Política / Justiça
Cláudio Castro desiste de disputar o Senado após pressão no PL e avanço de investigações
Ex-governador do Rio comunicou decisão a Valdemar Costa Neto depois de operações da PF e denúncias envolvendo Banco Master
28/05/2026
14:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) desistiu de disputar uma vaga no Senado Federal nas eleições de 2026. A decisão foi comunicada ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, nesta quinta-feira, 28, em meio ao desgaste político provocado por investigações da Polícia Federal e pela situação jurídica do ex-mandatário.
Castro havia sido lançado como pré-candidato ao Senado em fevereiro, dentro da estratégia do PL para fortalecer a chapa no Rio de Janeiro. O plano incluía o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como principal puxador de votos e o deputado Douglas Ruas (PL) na disputa pelo governo estadual.
Segundo Valdemar Costa Neto, caberá ao PL fluminense definir o substituto de Castro na chapa. Nos bastidores, dirigentes da legenda já tratavam a pré-candidatura como politicamente inviável, principalmente após o ex-governador ser declarado inelegível e se tornar alvo de duas operações da Polícia Federal em menos de 15 dias.
A desistência também já vinha sendo sinalizada a aliados e secretários estaduais. Dentro do partido, Castro passou a ser visto como um peso eleitoral para a composição do PL no Rio, especialmente diante da avaliação de que sua permanência poderia prejudicar a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto e a campanha de Douglas Ruas ao governo estadual.
A situação política do ex-governador se agravou após novas denúncias envolvendo conversas com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A investigação aponta uma relação de proximidade entre Castro e Vorcaro, além de encontros em ambientes de luxo no exterior.
De acordo com informações da investigação, os dois estiveram juntos em maio de 2023, durante um evento em Nova York, nos Estados Unidos. Após o encontro, Castro teria enviado mensagens ao banqueiro, incluindo uma em que afirmou: “Amigo, foi uma experiência incrível”.
A Polícia Federal também identificou registros de um pagamento feito por Daniel Vorcaro no valor de US$ 13.313, cerca de R$ 66 mil, em um restaurante de luxo de Nova York, o Nusr-Et, conhecido por pratos de alto custo. Segundo a apuração, a despesa ocorreu pouco antes das mensagens trocadas entre o ex-governador e o banqueiro.
Em 2024, Castro e Vorcaro teriam voltado ao mesmo restaurante. Em uma das conversas citadas na investigação, o ex-governador pergunta: “Você não existe. Qual o nome do restaurante mesmo?”. Na sequência, Vorcaro orienta sobre a escolha de pratos sofisticados, incluindo carnes cobertas com folhas de ouro, que podem chegar a cerca de US$ 2 mil.
Os investigadores também apontam que Vorcaro teria solicitado a um interlocutor a alteração de uma reserva para incluir o nome de Cláudio Castro, além de confirmar o pagamento de despesas do grupo.
Como parte da apuração, a Polícia Federal realizou, nesta semana, uma operação de busca e apreensão na cobertura onde Castro mora, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
A defesa do ex-governador informou que está analisando o material da investigação e que apresentará esclarecimentos ao Supremo Tribunal Federal (STF). Os advogados afirmam que não houve irregularidade na conduta de Castro. A defesa de Daniel Vorcaro não quis se manifestar.
O caso também envolve suspeitas relacionadas ao Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores estaduais do Rio de Janeiro. Segundo a investigação, a proximidade entre Castro e Vorcaro teria facilitado um aporte de aproximadamente R$ 3 bilhões do fundo no Banco Master.
Na decisão que autorizou uma das ações da Polícia Federal, o ministro André Mendonça, do STF, afirmou que os investimentos eram “temerários e desprovidos de justificativa técnica”. O Rioprevidência, por sua vez, declarou que não há risco para o pagamento de aposentados e pensionistas e que adota medidas para recuperar recursos aplicados em fundos ligados ao Banco Master.
Além desse inquérito, Castro também foi alvo de outra operação da Polícia Federal, deflagrada em 15 de maio, com autorização do ministro Alexandre de Moraes, do STF. A investigação apura suspeitas de uso da máquina pública para beneficiar a Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, em um suposto esquema de fraudes fiscais.
A condição jurídica de Castro já vinha se deteriorando antes das operações. Em março, ele renunciou ao governo do Rio de Janeiro na véspera da conclusão de julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que o tornou inelegível por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
A renúncia foi interpretada como tentativa de evitar a cassação e abrir caminho para eleições indiretas no Estado. Mesmo assim, o Rio passou a ser comandado interinamente pelo presidente do Tribunal de Justiça, a menos de cinco meses da eleição.
Castro recorreu da decisão do TSE e chegou a ensaiar a possibilidade de disputar as eleições sub judice. No entanto, até aliados consideravam pequena a chance de reversão da inelegibilidade.
Nos bastidores do PL, a avaliação é de que as operações da Polícia Federal foram decisivas para encerrar a pré-candidatura. Dirigentes da sigla afirmam que o ex-governador decidiu concentrar esforços em sua defesa.
Com a saída de Castro, o PL fluminense discute nomes para substituí-lo na disputa ao Senado. Entre os cotados estão os deputados federais Carlos Jordy e Sóstenes Cavalcante, além do ex-secretário de Polícia Civil do Rio Felipe Curi. A mãe de Flávio Bolsonaro, Rogéria Bolsonaro, também é mencionada nas conversas internas, embora inicialmente fosse considerada para a suplência de Márcio Canella.
A chapa discutida pelo partido no Rio tinha Douglas Ruas como candidato ao governo, o ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa (PP) como vice e Márcio Canella (União) como candidato à outra vaga ao Senado.
A expectativa entre integrantes do partido é que Flávio Bolsonaro, que participou da montagem da chapa em fevereiro, tenha influência direta na escolha do novo nome para a vaga deixada por Cláudio Castro.
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