Saúde / Comportamento
Restrição às bets pode ajudar dependentes em MS, mas não substitui tratamento
Especialista aponta que reduzir o acesso às bets pode favorecer mudanças; levantamento de 11 casos em MS identificou perdas de cerca de R$ 1,7 milhão.
28/09/2026
09:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A restrição ao acesso às plataformas de apostas on-line pode contribuir para mudanças na rotina de pessoas com dependência do jogo em Mato Grosso do Sul, mas precisa ser acompanhada de tratamento. A avaliação é do psicólogo clínico Alexandre Zanirato Contini da Silva Vitoriano, especialista em Análise do Comportamento, ouvido pelo Correio do Estado após a medida provisória que proibiu as bets no país.
O impacto financeiro aparece em um levantamento do jornal sobre 11 processos envolvendo apostadores sul-mato-grossenses. Juntos, os casos registraram mais de R$ 22,7 milhões movimentados nas plataformas e aproximadamente R$ 1,7 milhão em perdas.
Os valores representam indicadores diferentes: a movimentação inclui dinheiro utilizado repetidamente em apostas, enquanto o prejuízo corresponde à perda efetiva identificada nos casos analisados. Entre os recursos comprometidos estavam economias familiares, dinheiro destinado à subsistência e valores obtidos por empréstimos.
Menos acesso pode abrir espaço para outras atividades
Para Alexandre Vitoriano, a proibição funciona como uma medida de controle do acesso, mas não resolve, isoladamente, um comportamento já incorporado à rotina.
“A proibição em si atua mais como ferramenta de controle do que como tratamento. Porém, reduzindo o acesso a contextos onde os comportamentos de apostar sejam possíveis, cria-se mais oportunidades para outros comportamentos ocorrerem e serem mantidos com o passar do tempo”, afirmou.
O psicólogo também considera necessário acompanhar possíveis tentativas de acesso por outros meios. Ele não trata a migração para plataformas clandestinas como um resultado inevitável, mas ressalta que mudanças podem encontrar resistência.
“É esperado que ocorra o fenômeno da resistência comportamental, algo natural em qualquer tentativa de mudança. Podemos observar a busca por outras formas de acesso, mas também por formas diferentes de entrar em contato com aquela mesma consequência gerada a partir dos comportamentos de apostar”, explicou.
Repetição de apostas amplia a movimentação
Os processos analisados pelo Correio do Estado ajudam a mostrar como ganhos temporários podem alimentar novas apostas. Em vez de retirar o dinheiro, o jogador volta a utilizá-lo na plataforma, fazendo com que uma mesma quantia seja movimentada várias vezes.
Essa dinâmica explica por que o volume registrado nos sistemas pode ser muito superior ao dinheiro efetivamente perdido. Nos casos de dependência, a repetição pode continuar mesmo diante de dívidas e prejuízos à vida familiar e profissional.
O levantamento reúne 11 casos específicos e não corresponde a uma estimativa do total de perdas dos apostadores de Mato Grosso do Sul.
MS tem 304 inscritos em atendimento virtual
Segundo dados do Ministério da Saúde apresentados na reportagem, 27.701 pessoas se cadastraram no serviço de atendimento on-line para problemas relacionados a jogos e apostas. Desse total, 304 estão em Mato Grosso do Sul.
O atendimento virtual foi lançado em março, pelo Meu SUS Digital, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. Em agosto, a capacidade anunciada passou de 600 atendimentos mensais para até 100 mil teleconsultas.
Além do serviço remoto, a rede pública oferece acolhimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e acompanhamento especializado nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), conforme a necessidade de cada paciente.
Campo Grande reúne cerca de 32,5 mil apostadores, aponta levantamento
Outro levantamento, atribuído ao Ministério da Fazenda, indica que 3,35% da população de Campo Grande, aproximadamente 32,5 mil pessoas, está envolvida em apostas on-line.
Apesar desse contingente, a Capital aparece entre as cidades com menor percentual de apostadores no levantamento citado. No Rio de Janeiro, que lidera a comparação apresentada, o índice chega a 26,89%, equivalente a pouco mais de um quarto da população.
O número de pessoas que apostam, entretanto, não equivale ao total de pessoas com transtorno do jogo. O diagnóstico depende de avaliação profissional sobre perda de controle e consequências do comportamento.
Medida prevê encerramento das plataformas e devolução de saldos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a medida provisória na sexta-feira, 25 de setembro, durante o evento Apresentação de Novas Medidas de Proteção às Famílias e à Economia Popular, em São Paulo.
A medida proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, os usuários terão até as 23h59 de 5 de outubro para acessar as plataformas e retirar os saldos disponíveis. O bloqueio dos sites e aplicativos está previsto para 6 de outubro.
Conforme o cronograma apresentado pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, a devolução dos valores seguirá as seguintes etapas:
Novos depósitos nas contas das plataformas ficam impedidos a partir da publicação da medida.
O governo também anunciou a intenção de encaminhar ao Congresso Nacional uma proposta para criminalizar a exploração ou operação de apostas de quota fixa, com previsão de quatro a seis anos de reclusão e multa. A previsão integra uma proposta legislativa e não deve ser confundida com uma pena já em aplicação.
Dependência exige acompanhamento
A ludopatia, também chamada de transtorno do jogo, envolve dificuldade persistente de controlar as apostas, que passam a ocupar espaço crescente na vida da pessoa e continuam apesar dos prejuízos. O problema pode comprometer relações familiares, trabalho e condições financeiras.
Dificuldade para reduzir ou interromper o jogo, abandono de compromissos e insistência em apostar após perdas são sinais que justificam a busca por avaliação. O cuidado pode começar em uma UBS, com encaminhamento para acompanhamento especializado quando necessário.
Para os pacientes e suas famílias, a redução do acesso às plataformas é apenas uma parte do processo. O acompanhamento profissional continua necessário para lidar com os impulsos, reorganizar a rotina e enfrentar as consequências das apostas.
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