Política / Eleições 2026
Flávio tenta transformar decisão dos EUA sobre PCC e CV em trunfo eleitoral contra Lula
Aliados do governo veem articulação externa como risco à soberania e miram ligação do senador com o caso Dark Horse
29/05/2026
14:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abriu uma nova frente de disputa política entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Logo após o anúncio feito pelo governo de Donald Trump, na quinta-feira (28), Flávio passou a tratar a medida como resultado de sua agenda nos Estados Unidos. O senador, pré-candidato à Presidência, publicou vídeo nas redes sociais em tom de campanha e buscou associar a decisão norte-americana à pauta da segurança pública.
No vídeo, Flávio Bolsonaro afirmou que, a partir de 2027, pretende “libertar” os brasileiros do que chamou de “governo paralelo, violento e covarde”. A fala foi interpretada por aliados de Lula como uma tentativa de transformar a decisão dos Estados Unidos em bandeira eleitoral contra o governo federal.
Enquanto o campo bolsonarista tenta explorar o episódio como vitória política, o entorno de Lula trabalha para enquadrar a medida como risco à soberania nacional. A avaliação no Planalto é que a classificação das facções como organizações terroristas pode abrir margem para pressões externas e criar tensão diplomática.
O presidente Lula foi informado da decisão norte-americana por auxiliares da área internacional na noite de quinta-feira. Em seguida, pediu uma análise sobre os possíveis impactos econômicos da medida, além de uma avaliação diplomática do Itamaraty.
A orientação inicial do governo é reunir dados técnicos antes de uma manifestação mais ampla. Mesmo assim, interlocutores do presidente afirmam que o discurso central será a defesa da soberania brasileira e da autonomia do país para combater o crime organizado com suas próprias instituições.
Aliados do governo passaram a acusar Flávio Bolsonaro de articular uma interferência dos Estados Unidos em assuntos internos do Brasil. A estratégia política do campo lulista deve associar o senador à tentativa de internacionalizar a pauta da segurança pública em meio ao processo eleitoral.
O ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, questionou publicamente se os Estados Unidos também classificariam como terroristas milícias do Rio de Janeiro ligadas ao bolsonarismo. A fala sinaliza a linha de enfrentamento que deve ser adotada por setores do governo.
Nos bastidores, aliados de Lula afirmam que a decisão de Trump reforça uma estratégia já em andamento contra Flávio: manter em evidência o caso Dark Horse e a relação do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. A avaliação é que a pauta da segurança pública pode ter sido usada pelo senador para tentar deslocar o foco do desgaste provocado pelo episódio.
A diplomacia brasileira já era contrária à designação de facções criminosas como organizações terroristas por razões jurídicas e conceituais. A posição do governo se alinha ao entendimento de que o terrorismo internacional envolve motivações políticas, religiosas ou ideológicas, enquanto facções como PCC e CV atuam principalmente por lucro, tráfico de drogas, armas e domínio territorial.
O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, defendeu a cooperação entre países, mas rejeitou qualquer possibilidade de intervenção externa.
“Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”, afirmou.
No campo da oposição, a decisão norte-americana foi recebida como oportunidade para desgastar Lula em uma área considerada sensível para o governo: a segurança pública. Flávio afirmou que fez “mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros” em uma viagem como pré-candidato do que o PT teria feito em anos de governo.
O senador também compartilhou uma publicação de Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, e escreveu: “Grande dia”. A mensagem reforçou a tentativa de capitalizar politicamente a medida anunciada por Washington.
Outros nomes da oposição também entraram no debate. O governador de Goiás e presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) criticou Lula e afirmou que o presidente desmoraliza o país ao, segundo ele, tratar organizações criminosas como vítimas.
Já o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), elogiou Flávio Bolsonaro e afirmou que o senador teria conseguido fazer algo que Lula deveria ter feito antes. Zema disse que quem ameaça a soberania brasileira são o PCC e o Comando Vermelho, por dominarem territórios dentro do país.
Parlamentares bolsonaristas também comemoraram a decisão. O senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da pré-campanha de Flávio, afirmou que o senador foi mais efetivo do que o governo atual. O senador Sergio Moro (PL-PR) disse que a diplomacia de Flávio teria rendido mais do que a atuação de Lula. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) classificou a decisão como um “golaço” do pré-candidato.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que acompanhou o irmão na viagem aos Estados Unidos, também defendeu a articulação e afirmou que Flávio poderá fazer mais pela segurança pública caso seja eleito presidente.
Em resposta, parlamentares ligados ao governo Lula passaram a destacar iniciativas federais contra o crime organizado. A liderança do PT na Câmara citou o PL Antifacção e a PEC da Segurança como exemplos de medidas internas já em andamento.
Em nota, a liderança petista afirmou que a tentativa de tratar facções criminosas como terrorismo foi discutida e derrotada no Parlamento brasileiro. Para o PT, Flávio e Eduardo Bolsonaro buscam em Washington uma saída política que não conseguiram aprovar no Congresso Nacional.
Aliados de Lula também citam possíveis impactos econômicos da classificação. Há preocupação com efeitos sobre o sistema financeiro, investimentos estrangeiros, empresas brasileiras com atuação nos Estados Unidos e cooperação internacional.
O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) afirmou que a medida pode dificultar investimentos americanos no Brasil e permitir interferências do governo norte-americano em assuntos de interesse de empresas brasileiras nos Estados Unidos.
No Centrão, a leitura é dividida. Um presidente de partido próximo a Flávio Bolsonaro avalia que a decisão de Trump pode ser positiva eleitoralmente para o senador e ajudá-lo a superar a crise causada pelo caso Dark Horse.
Entre deputados ouvidos nos bastidores, parte acredita que os bolsonaristas tentarão desviar o foco da PEC 6x1 e do caso Dark Horse para desgastar o PT na segurança pública. Outros avaliam que a medida pode recolocar a segurança no centro do debate nacional, tema no qual Lula enfrenta maior pressão política.
A disputa em torno da decisão dos Estados Unidos deve seguir como um dos principais embates entre governo e oposição. De um lado, Flávio Bolsonaro busca apresentar a classificação do PCC e do CV como vitória de sua articulação internacional. De outro, aliados de Lula tentam enquadrar o episódio como tentativa de interferência externa e ameaça à soberania brasileira.
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