Política / Diplomacia
Lula prepara reação a decisão dos EUA sobre PCC e CV e deve reforçar defesa da soberania brasileira
Planalto avalia contato direto com Donald Trump e busca cooperação contra o crime organizado sem aceitar interferência externa
29/05/2026
07:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma resposta política e diplomática à decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras. No Palácio do Planalto, a medida foi recebida com preocupação e deve levar o governo brasileiro a reforçar publicamente a defesa da soberania nacional.
Segundo auxiliares presidenciais, Lula também avalia fazer um contato direto com o presidente norte-americano Donald Trump para tratar do tema. A intenção do governo brasileiro é abrir espaço para uma cooperação bilateral no enfrentamento ao crime organizado, mas sem aceitar qualquer tipo de intervenção externa em assuntos internos do país.
A avaliação no Planalto é de que a decisão norte-americana surpreendeu o Itamaraty e o Ministério da Justiça, que não teriam sido comunicados previamente sobre o anúncio feito pelo Departamento de Estado dos EUA, comandado por Marco Rubio. Para integrantes do governo, o tema deveria ter sido discutido antes com Brasília, especialmente por envolver facções criminosas com atuação no território brasileiro.
Auxiliares de Lula entendem que Trump pode não ter participado diretamente da formulação da medida. Dentro do governo brasileiro, há a leitura de que a classificação pode ter sido impulsionada por setores mais duros da administração norte-americana.
O episódio também ganhou contorno político em Brasília por causa da recente passagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pela Casa Branca. Pré-candidato à Presidência, o parlamentar defendeu junto a autoridades norte-americanas a adoção da medida contra o PCC e o Comando Vermelho.
No Planalto, a avaliação é de que a forma como o anúncio ocorreu pode ser interpretada como um gesto de aproximação política entre o governo norte-americano e Flávio Bolsonaro. Ainda assim, interlocutores de Lula afirmam que a resposta brasileira deverá se concentrar em aspectos diplomáticos, jurídicos e econômicos, evitando transformar o debate em uma disputa eleitoral direta.
A orientação discutida no governo segue a linha defendida por Celso Amorim, assessor especial da Presidência para assuntos internacionais: o Brasil aceita cooperação no combate ao crime organizado, mas rejeita qualquer sinal de intervenção. Nos bastidores, a frase que resume a posição do Planalto é: cooperação, sim; intervenção, jamais.
Na noite de quinta-feira (28), Lula conversou com integrantes da cúpula do governo para discutir os próximos passos. Entre os nomes acionados estão o chanceler Mauro Vieira, o número 2 da Assessoria Especial da Presidência, Audo Faleiro, o ministro da Justiça, Wellington César, e o ministro da Fazenda, Dario Durigan. A maior parte das conversas ocorreu por telefone.
Ao Ministério da Justiça, o presidente pediu um levantamento sobre possíveis prejuízos que a medida dos Estados Unidos pode causar à cooperação entre os dois países no combate ao crime organizado. Já ao Ministério da Fazenda, comandado por Dario Durigan, foi solicitado um estudo rápido sobre eventuais impactos econômicos da decisão.
Apesar da mobilização interna, o governo ainda não definiu se divulgará uma manifestação oficial nesta sexta-feira (29) ou se aguardará mais alguns dias. Integrantes do Planalto afirmam que já existem ao menos duas versões de nota prontas, dependendo apenas da autorização final de Lula.
A equipe de comunicação presidencial também defende que o presidente trate do assunto publicamente ainda nesta sexta-feira, durante agenda em Sergipe. A ideia é manter o foco na defesa da soberania brasileira e na necessidade de diálogo institucional entre os dois países.
Um dos principais desafios do governo será calibrar o discurso. Auxiliares de Lula avaliam que a resposta precisa ser firme contra a decisão norte-americana, mas sem dar margem à interpretação de que o governo brasileiro estaria relativizando a gravidade da atuação das facções criminosas.
Por isso, uma das estratégias em análise é concentrar a crítica nas possíveis consequências diplomáticas e econômicas da medida. A avaliação é de que esse caminho pode ampliar o apoio de setores empresariais, jurídicos e do mercado financeiro à posição brasileira, ao mesmo tempo em que preserva o compromisso do governo no combate ao crime organizado.
Dentro do Planalto, também há preocupação com uma eventual tentativa de Donald Trump de interferir no ambiente eleitoral brasileiro. A equipe de Lula busca manter o governo norte-americano em posição de neutralidade no processo político nacional, embora reconheça que um apoio explícito de Trump a adversários do petista poderia ser explorado politicamente pelo próprio governo brasileiro.
A reação do Planalto deve repetir a linha adotada em episódios anteriores de tensão com os Estados Unidos, especialmente no debate sobre medidas comerciais impostas pelo governo norte-americano. O eixo central será a defesa de que o Brasil pode e deve cooperar internacionalmente no enfrentamento ao crime, mas sem abrir mão de sua autonomia institucional e diplomática.
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