Política / Economia
Governo Lula teme nova tarifa dos EUA contra produtos brasileiros após investigação sobre trabalho forçado
USTR apura medidas adotadas por 60 países para barrar produtos fabricados com mão de obra forçada; Brasil teme sobretaxa adicional de 10% a 15%
02/06/2026
20:45
DA REDAÇÃO
©DIVULGAÇÃO
Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aguardam para os próximos dias a conclusão de uma nova investigação comercial dos Estados Unidos que tem o Brasil entre os países analisados. A apuração trata de supostas falhas de governos estrangeiros para impedir a entrada, em seus mercados, de produtos fabricados com trabalho forçado.
Nos bastidores, a preocupação do governo brasileiro é que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) recomende sanções adicionais contra o Brasil. Entre as medidas possíveis está a aplicação de uma nova tarifa sobre produtos brasileiros, que poderia variar de 10% a 15%, segundo integrantes da gestão Lula.
A investigação foi aberta em março pelo USTR e envolve, além do Brasil, outros 59 países. O órgão norte-americano avalia se governos estrangeiros adotam mecanismos suficientes para barrar a importação de mercadorias produzidas com mão de obra forçada e se eventuais omissões prejudicam empresas e produtos dos Estados Unidos.
Ao anunciar a investigação, o chefe do USTR, embaixador Jamieson Greer, afirmou que alguns governos têm falhado em adotar e aplicar, de forma eficaz, medidas para impedir a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado em seus mercados.
Segundo ele, empresas norte-americanas estariam sendo obrigadas a competir com produtores estrangeiros que, supostamente, se beneficiam de uma vantagem artificial de custos obtida por meio da exploração de trabalhadores.
A apuração busca determinar se os países investigados adotaram medidas suficientes para proibir a importação de produtos fabricados com trabalho forçado e se falhas nesse controle causaram prejuízos ao comércio dos Estados Unidos.
A nova investigação tem como base um dispositivo da legislação comercial norte-americana usado para fundamentar outra apuração recente contra o Brasil. Esse mesmo mecanismo embasou o relatório que recomendou a aplicação de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros por supostas práticas comerciais consideradas “irrazoáveis” pelos Estados Unidos.
Pelas regras do procedimento, caso o USTR conclua que houve prejuízo ao comércio norte-americano, o governo dos Estados Unidos poderá adotar medidas como tarifas adicionais, restrições à importação ou outras formas de pressão comercial contra o país investigado.
A possibilidade de uma segunda frente de sanções preocupa o governo brasileiro porque poderia ampliar a tensão comercial entre Brasília e Washington, em um momento em que o Palácio do Planalto já tenta evitar a efetivação da tarifa de 25% recomendada em outro relatório do USTR.
O governo brasileiro apresentou sua resposta à investigação em abril. Na manifestação, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, argumentou que eventuais sanções seriam desproporcionais e destacou que o Brasil possui compromissos internacionais, legislação específica e mecanismos de fiscalização voltados ao combate do trabalho análogo à escravidão.
“O Brasil implementou um amplo arcabouço jurídico, administrativo e de políticas públicas para combater o trabalho forçado e a comercialização de produtos fabricados com trabalho forçado”, afirmou o chanceler.
Segundo Mauro Vieira, as normas internas brasileiras e as medidas de fiscalização são complementadas por acordos internacionais destinados a erradicar o trabalho forçado entre parceiros comerciais e impedir que produtos fabricados nessas condições ingressem no mercado brasileiro.
O chanceler também pediu que o USTR reconsiderasse a abertura da investigação e optasse por um diálogo construtivo com o governo brasileiro.
“Medidas unilaterais sob a Seção 301 correm o risco de comprometer os objetivos identificados pelo USTR e podem ter consequências adversas para as relações bilaterais”, escreveu Vieira.
A eventual recomendação de uma tarifa adicional de 10% a 15% seria mais um ponto de atrito entre os governos de Lula e Donald Trump. Nos últimos dias, o Brasil já reagiu a outro relatório do USTR que propôs tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, citando temas como Pix, propriedade intelectual, etanol, desmatamento ilegal e práticas comerciais consideradas desfavoráveis aos Estados Unidos.
Agora, a investigação sobre trabalho forçado acrescenta uma nova camada de pressão sobre a relação bilateral. O governo brasileiro sustenta que o país possui instrumentos reconhecidos de combate ao trabalho análogo à escravidão, com atuação de órgãos de fiscalização, políticas públicas e cooperação internacional.
A avaliação no governo é que, caso os Estados Unidos avancem com uma nova sobretaxa, o Brasil deverá reforçar a estratégia de diálogo diplomático e apresentar argumentos técnicos para tentar evitar a aplicação de sanções.
A expectativa em Brasília é que o USTR divulgue nos próximos dias a conclusão da investigação envolvendo os 60 países. Até lá, integrantes do governo acompanham o caso com cautela, especialmente pela possibilidade de que o relatório recomende medidas comerciais contra produtos brasileiros.
Se a investigação resultar em nova proposta de tarifa, o Brasil poderá enfrentar duas frentes simultâneas de pressão comercial por parte dos Estados Unidos: uma relacionada às supostas práticas comerciais consideradas desleais e outra ligada à entrada de produtos fabricados com trabalho forçado.
Para o governo Lula, a prioridade será tentar impedir que as recomendações sejam convertidas em sanções efetivas e preservar o fluxo comercial entre os dois países.
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