Campo Grande (MS), Segunda-feira, 28 de Setembro de 2026

Saúde / Sociedade

Bets deixam perdas de R$ 62,5 bilhões e histórias de dependência entre brasileiros

Prejuízo estimado para 2025 acompanha relatos de endividamento e rupturas familiares; especialistas alertam para os riscos das bets e a necessidade de tratamento.

28/09/2026

08:00

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

As consequências das apostas on-line ultrapassaram o orçamento de famílias brasileiras e chegaram aos serviços de saúde mental, com relatos de dependência, perda de patrimônio, afastamento familiar e sofrimento psicológico. Um levantamento divulgado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) estima que as famílias perderam R$ 62,5 bilhões em 2025, considerada a diferença entre os valores destinados às plataformas e os recursos devolvidos aos apostadores.

Por trás dos números estão situações como a de Kaio, de 42 anos, que relatou à Agência Brasil ter perdido o carro, a casa e o emprego em meio às dívidas de jogo. Atualmente, ele vive sozinho em um dormitório no interior de Goiás, onde dorme no chão. O afastamento da família, segundo seu relato, ocorreu por medo relacionado a dívidas contraídas com agiotas.

Após seis anos de problemas com as apostas, Kaio procurou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Neste ano, passou a frequentar grupos terapêuticos e consultas médicas, além de fazer uso diário de medicamentos.

Perdas comprometem a renda familiar

O levantamento divulgado no Boletim Fiscal dos Estados, do Comsefaz, aponta perdas equivalentes a 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. A estimativa considera transferências realizadas por Pix e indica movimentação próxima de R$ 351 bilhões em 2025.

Em um intervalo mais amplo, entre outubro de 2024 e março de 2026, a perda líquida média foi estimada em R$ 4,7 bilhões por mês. Esse indicador corresponde a um período diferente do total anual de R$ 62,5 bilhões.

Publicidade alimentou expectativa de renda

A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta que pessoas em situação de vulnerabilidade ficaram especialmente expostas à publicidade que apresentava as apostas como uma possibilidade de complementar a renda.

Segundo a especialista, a expectativa de retorno rápido contribuiu para aproximar esse público das plataformas, sem uma compreensão adequada dos riscos.

“São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter isso com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso”, afirmou.

O advogado Júlio Leone, em entrevista à Agência Brasil em agosto, criticou a atuação de empresas diante de usuários com comportamento compulsivo. Segundo ele, em vez de interromper o acesso, plataformas continuavam enviando estímulos para novas apostas.

Kaio relatou uma experiência semelhante. “O celular não parava de trazer mensagens”, disse.

Pesquisa identifica apostas entre adolescentes

A exposição também alcançou estudantes. Uma pesquisa realizada pela Equidade.info, a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação, ouviu 1.912 alunos de 191 escolas de diferentes regiões do país.

Entre estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio, 20,4% disseram já ter feito apostas on-line. O levantamento também identificou a prática entre os mais novos: 9,5% dos entrevistados de 11 anos relataram já ter apostado.

A psicóloga Mariana Kehl, integrante da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que adolescentes são mais vulneráveis a esses estímulos porque ainda estão em desenvolvimento as capacidades de controlar impulsos e avaliar riscos.

“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, afirmou.

Sofrimento emocional exige atenção

Nos atendimentos, profissionais identificaram sinais como desesperança, isolamento, ansiedade, aumento do consumo de álcool e mudanças importantes de comportamento. Falas sobre morte ou sobre não querer continuar vivendo precisam ser acolhidas e acompanhadas de procura por ajuda.

Para Katia Branco, abordar o assunto de maneira aberta durante consultas e grupos terapêuticos é parte do cuidado.

“A ideação suicida deve ser tratada de forma mais aberta tanto no consultório quanto nos grupos terapêuticos. Com manejo adequado, podemos reduzir o risco e tentar ajudar os pacientes”, explicou.

A psicóloga Claudia Feres, que atua em um Caps no Distrito Federal, também destacou a importância do acompanhamento profissional de pessoas dependentes e de suas famílias, especialmente quando o sofrimento se intensifica.

Apoio de familiares ajuda na busca por tratamento

O neurocirurgião Orlando Maia observa que a aposta pode se incorporar à rotina como uma busca constante por recompensa. Nesse processo, a pessoa nem sempre reconhece sozinha que perdeu o controle.

“Precisam de pessoas da família ou de amigos que possam ajudar”, afirmou.

A facilidade de acesso pelo celular aparece como uma preocupação recorrente. Luiz Carlos, de 71 anos, integrante do Jogadores Anônimos, comparou as plataformas a “um cassino dentro do seu bolso”, em entrevista à Rádio Nacional.

Ele relatou que, no passado, precisava sair de casa para jogar. Com as plataformas digitais, essa barreira deixou de existir, permitindo acesso às apostas a qualquer hora.

Proibição e ampliação do atendimento

Segundo a reportagem da Agência Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, na sexta-feira, 25 de setembro, a Medida Provisória 1.394, que proibiu as operações das bets no país. Kaio definiu a notícia como “um grande alívio”.

A medida alterou o cenário iniciado com a autorização das apostas de quota fixa pela Lei 13.756, de dezembro de 2018, no governo de Michel Temer. A regulamentação avançou em dezembro de 2023, após anos de funcionamento das plataformas sem o conjunto de regras posteriormente estabelecido.

Com o anúncio da proibição, o Ministério da Saúde informou que pretende ampliar a busca ativa por apostadores que necessitem de acompanhamento. Conforme declaração do ministro Alexandre Padilha relatada pela Agência Brasil, a iniciativa utilizará dados compartilhados por órgãos federais.

Em agosto, o ministério já havia anunciado a oferta de até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas, com acesso pelo Meu SUS Digital. 

Onde procurar ajuda

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece acolhimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e atendimento especializado nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). A dificuldade de controlar as apostas, mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares e profissionais, é um sinal para procurar avaliação.

Em situações de risco imediato, a orientação é buscar uma UPA, pronto-socorro ou acionar o Samu pelo 192. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo 188. 

Com informações da Agência Brasil.


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