Religião / Intolerância
Imagem de Nossa Senhora Aparecida é destruída em Cuiabá e Arquidiocese cobra investigação
Estátua instalada na Cruz do Chilão foi encontrada sem a cabeça; Igreja repudia vandalismo e pede identificação dos responsáveis
28/09/2026
18:00
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
A Arquidiocese de Cuiabá repudiou nesta segunda-feira (28) a destruição de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, encontrada sem a cabeça na região da Cruz do Chilão, no bairro Santa Helena, em Cuiabá. A estátua foi encontrada danificada na noite de sexta-feira (25) e imagens do local começaram a circular pelas redes sociais no dia seguinte.
Até esta segunda-feira, não havia informação pública sobre a autoria ou a motivação do dano. A Polícia Civil de Mato Grosso informou que não havia localizado registro de ocorrência relacionado ao episódio. Dessa forma, não é possível afirmar, até o momento, que a destruição tenha sido motivada por intolerância religiosa.
A Cruz do Chilão é considerada um ponto tradicional da religiosidade popular cuiabana. Segundo a Arquidiocese, o local reúne elementos da tradição católica e da cultura dos povos de matriz africana e mantém importância histórica e cultural para a comunidade.
Na manifestação, a Arquidiocese destacou que a liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos são garantidos pela Constituição Federal. Também defendeu o respeito aos símbolos e espaços religiosos independentemente da tradição de fé.
A instituição pediu às autoridades que esclareçam o que ocorreu e identifiquem os responsáveis. “Repudiamos toda forma de intolerância religiosa, vandalismo e violência contra símbolos de fé”, afirmou o administrador arquidiocesano, padre Deusdedit Monge de Almeida.
Para a Igreja Católica, Nossa Senhora Aparecida ocupa posição central na devoção brasileira. A celebração da Padroeira ocorre em 12 de outubro, feriado nacional, pouco mais de duas semanas depois do episódio registrado em Cuiabá.
“Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, é, para nós, católicos, Mãe protetora e intercessora. Durante o mês de outubro, nossas paróquias e comunidades se unem em diversas celebrações e atividades para honrar aquela que é um dos maiores símbolos da fé católica no Brasil”, diz trecho da manifestação.
A Arquidiocese também defendeu que o mesmo respeito seja dispensado às demais religiões e suas manifestações: “Sua imagem merece respeito, assim como devem ser respeitados os símbolos, espaços sagrados e manifestações de fé de todas as tradições religiosas”.
O episódio ocorreu em um momento no qual Nossa Senhora Aparecida passou a ocupar espaço no debate da eleição presidencial de 2026, após a circulação de informações falsas envolvendo a manutenção do título de Padroeira do Brasil.
Apesar da coincidência temporal, não existe até agora evidência pública que relacione a destruição da imagem em Cuiabá à disputa eleitoral ou à controvérsia política nacional.
A Arquidiocese informou que não pretende entrar na discussão político-ideológica relacionada ao tema e disse seguir o posicionamento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A manifestação divulgada pela instituição afirma:
“A Arquidiocese de Cuiabá manifesta seu profundo repúdio ao ato de vandalização da imagem de Nossa Senhora Aparecida, localizada junto à Cruz do Chilão, no bairro Santa Helena, em Cuiabá.
A Cruz do Chilão é um importante marco da religiosidade popular cuiabana e carrega uma história que atravessa gerações, reunindo elementos da tradição católica e da cultura dos povos de matriz africana.
A liberdade de consciência e de crença e o livre exercício dos cultos religiosos são direitos assegurados pela Constituição Federal. Atos de intolerância, discriminação e violência motivados por religião podem configurar crimes e devem ser devidamente apurados pelas autoridades competentes.
Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, é, para nós, católicos, Mãe protetora e intercessora. Durante o mês de outubro, nossas paróquias e comunidades se unem em diversas celebrações e atividades para honrar aquela que é um dos maiores símbolos da fé católica no Brasil.
Sua imagem merece respeito, assim como devem ser respeitados os símbolos, espaços sagrados e manifestações de fé de todas as tradições religiosas.
Neste período de Sede Vacante, momento de transição vivido pela Arquidiocese de Cuiabá, reforçamos ainda mais nosso compromisso com o diálogo, o respeito, a responsabilidade na comunicação e a busca pela verdade.
Agradecemos todas as mensagens recebidas em solidariedade e cobramos, das autoridades competentes, que os responsáveis sejam identificados e que a justiça seja feita.
Não à intolerância religiosa! Sim ao diálogo, à fraternidade e ao amor!”
A história da devoção a Nossa Senhora Aparecida remonta a 1717. Segundo a tradição católica, os pescadores Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso estavam no Rio Paraíba do Sul quando encontraram nas redes, primeiro, o corpo de uma pequena imagem de Nossa Senhora e, depois, sua cabeça.
Depois do encontro da imagem, os pescadores teriam conseguido uma pesca abundante, episódio interpretado pelos fiéis como milagre. A devoção se espalhou pela região e, posteriormente, por diferentes partes do país.
A pequena imagem recebeu o nome de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em referência ao fato de ter sido encontrada nas águas.
Em 1930, o papa Pio XI declarou Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil. No ano seguinte, em 31 de maio de 1931, uma grande celebração realizada no Rio de Janeiro marcou a proclamação pública da santa como Rainha e Padroeira do país.
Décadas depois, a Lei Federal nº 6.802, de 30 de junho de 1980, declarou 12 de outubro feriado nacional para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida.
Também em 1980, durante sua primeira visita ao Brasil, o papa João Paulo II consagrou a Basílica de Aparecida.
Localizado em Aparecida, no interior de São Paulo, o Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida tornou-se o principal centro brasileiro de devoção à Padroeira.
A Basílica Nova começou a ser construída na década de 1950 para comportar o crescente número de peregrinos. Em 1983, a CNBB declarou oficialmente o templo como Santuário Nacional.
Todos os anos, especialmente no período próximo a 12 de outubro, peregrinos de diferentes regiões do país seguem para Aparecida em celebrações dedicadas à santa.
Em Cuiabá, enquanto a Arquidiocese se prepara para as celebrações de outubro, o episódio na Cruz do Chilão permanece sem autoria publicamente identificada. A instituição espera agora que as circunstâncias da destruição sejam esclarecidas e que os responsáveis sejam identificados pelas autoridades.
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