Política / Eleições 2026
Eleição presidencial de 2026 consolida disputa ideológica entre direita e esquerda
Polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro mostra eleitorado dividido por campos políticos, embora pesquisas indiquem que parte dos brasileiros ainda atravesse fronteiras ideológicas
30/09/2026
07:15
FRANCISCO BRITTO
A eleição presidencial de 2026 chega à reta final com uma característica que vai além da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). O confronto eleitoral reproduz uma divisão que se consolidou na política brasileira nos últimos anos: de um lado, o campo da esquerda, concentrado principalmente em torno do atual presidente; de outro, uma direita que tem no bolsonarismo sua principal força eleitoral, embora mantenha correntes internas e outros candidatos.
Os levantamentos mais recentes ajudam a dimensionar essa concentração. Pesquisa Datafolha, divulgada nesta semana, registrou Lula com 40% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro com 36%. Augusto Cury (Avante) aparece com 5%, Ronaldo Caiado (PSD) com 4% e Renan Santos (Missão) com 3%.
Na pesquisa Quaest, divulgada na segunda-feira (28), o cenário também apresenta forte concentração nos dois principais candidatos: Lula registra 39% e Flávio Bolsonaro, 34%. Juntos, eles reúnem 73% das intenções de voto no cenário estimulado.
Já o levantamento Meio/Ideia, divulgado nesta quarta-feira (30), aponta uma disputa ainda mais apertada entre os dois, com empate técnico tanto no primeiro quanto no segundo turno. Foram entrevistados 2 mil eleitores, entre 25 e 28 de setembro, e a margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.
Os números permitem observar uma eleição fortemente organizada em torno de dois campos políticos, mas é preciso cautela para não reduzir todo voto a uma escolha puramente ideológica.
Lula e Flávio carregam identidades políticas que ultrapassam suas próprias candidaturas. O presidente representa o PT e uma coalizão predominantemente situada à esquerda e à centro-esquerda. Flávio Bolsonaro representa o PL e está associado ao campo político liderado nos últimos anos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, predominantemente identificado com a direita.
Uma pesquisa Quaest realizada em junho já mostrava essa diferença na organização dos dois campos. Entre os eleitores classificados como lulistas, 91% declaravam voto em Lula. Mesmo entre aqueles identificados com a esquerda, mas que não se consideravam lulistas, 73% afirmavam votar no presidente.
No outro polo, 59% dos eleitores de direita não bolsonaristas declaravam voto em Flávio Bolsonaro naquele levantamento, enquanto parcelas desse segmento ainda se distribuíam entre outros candidatos.
Isso indica que a esquerda estava, naquele momento, mais concentrada em uma única candidatura, enquanto a direita apresentava maior dispersão fora do núcleo bolsonarista.
Ao mesmo tempo, pesquisas mostram que as fronteiras ideológicas brasileiras são menos rígidas do que a polarização entre os candidatos pode sugerir.
Estudo do Datafolha, divulgado em julho, mostrou que 60% dos eleitores de Lula eram classificados como de esquerda ou centro-esquerda, enquanto 24% estavam na direita ou centro-direita e 16% no centro.
Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 63% estavam na direita ou centro-direita, 17% no centro e 18% na esquerda ou centro-esquerda. A classificação do instituto foi construída a partir de respostas sobre questões econômicas e comportamentais.
Portanto, existe forte associação entre candidato e campo ideológico, mas ela não é absoluta.
Há eleitores que atravessam essas fronteiras por razões econômicas, avaliação de governo, rejeição ao adversário, propostas específicas ou identificação pessoal com determinado candidato.
Outro componente importante da polarização é o chamado voto negativo, quando a decisão eleitoral também é influenciada pelo objetivo de impedir a vitória do adversário.
Pesquisa Datafolha realizada no início de setembro mostrou que 71% dos eleitores que já tinham candidato estavam totalmente decididos. Entre os eleitores de Lula, o índice chegava a 81%, enquanto entre os de Flávio Bolsonaro era de 80%.
O mesmo levantamento perguntou o motivo da escolha. Entre os eleitores de Lula, 71% disseram votar pelas propostas e 21% para impedir a eleição de outro candidato. Entre os eleitores de Flávio, 57% apontaram as propostas e 34% disseram escolher o senador para evitar a vitória de outro nome.
Os dois candidatos também apresentavam os maiores índices de rejeição naquele levantamento: 47% afirmavam que não votariam de jeito nenhum em Flávio Bolsonaro, enquanto 45% rejeitavam Lula.
Esse componente ajuda a entender por que uma eleição polarizada não é formada apenas por entusiasmo com determinado candidato. Parte do eleitorado pode votar também pela rejeição ao campo adversário.
A polarização também interfere na maneira como acontecimentos políticos são interpretados.
Pesquisa Datafolha divulgada em setembro, por exemplo, mostrou diferenças expressivas na leitura do eleitorado sobre o envolvimento de campos políticos em escândalos. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 58% apontavam majoritariamente a esquerda em uma das questões pesquisadas, enquanto entre os eleitores de Lula 48% atribuíam maior envolvimento à direita.
Isso evidencia um fenômeno importante da atual disputa: eleitores posicionados em campos diferentes podem observar o mesmo acontecimento político e chegar a conclusões distintas.
A eleição, dessa forma, envolve não apenas propostas sobre economia, segurança, programas sociais, costumes ou papel do Estado. Ela também passa por identidades políticas construídas ao longo dos últimos anos e por diferentes interpretações sobre os acontecimentos nacionais.
A concentração de votos em Lula e Flávio Bolsonaro deixa um espaço menor para candidatos que tentam escapar do confronto entre petismo e bolsonarismo.
No Datafolha mais recente, Augusto Cury registra 5%, Ronaldo Caiado aparece com 4% e Renan Santos, com 3%. Romeu Zema (Novo) e Samara Martins (UP) têm 1% cada.
A Quaest também identificou movimento de concentração na reta final. O percentual de indecisos caiu de 10% para 5% entre levantamentos de setembro, enquanto os candidatos fora da dupla Lula-Flávio passaram, somados, de 16% para 12%. A movimentação ocorre paralelamente às estratégias das campanhas para estimular o chamado voto útil.
Com isso, candidatos menores enfrentam a dificuldade de convencer o eleitor a abandonar os dois principais polos justamente quando aumenta a pressão por uma escolha entre eles.
Definir a eleição de 2026 simplesmente como uma disputa pessoal entre Lula e Flávio Bolsonaro deixa de fora uma parte importante do fenômeno. Os dados mostram uma competição estruturada em grande medida pela divisão entre esquerda e direita, reforçada pelas identidades petista/lulista e bolsonarista.
Mas afirmar que o componente pessoal desapareceu também seria impreciso.
As pesquisas mostram simultaneamente três movimentos: forte concentração dos eleitores ideologicamente identificados em torno dos principais candidatos, elevados índices de rejeição e existência de parcelas do eleitorado que votam fora do campo ideológico ao qual são classificadas.
Assim, a eleição presidencial de 2026 combina ideologia, avaliação de governo, propostas, identificação partidária, rejeição ao adversário e imagem pessoal dos candidatos.
A diferença em relação a uma disputa exclusivamente baseada em personalidades está no peso adquirido pelos campos políticos. Para uma parcela expressiva dos brasileiros, a escolha de outubro não envolve somente decidir entre dois nomes na urna, mas também escolher entre projetos e identidades políticas que passaram a organizar a competição nacional entre direita e esquerda.
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