Internacional / Justiça
Ex-diretor que comandou execuções nos EUA relata assombrações e vira opositor da pena de morte
Ron McAndrew supervisionou eletrocussões na Flórida e participou de injeções letais no Texas; aos 88 anos, diz carregar arrependimento pelas mortes
28/09/2026
18:30
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Durante anos, Ron McAndrew esteve do lado de dentro de uma das etapas mais extremas do sistema penal dos Estados Unidos. Como diretor da Penitenciária Estadual da Flórida, ele supervisionou execuções de condenados à morte e participou diretamente dos procedimentos que antecediam o acionamento da cadeira elétrica.
Décadas depois, aos 88 anos, McAndrew descreve uma transformação profunda. O homem que chegou à direção do presídio defendendo a máxima “olho por olho, dente por dente” tornou-se um crítico da pena de morte e passou a colaborar com advogados e organizações que tentam impedir execuções.
A mudança, segundo ele, teve um custo pessoal. McAndrew relata que passou a ter visões recorrentes dos homens cujas execuções acompanhou.
“Eles nunca disseram nada. Eles simplesmente ficavam sentados ali me olhando”, recorda.
Em sua interpretação, o silêncio carregava uma pergunta: “Como você pôde fazer uma coisa dessas? Você sempre disse que era uma boa pessoa. E agora está matando pessoas.”
McAndrew construiu praticamente toda a carreira no sistema penitenciário. Começou a trabalhar em prisões da Flórida na década de 1970, depois de perder o emprego como vendedor.
Passou por diferentes funções, tornando-se sargento, tenente e major até chegar à direção da Florida State Prison, perto de Starke, em 1996.
Antes de assumir o posto, foi questionado sobre sua disposição para participar das execuções realizadas no estabelecimento.
“Não, senhor. Olho por olho, dente por dente”, respondeu na época, segundo seu próprio relato.
Essa convicção não sobreviveria à experiência dentro da câmara de execução.
“Eu realmente acreditava na pena de morte. Hoje, não consigo acreditar que acreditei nisso. Simplesmente não consigo acreditar”, afirma.
Como diretor, McAndrew não se limitava às tarefas administrativas. Nas horas anteriores a cada execução, encontrava-se pessoalmente com o condenado.
Na manhã marcada para a morte, entrava na cela e solicitava aos agentes que deixassem os dois sozinhos. Sentava-se perto do preso para uma última conversa.
“Fiz o meu melhor para ser uma pessoa que os confortasse”, conta.
Ele também cuidava da última refeição. Segundo McAndrew, o Estado disponibilizava US$ 40 e, quando o pedido ultrapassava esse valor, ele completava a diferença com dinheiro próprio.
Antes das execuções, reunia os integrantes da equipe para conversar sobre o procedimento e sobre o estado emocional dos funcionários.
O diretor, porém, rejeitava o humor macabro que havia se estabelecido entre alguns agentes. A cadeira elétrica era conhecida pelo apelido de “Old Sparky”, algo como “Velha Faísca”. McAndrew proibiu o uso da expressão.
“Nada do que estamos fazendo é uma piada”, dizia.
Ele também encerrou o costume de a equipe ir a um restaurante depois das execuções, após presenciar pessoas cumprimentando os agentes como se estivessem celebrando o que acabara de acontecer.
Os relatos de McAndrew sobre a cadeira elétrica descrevem um procedimento fisicamente agressivo.
Na câmara, cada integrante da equipe tinha uma função determinada. McAndrew ficava responsável por prender o tornozelo direito do condenado.
Depois de imobilizado, o preso recebia um microfone para pronunciar suas últimas palavras diante das testemunhas.
Em seguida, uma máscara de couro era colocada sobre o rosto. Segundo McAndrew, ela era apertada com força e, em algumas execuções que testemunhou, provocava sangramento.
Do outro lado da estrutura ficava o carrasco, cuja identidade era preservada inclusive dos demais funcionários.
McAndrew dava um sinal previamente combinado. Era a autorização para iniciar a descarga elétrica.
