Campo Grande (MS), Quarta-feira, 01 de Julho de 2026

Polícia / Imprensa

PF aponta ação de Vorcaro para intimidar Malu Gaspar após reportagens sobre Banco Master

Diálogos obtidos pela investigação mostram tentativa de levantar dados pessoais da jornalista e discutir formas de conter publicações

01/07/2026

19:30

DA REDAÇÃO

©REPRODUÇÃO

Diálogos obtidos pela Polícia Federal (PF) indicam que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o publicitário Thiago Miranda, proprietário da agência Mithi, atuaram para tentar constranger e intimidar a jornalista Malu Gaspar, colunista de O Globo. As conversas mostram irritação com reportagens sobre investigações envolvendo a instituição financeira e revelam a busca por informações pessoais da profissional.

As mensagens foram extraídas do celular de Vorcaro e são de março e abril de 2025, período em que o Banco Master já enfrentava uma crise financeira que culminaria, em novembro do mesmo ano, na decretação de sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central (BC).

Segundo a apuração, a insatisfação começou após publicações de Malu Gaspar sobre suspeitas de operações fraudulentas e manipulação de preços envolvendo o banco. Em uma das conversas, Vorcaro afirmou que precisava “frear” a jornalista e sugeriu buscar alguma informação pessoal contra ela. Thiago Miranda respondeu que iria “revirar a vida” da colunista.

Leia o diálogo obtido pela investigação:

Vorcaro: Acho que você deve entrar, né.
Vorcaro: Vamos ter que tentar pegar algo dessa mulher no pessoal.
Miranda: Exatamente. Ela joga baixo. Vou revirar a vida dela.
Miranda: Alguma coisa vamos achar.
Vorcaro: Obrigado, amigo.

Na manhã de 1º de abril de 2025, Miranda voltou a escrever ao ex-banqueiro informando que sua equipe procurava dados sobre a jornalista. No mesmo diálogo, ele relatou dificuldade para encontrar algo que pudesse ser usado contra ela.

Miranda: Meu time está atrás. Precisamos achar algo.
Miranda: Nem multa na CNH dela encontrei. Filhos novos ainda também. Te deixo ciente, vou achar algo.

No dia seguinte, Miranda enviou a Vorcaro uma nova reportagem de Malu Gaspar. No texto, a colunista informava que as demonstrações financeiras do Banco Master em 2024 indicavam que a instituição não tinha disponibilidade de caixa para honrar todos os compromissos assumidos até o fim de 2025. Na época, o banco estava em negociação com o Banco de Brasília (BRB), operação posteriormente reprovada pelo Banco Central.

Depois da publicação, o publicitário voltou a reclamar da atuação da jornalista e enviou ao ex-banqueiro informações sobre contas bancárias e suposta remuneração mensal da colunista.

Miranda: Ela não para.
Miranda: Realmente, meu amigo, não tem absolutamente nada.
Miranda: Preciso arrumar uma forma de calar essa mulher.

Em outro momento, Vorcaro mencionou a possibilidade de fazer uma “proposta milionária” a Malu Gaspar. Thiago Miranda sugeriu que o ex-banqueiro tentasse contratá-la pela revista IstoÉ, ligada ao grupo Entre, que também controla a Entre Investimentos, empresa usada por Vorcaro para investir no filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro.

Vorcaro respondeu que quem deveria tentar a contratação era o próprio Miranda. Na época, o publicitário era CEO do Grupo LeoDias, empresa da qual chegou a ser sócio. Segundo nota publicada pelo veículo em janeiro deste ano, Miranda deixou o cargo em junho de 2025.

As mensagens também citam o colunista Lauro Jardim, de O Globo, que havia publicado reportagens sobre o caso. Miranda chegou a fazer uma proposta de contratação ao jornalista, mas depois os dois passaram a discutir outros caminhos.

Leia o diálogo:

Vorcaro: Malu e Lauro vieram com mais fúria após a abordagem.
Vorcaro: Lauro soltou 5 matérias em 3 dias.
Vorcaro: Não sei como ficaram as tratativas, mas acho melhor abortar.
Miranda: Eles me pediram tempo para organizar a vida.
Miranda: Eu vou por outro caminho. Vou descobrir algo. Eles não são santos.

Para a Polícia Federal, o conteúdo das mensagens reforça o modo de atuação do grupo ligado a Daniel Vorcaro contra profissionais da imprensa. Na decisão que mandou prender o ex-banqueiro pela segunda vez, em março deste ano, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou haver indícios de que Vorcaro teria determinado a simulação de um assalto ou situação semelhante para “prejudicar violentamente” o colunista Lauro Jardim.

Segundo a decisão, o objetivo seria “calar a voz da imprensa” que publicasse informações contrárias aos interesses privados do grupo. As conversas sobre Lauro Jardim envolveriam Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado pela PF como Felipe Mourão e apelidado de “Sicário”.

Mourão é apontado pelos investigadores como responsável por coordenar atividades do grupo chamado “A Turma”, descrito pela polícia como um braço armado usado para intimidar adversários de Vorcaro, inclusive por meio de coação.

Após a divulgação das mensagens, O Globo publicou nota repudiando a devassa contra Malu Gaspar. O jornal afirmou que a tentativa de vasculhar a vida da colunista tinha como objetivo calar a imprensa e revelava um padrão de atuação já identificado em ameaças contra outro jornalista do veículo.

“O GLOBO repudia a devassa ordenada pelo investigado na vida da colunista Malu Gaspar, uma das mais respeitadas jornalistas do país. A ação, como deixa claro a troca de mensagens, visava calar a voz da imprensa e revela um modus operandi do grupo criminoso, que já havia ameaçado de ato violento outro colunista do jornal. Os envolvidos nessa trama de perseguição devem ser investigados com rigor. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público”, informou o jornal.

A defesa de Thiago Miranda afirmou que não teve acesso às mensagens e aos arquivos citados e, por isso, não poderia se manifestar sobre o conteúdo. Também repudiou o que classificou como “vazamento seletivo” da investigação.

O caso amplia a dimensão das apurações envolvendo Daniel Vorcaro e pessoas próximas ao ex-banqueiro. Além das suspeitas financeiras ligadas ao Banco Master, a investigação agora expõe possíveis ações de intimidação contra jornalistas responsáveis por revelar informações de interesse público.


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