Campo Grande (MS), Terça-feira, 29 de Setembro de 2026

Justiça / Apostas

Advogado Willer Tomaz diz ter apostado quase R$ 5 bilhões e cobra R$ 163 milhões da Blaze na Justiça

Ação sustenta que plataforma estimulou comportamento compulsivo e descumpriu regras de jogo responsável; advogado apresenta laudo de ludopatia e pede ressarcimento

29/09/2026

13:00

MTP

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

O advogado Willer Tomaz recorreu à Justiça para tentar recuperar R$ 163 milhões que afirma ter perdido em apostas realizadas na plataforma Blaze. Documentos apresentados no processo indicam que ele movimentou valores bilionários em jogos on-line durante 2025, chegando a registrar quase R$ 5 bilhões em apostas perdidas e aproximadamente R$ 4,8 bilhões em ganhos somente nos jogos de cassino. 

A ação tramita na 44ª Vara Cível de São Paulo. Tomaz sustenta que desenvolveu dependência em jogos, apresentou laudo psiquiátrico de ludopatia e acusa a empresa de não ter adotado mecanismos suficientes para impedir que continuasse apostando mesmo diante do volume de operações e das perdas acumuladas.

Os números apresentados são resultado da movimentação repetida do dinheiro dentro da plataforma e, portanto, não significam que Willer tenha desembolsado R$ 5 bilhões em recursos novos. Segundo os documentos citados na reportagem, os depósitos realizados por ele durante 2025 totalizaram R$ 300 milhões, enquanto os saques chegaram a R$ 137 milhões. 

Quase R$ 10 bilhões entre ganhos e perdas

Um relatório sobre a conta de Willer mostra a dimensão da movimentação.

Nos jogos de cassino durante 2025, ele teria registrado R$ 4,800 bilhões em ganhos e R$ 4,963 bilhões em perdas. A diferença resulta em um prejuízo líquido de aproximadamente R$ 163 milhões. Em apostas esportivas, segundo o mesmo levantamento, houve lucro de R$ 39 mil. 

A movimentação bruta entre ganhos e perdas, portanto, ficou próxima de R$ 10 bilhões.

A ação judicial foi apresentada três dias antes de Willer ser alvo, em 4 de agosto, de uma operação relacionada às investigações da chamada Máfia do INSS. Em relatório utilizado na operação, a Polícia Federal o descreveu como um suposto “hub financeiro, patrimonial e logístico” de investigados. Essa investigação é distinta da disputa judicial com a Blaze. Markdown colado

Apostas chegavam a dezenas de milhares de reais por rodada

Os registros anexados ao processo detalham sessões de apostas com valores elevados.

Em 29 de julho, por exemplo, Willer teria jogado entre 2h e 4h. Nesse intervalo, foram realizados 11 depósitos de R$ 100 mil, totalizando R$ 1,1 milhão. Segundo os registros, o dinheiro foi perdido após centenas de rodadas de roleta, algumas com apostas superiores a R$ 50 mil. 

O comportamento continuou em 2026.

Na manhã de 19 de janeiro, conforme os documentos, Willer depositou R$ 500 mil e, depois de cerca de meia hora de jogo, realizou saques que totalizaram R$ 1 milhão, divididos em dez operações.

No mesmo dia, recebeu um bônus de fidelidade de R$ 325 mil, que teria sido utilizado em aproximadamente cinco minutos. À noite, as apostas terminaram com R$ 725 mil em perdas, eliminando o resultado positivo obtido anteriormente. Markdown colado

Viagem com Flávio Bolsonaro aparece na cronologia

A data de 19 de janeiro também aparece no processo por outra circunstância. Segundo a reportagem que revelou o caso, Willer retornou dos Estados Unidos ao Brasil naquele dia em seu jatinho, levando como passageiro o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A relação pessoal entre os dois tem sido objeto de reportagens recentes. O material afirma que Flávio teria se hospedado em um imóvel do advogado em São Paulo, realizado a festa de aniversário da filha em uma propriedade ligada a Willer em Angra dos Reis e viajado com ele ao exterior em outras ocasiões. 

Esses fatos são paralelos à ação contra a Blaze e não indicam participação de Flávio Bolsonaro nas apostas ou na disputa judicial.

Atendimento VIP e movimentações de alto valor

A relação de Willer com a plataforma teria começado antes da regulamentação federal atualmente aplicável às apostas.

Segundo o processo, depois de apresentar documentos para comprovação de renda, incluindo extratos bancários que registravam repasses milionários de escritórios de advocacia e de uma emissora de televisão maranhense, ele passou a receber atendimento VIP da Blaze em 2023.

O advogado teria um funcionário da empresa dedicado ao atendimento por WhatsApp. O relacionamento levou Willer a atingir o nível 171 no programa de fidelidade da plataforma. 

Conversas anexadas ao processo mostram discussões sobre os procedimentos para movimentar grandes quantias.

Em uma delas, em janeiro de 2025, Willer reclamou da necessidade de realizar reconhecimento facial a cada saque de R$ 100 mil e pediu que o limite por operação fosse aumentado para R$ 500 mil.

