em 2023, após a anulação das condenações que haviam sido impostas contra ele.
Ao concluir o editorial, o jornal afirma que Trump transformou a defesa da soberania brasileira em uma alegação de discriminação comercial e critica integrantes do bolsonarismo que, em sua avaliação, aderem a essa interpretação.
Os comentários abaixo são opiniões de leitores e não representam a opinião deste veículo.
Leia Também
Leia Mais
Cor, cheiro e aspecto da urina podem revelar sinais de problemas de saúde
Leia Mais
Mãe de Eliza Samudio anuncia pré-candidatura a deputada estadual no Rio
Leia Mais
Dino dá 10 dias para 21 partidos explicarem supostas “cotas” de emendas
Leia Mais
Inglaterra e Argentina fazem duelo histórico por vaga na final da Copa do Mundo
Municípios