Artigo / Opinião
O papel da imprensa em uma sociedade que aprende
Ao informar, fiscalizar e compartilhar experiências transformadoras, o jornalismo fortalece a democracia e aproxima a sociedade da educação e do conhecimento
24/07/2026
13:30
Janguiê Diniz*
Janguiê Diniz*
Há instituições fundamentais para o funcionamento de uma sociedade, e a imprensa é uma delas. Mais do que registrar acontecimentos, o jornalismo qualificado informa, investiga, contextualiza e amplia o debate público sobre os temas que definem o presente e o futuro de um país.
Em um cenário marcado pela velocidade da circulação de informações, pela disseminação da desinformação e pela complexidade dos desafios contemporâneos, sua missão torna-se ainda mais relevante: oferecer à sociedade fatos rigorosamente apurados, diferentes perspectivas e elementos que permitam a formação de uma opinião livre e consciente.
Essa contribuição também é indispensável para o fortalecimento da democracia. Ao acompanhar a atuação dos Poderes, investigar irregularidades, fiscalizar a aplicação de recursos públicos, cobrar transparência e dar visibilidade a temas de interesse coletivo, a imprensa exerce a função conhecida como watchdog.
Trata-se de um papel que ultrapassa a simples divulgação de notícias. É uma atividade essencial para fortalecer as instituições democráticas e assegurar aos cidadãos condições para exercer plenamente a cidadania.
Em outra frente, o bom jornalismo também identifica soluções, apresenta experiências inovadoras e dá visibilidade a iniciativas que produzem resultados concretos para a sociedade. Ao transformar boas práticas em conhecimento compartilhado, contribui para que ideias bem-sucedidas deixem de ser experiências isoladas e passem a inspirar novas políticas públicas, projetos institucionais e ações da sociedade civil.
Em um país com dimensões continentais e profundas desigualdades como o Brasil, essa capacidade de conectar diferentes realidades talvez seja uma das maiores contribuições da imprensa para o desenvolvimento nacional.
Uma experiência bem-sucedida implantada em uma universidade do Nordeste, uma pesquisa desenvolvida no Sul ou um projeto social realizado no interior do Centro-Oeste podem inspirar soluções em outros locais quando encontram no jornalismo um canal capaz de ampliar seu alcance.
Na esfera educacional, essa dupla missão torna-se particularmente evidente. Ao mesmo tempo em que acompanha indicadores, analisa políticas públicas, questiona decisões governamentais e expõe desafios históricos, o jornalismo também revela pesquisas científicas, projetos de extensão, iniciativas inovadoras de ensino, experiências de inclusão e histórias que demonstram o impacto transformador da educação na vida das pessoas.
No caso da educação superior, essa contribuição assume dimensão estratégica. É nesse ambiente que são formados profissionais qualificados, desenvolvidas pesquisas que impulsionam a inovação e produzidos conhecimentos capazes de contribuir para o enfrentamento de desafios sociais, ambientais, tecnológicos e econômicos.
Ainda assim, muitos desses temas permanecem distantes do cotidiano da população. O jornalismo é essencial para reduzir essa distância e ampliar a compreensão da sociedade sobre o papel da educação superior como vetor de desenvolvimento, competitividade, inovação e redução das desigualdades.
Foi justamente a partir desse entendimento que, em 2017, durante minha primeira gestão como presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), criei o Prêmio ABMES de Jornalismo.
Hoje em sua nona edição, a iniciativa nasceu com o objetivo de reconhecer e valorizar profissionais que contribuem para qualificar o debate público sobre a educação superior, estimulando uma cobertura jornalística pautada pelo rigor da apuração, pela profundidade das análises e pelo compromisso com o interesse público.
Ao longo de quase uma década, a premiação consolidou-se como referência para os profissionais da imprensa, acompanhando o amadurecimento da produção jornalística sobre o tema. Essa evolução é perceptível não apenas no crescimento da participação, mas, principalmente, na qualidade dos trabalhos apresentados.
A edição de 2026 registrou o recorde de 322 inscrições. Segundo a comissão julgadora, formada pelos integrantes da Academia Brasileira de Letras Arnaldo Niskier, Antonio Secchin e Merval Pereira, a definição dos vencedores foi desafiadora diante do elevado nível das reportagens finalistas.
A avaliação considerou critérios como relevância, qualidade narrativa, consistência editorial e rigor na apuração.
Também merece destaque a diversidade dos temas contemplados pelas produções vencedoras. As reportagens premiadas abordaram questões centrais para compreender as transformações do ensino superior brasileiro, como a regulamentação da educação a distância, os impactos da inteligência artificial e das novas tecnologias nas universidades, a presença crescente de pessoas com mais de 60 anos nas salas de aula e a influência da graduação na melhoria da renda das famílias.
Embora tratem de assuntos distintos, todas compartilham uma característica: demonstram como a educação superior dialoga com os grandes desafios contemporâneos.
Mais do que reconhecer boas reportagens, o Prêmio ABMES de Jornalismo reafirma uma convicção que se fortalece a cada edição: uma educação superior forte depende de um debate público igualmente qualificado. Esse debate somente é possível quando existe uma imprensa livre, ética, plural e comprometida com a produção de informação confiável.
Valorizar jornalistas que se dedicam à cobertura educacional significa incentivar uma sociedade mais bem informada, fortalecer a circulação de boas ideias e ampliar a visibilidade de iniciativas capazes de inspirar transformações em diferentes partes do país.
Em última análise, reconhecer o jornalismo comprometido com a educação superior é reconhecer que democracia, conhecimento e informação de qualidade caminham lado a lado.
Afinal, sociedades que valorizam a liberdade de imprensa e a educação constroem instituições mais sólidas, cidadãos mais conscientes e um futuro muito mais promissor.
Janguiê Diniz
Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES); secretário-executivo do Brasil Educação, Fórum Brasileiro da Educação Particular; fundador, controlador e presidente do Conselho de Administração do Grupo Ser Educacional; presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group.
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