“Esse reconhecimento facial está demorando até um minuto”, reclamou.

Segundo os registros apresentados na ação, posteriormente o atendente informou que o advogado não precisaria mais passar pelo procedimento a cada solicitação. A reportagem sustenta que essa flexibilização contrariava as regras federais aplicáveis. 

Bônus também é questionado

Outro ponto usado no processo é a concessão de benefícios e recompensas pela plataforma.

Em uma conversa, Willer chegou a argumentar que proporcionava elevada receita à empresa.

“Duvido que exista alguém no mundo que tenha te dado mais lucro do que eu”, escreveu ao atendente.

O advogado também mencionou possuir linhas de crédito em cassinos de Las Vegas e perguntou se seria possível adotar mecanismo semelhante para reduzir o número de transações bancárias relacionadas às apostas. 

A defesa sustenta que determinados incentivos recebidos depois da regulamentação, incluindo bônus de fidelidade, seriam incompatíveis com as regras brasileiras e teriam contribuído para manter o comportamento de jogo.

Willer questionou ausência de alerta sobre jogo responsável

O ritmo das apostas começou a diminuir no início de março de 2026. Segundo as mensagens apresentadas, um funcionário da Blaze percebeu a redução da atividade e perguntou ao advogado o motivo.

Willer respondeu que estava insatisfeito com a demora para liberação de saques e disse ter ficado impressionado ao analisar o relatório completo da própria conta.

“Os números são extremamente altos, tanto em termos de movimentação quanto de perdas”, escreveu.

Na mesma conversa, afirmou que, diante da intensidade da atividade, esperava ter recebido algum tipo de verificação ou orientação relacionada ao jogo responsável. 

Antes do processo, advogado propôs acordo de 70%

Antes de levar a disputa ao Judiciário, Willer procurou a Blaze para propor um acordo.

Segundo os registros apresentados, ele pretendia receber de volta 70% do valor que alegava ter perdido.

Na ocasião, atribuiu o prejuízo a uma série de fatores, incluindo diferenças entre depósitos e saques, dificuldades para retirar recursos da plataforma, incentivos relacionados às perdas e ausência de mecanismos que considerava adequados para prevenir comportamento de risco.

A proposta não encerrou a controvérsia e a ação acabou sendo protocolada em agosto.

Laudo aponta ludopatia

Quando o processo chegou à Justiça, a defesa apresentou um argumento adicional: Willer seria portador de ludopatia, nome utilizado para caracterizar transtorno relacionado à compulsão por jogos.

O advogado é representado na ação pelo ex-ministro Eugênio Aragão, seu sócio, que sustenta que o padrão das apostas demonstraria comportamento patológico.

Um laudo assinado em julho pelo psiquiatra Diego Canelhas foi anexado aos autos. Conforme o documento, Willer estava iniciando tratamento e o médico analisou informações fornecidas pelo próprio paciente sobre o volume financeiro movimentado nas apostas. 

O diagnóstico e suas consequências jurídicas ainda serão avaliados dentro do processo.

Defesa afirma que plataforma dificultou bloqueio

Outro ponto apresentado à Justiça envolve uma suposta tentativa de interromper o acesso aos jogos.

A defesa anexou dois prints de conversas nas quais um usuário pede que a conta seja bloqueada e que cessem as mensagens promocionais. Os registros, entretanto, não exibem datas e o perfil mostrado não está identificado. O advogado de Willer atribui as mensagens ao cliente. 

Em uma delas, o usuário afirma:

“Quero que vcs bloqueiem o meu acesso a jogos. E parem de me enviar promoções estimulando apostas. Estou com problemas de saúde. Estou viciado.”

A defesa também afirma que Willer continuou recebendo publicidade relacionada à Blaze depois do pedido de bloqueio.

Por outro lado, os autos citados na reportagem não apresentam registro de que ele tenha utilizado o sistema federal de autoexclusão, mecanismo que impede usuários cadastrados de abrir contas, depositar dinheiro, apostar ou receber publicidade direcionada das operadoras autorizadas. 

Advogado também atua no setor de apostas

A disputa judicial ocorre enquanto Willer mantém relações profissionais com o próprio mercado de apostas.

Segundo a reportagem, ele é apontado como beneficiário final da RioPag, empresa que obteve exclusividade na intermediação de pagamentos entre apostadores e empresas licenciadas pelo Estado do Rio de Janeiro.

Willer também atua como advogado da companhia. Seu escritório, ainda conforme o material, patrocinava até recentemente a Aposta Legal, associação de empresas do setor. 

A circunstância deverá conviver com a tese apresentada por sua defesa de que a Blaze falhou em mecanismos destinados à proteção de jogadores vulneráveis.

A ação agora deverá definir se as circunstâncias descritas pelo advogado, o diagnóstico apresentado e eventuais falhas atribuídas à plataforma são suficientes para gerar responsabilidade civil e restituição dos R$ 163 milhões reclamados. Até o estágio retratado no material, não havia decisão judicial determinando que a Blaze devolvesse os valores, e Willer não havia respondido ao pedido de manifestação feito pela reportagem original. 


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