Saúde / Alerta
Entenda o que é hipoglicemia, condição investigada após morte de Gabriel Ganley
Falta de glicose no sangue pode afetar o cérebro, causar perda de consciência, convulsões, coma e até morte em casos graves
24/05/2026
13:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
A morte do influenciador fitness e fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, repercutiu no meio esportivo e nas redes sociais neste fim de semana. O jovem foi encontrado morto dentro de casa, em São Paulo, no sábado, 23 de maio, e a causa oficial ainda não foi divulgada pela família. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) trata o caso como morte súbita.
Uma das hipóteses levantadas publicamente é a ocorrência de uma crise de hipoglicemia, quadro caracterizado pela queda dos níveis de glicose no sangue. A glicose é a principal fonte de energia do organismo e tem papel essencial no funcionamento do cérebro.
De acordo com especialistas, a hipoglicemia clínica ocorre quando a glicose fica abaixo de 70 mg/dL. O quadro passa a ser considerado mais perigoso quando os níveis caem para menos de 54 mg/dL. Em casos leves, pode provocar mal-estar, tontura, suor e fraqueza. Já em situações graves, há risco de perda de consciência, convulsões, coma e morte.
Segundo o endocrinologista Bruno Geloneze, pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o cérebro depende quase exclusivamente da glicose para funcionar. Quando a queda não é corrigida rapidamente, pode ocorrer um colapso por falta de energia.
“Existe um termo para isso: neuroglicopenia. ‘Neuro’, de neurônio; ‘glicopenia’, falta de glicose. Isso pode levar rapidamente à perda de consciência, convulsão, coma e até à morte”, explicou.
No caso de Gabriel Ganley, a suspeita de hipoglicemia passou a ser relacionada ao possível uso de hormônios e substâncias voltadas ao ganho de massa muscular. Segundo relatos do próprio influenciador, ele teria começado a usar essas substâncias em junho de 2025, com o objetivo de competir na categoria Open, considerada a mais tradicional do fisiculturismo.
A insulina é um hormônio com efeito anabólico e anticatabólico. Isso significa que ela ajuda a transportar nutrientes para dentro das células, especialmente musculares, e reduz a quebra de proteínas.
Conforme Bruno Geloneze, o uso ilícito de insulina ocorre em parte do chamado fisiculturismo moderno, muitas vezes combinado com esteroides anabolizantes e hormônio do crescimento.
Uma crise de hipoglicemia pode ocorrer quando há erro no cálculo entre a dose de insulina e a quantidade de carboidrato ingerida, ou quando não há monitoramento adequado da glicose no sangue.
O especialista ressalta que episódios graves de hipoglicemia são raros em pessoas não diabéticas que não usam insulina.
“Isso não acontece simplesmente porque alguém treinou demais ou fez uma dieta restritiva”, afirmou.
Em pessoas saudáveis, exercícios intensos associados à alimentação inadequada podem causar hipoglicemia leve. Nesses casos, os sintomas costumam incluir tontura, suor, fraqueza, mal-estar e necessidade urgente de comer.
A diferença é que, em quadros leves, a pessoa geralmente permanece acordada e consegue se alimentar para restaurar os níveis de glicose.
Já em uma crise grave, os sinais podem incluir confusão mental, perda de coordenação motora, convulsões e evolução para coma. Sem reversão rápida, o quadro pode levar a uma parada cardíaca fatal.
“É justamente isso que torna qualquer tentativa de resgate extremamente difícil”, disse Geloneze.
O uso irregular de insulina por pessoas não diabéticas também pode aumentar o risco de arritmias cardíacas. Quando feito por tempo prolongado, pode favorecer resistência à insulina e elevar o risco futuro de diabetes.
O pesquisador da Unicamp também alertou para a disseminação de orientações sem base científica em redes sociais, fóruns e grupos ligados à cultura fitness.
Segundo ele, há conteúdos que apresentam supostos protocolos de uso de insulina, tabelas de equivalência, orientações sobre carboidratos e técnicas de aplicação sem acompanhamento médico.
“Isso é um completo absurdo da chamada ‘bro science’, a ‘ciência de brother para brother’”, afirmou.
Para o endocrinologista, a margem entre o uso considerado seguro e uma prática perigosa pode ser extremamente estreita, especialmente quando envolve insulina.
Gabriel Ganley era natural do Rio de Janeiro, estudante de Educação Física da UFRJ e um dos principais nomes da nova geração do conteúdo fitness no Brasil. Ele acumulava mais de 1,6 milhão de seguidores nas redes sociais, onde publicava vídeos sobre musculação, rotina de treinos e fisiculturismo.
O atleta ganhou grande repercussão ao compartilhar um vídeo em que aparecia levantando cerca de meia tonelada no leg press. No meio fitness, era tratado como uma das promessas do fisiculturismo brasileiro.
Ganley também era amigo de infância da atriz Mel Maia, que lamentou a morte nas redes sociais.
“Hoje eu perdi um amigo que eu posso chamar de irmão. Ele foi uma das poucas pessoas que segurou a minha mão na época da escola. Quando nem todo mundo queria estar por perto, ele ficou. Foi meu amigo de verdade, até o final”, escreveu a atriz.
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