Um dos casos que mais afetaram McAndrew foi o de Leo Jones, condenado pelo assassinato de um policial em Jacksonville.
Jones sustentava ser inocente e afirmava que sua confissão havia sido obtida mediante coerção.
McAndrew começou a estudar o processo e passou a questionar a investigação que levou à condenação.
“Essa investigação foi péssima”, afirma.
Segundo seu relato, ao levar as preocupações a um superior, recebeu uma orientação direta para não interferir: analisar a validade da condenação não fazia parte de suas atribuições como diretor.
Jones foi executado em 1998.
A partir daquele período, McAndrew conta que praticamente deixou de dormir normalmente.
Quando conseguia adormecer, afirma que passou a ter experiências perturbadoras.
Em seus relatos, homens executados apareciam novamente, sentados silenciosamente aos pés de sua cama.
Não falavam. Apenas o observavam.
O ex-diretor associa esses episódios ao crescente conflito psicológico que passou a enfrentar por sua participação nas execuções.
Na época de sua terceira execução como diretor, McAndrew relata que recorria ao álcool todas as noites. Também afirma ter enfrentado pensamentos suicidas e atribui à esposa, Lynne, papel decisivo para que não levasse a ideia adiante.
Esses relatos são experiências pessoais descritas por McAndrew e não constituem comprovação de fenômenos sobrenaturais.
Outro episódio marcante ocorreu na execução de Pedro Medina, em 1997.
Durante a eletrocussão, chamas surgiram na região da cabeça do condenado, produzindo imagens e relatos que intensificaram a discussão sobre o método utilizado pela Flórida.
A cadeira elétrica não foi imediatamente abolida no Estado. Após controvérsias e decisões judiciais, a injeção letal tornou-se o método padrão na Flórida em 2000, enquanto a eletrocussão permaneceu como alternativa prevista na legislação para determinadas situações.
McAndrew acabou enviado ao Texas para conhecer de perto os procedimentos de injeção letal.
Ele acompanhou execuções realizadas pelo método e diz ter participado da equipe em cinco mortes.
A experiência não mudou sua percepção sobre a pena capital.
“Não foi nada humano”, afirma. “Se fosse humano, não precisariam de oito cintos para imobilizar alguém.”
McAndrew deixou o sistema penitenciário em 2002. Fora da prisão, passou a enfrentar de maneira mais direta as consequências emocionais que atribuía aos anos envolvidos nas execuções.
“Eu gostaria de nunca ter ido para a prisão estadual da Flórida. Eu gostaria de nunca ter me envolvido nesse negócio sujo”, afirma.
Com o passar dos anos, transformou o arrependimento em militância contra a pena capital.
Passou a viajar pelos Estados Unidos para falar sobre sua experiência e também começou a colaborar com advogados que representam condenados à morte.
“Tive que olhar para mim mesmo. Você realmente começa a pensar no que fez. Por que fez”, diz.
A trajetória colocou McAndrew em uma posição incomum no debate norte-americano: ele conhece por dentro os protocolos de execução e, ao mesmo tempo, passou a contestar o sistema do qual fez parte.
Advogados, organizações contrárias à pena capital e presos condenados à morte passaram a recorrer ao antigo diretor em busca de informações sobre procedimentos penitenciários e execuções.
McAndrew afirma ter contribuído em casos nos quais condenados conseguiram deixar o corredor da morte.
“Tenho tido bastante sucesso em ajudar detentos a saírem do corredor da morte”, afirma.
Hoje, ao reconstruir a própria trajetória, ele não apresenta sua participação nas execuções como uma obrigação burocrática distante. Para McAndrew, as mortes permaneceram como parte de sua vida muito depois de deixar os corredores da penitenciária.
Aos 88 anos, o antigo diretor tenta usar justamente a experiência que lhe trouxe arrependimento para atuar do outro lado do debate que um dia considerou encerrado: se o Estado deve ou não ter o poder de executar uma pessoa condenada pela Justiça.
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