Política / Segurança
Lula evita embate imediato com Trump após EUA classificarem PCC e CV como terroristas
Planalto quer medir impactos financeiros da classificação das facções como terroristas antes de buscar diálogo com os Estados Unidos
30/05/2026
09:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não pretende procurar, no curto prazo, a gestão de Donald Trump para tentar reverter a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas.
A orientação inicial do Palácio do Planalto é que o Itamaraty e outros ministérios façam uma avaliação detalhada dos possíveis efeitos da medida sobre o Brasil. A prioridade, neste momento, é entender as consequências práticas da decisão americana antes de qualquer tentativa de negociação diplomática.
Entre os pontos em análise estão os possíveis impactos financeiros da classificação. Integrantes do governo querem saber se a medida poderá atingir empresas, bancos ou instituições brasileiras que, direta ou indiretamente, sejam associadas a investigações envolvendo lavagem de dinheiro ou movimentações suspeitas ligadas às facções.
A avaliação também leva em conta experiências anteriores em outros países. Diplomatas citam o caso do México, onde instituições financeiras foram alvo de sanções após serem acusadas de envolvimento em operações de lavagem de dinheiro relacionadas a cartéis classificados como terroristas pelos Estados Unidos.
No caso mexicano, três instituições ficaram impedidas de realizar transações com bancos norte-americanos. Esse tipo de efeito preocupa o governo brasileiro, que tenta medir se a nova classificação do PCC e do CV pode gerar reflexos semelhantes no sistema financeiro nacional.
Um diplomata ouvido sob reserva afirmou que a análise do governo deve considerar, acima de tudo, os efeitos econômicos para o país. Segundo ele, a prioridade é proteger emprego, renda e estabilidade econômica diante de eventuais sanções.
“O nome do jogo é o interesse nacional. Isso significa proteger emprego e renda. Se houver sanções econômicas, esses pilares podem ser afetados”, afirmou.
Planalto diz ter sido surpreendido pela decisão
Nos bastidores, integrantes do governo afirmam que o anúncio feito pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos pegou o Palácio do Planalto de surpresa. Um ministro próximo a Lula avaliou que não há motivo, neste momento, para o Brasil procurar a gestão Trump, já que a decisão foi divulgada sem comunicação prévia ao governo brasileiro.
Esse auxiliar lembrou ainda que Lula esteve na Casa Branca no início de maio, ocasião em que entregou documentos com propostas de cooperação no combate ao crime organizado. Segundo a avaliação interna, as sugestões apresentadas pelo governo brasileiro não tiveram resposta efetiva por parte dos Estados Unidos.
Por enquanto, a reação oficial do governo brasileiro deve permanecer restrita à nota já divulgada pelo Planalto e às manifestações públicas do presidente Lula. Em suas declarações, o presidente direcionou críticas ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que defendeu a medida norte-americana.
Possível encontro no G7
A decisão dos Estados Unidos ocorre em meio à possibilidade de um encontro presencial entre Lula e Donald Trump durante a próxima cúpula do G7, marcada para ocorrer entre 15 e 17 de junho, no interior da França.
Os dois presidentes já confirmaram presença no evento. Até agora, no entanto, não há previsão oficial de reunião bilateral entre eles à margem da cúpula.
Mesmo com a possibilidade de contato entre os dois líderes, o governo brasileiro avalia que qualquer movimento diplomático sobre o tema dependerá primeiro da análise técnica dos impactos da decisão americana. A tendência, portanto, é que o Brasil evite uma reação imediata e busque definir uma estratégia com base nos riscos econômicos, jurídicos e institucionais envolvidos.
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