Trabalho / Infância
Campanha usa símbolo do futebol para combater trabalho infantil no Brasil
Ação “Cartão Vermelho ao Trabalho Infantil” mobiliza instituições e sociedade em defesa de crianças e adolescentes
01/06/2026
15:00
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO/IA
Em ano de Copa do Mundo, instituições públicas, organismos internacionais e entidades da sociedade civil lançaram a campanha “Cartão Vermelho ao Trabalho Infantil”, iniciativa voltada à conscientização e ao enfrentamento do trabalho infantil no Brasil.
A mobilização marca o Dia Mundial e Nacional de Combate ao Trabalho Infantil, celebrado em 12 de junho, e convoca a sociedade a “entrar em campo” contra uma prática que compromete direitos, reduz oportunidades e afeta o presente e o futuro de crianças e adolescentes.
Dados mais recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que o Brasil tinha 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil em 2024. Desse total, 560 mil estavam em atividades classificadas entre as piores formas de trabalho infantil.
A campanha já está disponível para adesão e download por entidades públicas e privadas, organizações da sociedade civil e cidadãos interessados em apoiar a causa.
A iniciativa é uma correalização do Governo Federal, por meio do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), da Justiça do Trabalho, da OIT (Organização Internacional do Trabalho), do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil e Proteção a Adolescentes no Trabalho (FNPETI).
A coordenadora nacional de Combate ao Trabalho Infantil e de Promoção e Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes, a Coordinfância, do Ministério Público do Trabalho, Fernanda Brito Pereira, alerta que o trabalho infantil ainda é muitas vezes naturalizado e invisibilizado, o que dificulta o enfrentamento.
“A campanha busca possibilitar que crianças e adolescentes se apropriem de seus direitos, compreendam as situações de violação que vivenciam para que possam denunciá-las quando não conseguirem evitá-las. O objetivo é que o esclarecimento contribua para prevenir o trabalho infantil e fortalecer a proteção integral das infâncias e das adolescências”, afirmou.
Para a secretária executiva do FNPETI, Katerina Volcov, o uso da linguagem do futebol ajuda a ampliar o alcance da mensagem em um ano de Copa do Mundo.
“A campanha do cartão vermelho em ano de Copa une a paixão pelo futebol a uma causa, que é o combate ao trabalho infantil. Sabemos que essa violação de direito nas infâncias e nas adolescências precisa ser enfrentada por todas e todos. Somente juntas e juntos poderemos transformar a triste realidade que afeta milhares de crianças”, destacou.
O auditor-fiscal do trabalho e coordenador de Erradicação e Fiscalização do Trabalho Infantil do Ministério do Trabalho e Emprego, Roberto Padilha Guimarães, também reforçou a necessidade de proteção integral.
“Com a campanha ‘Cartão Vermelho ao Trabalho Infantil’, reafirmamos que nenhuma criança ou adolescente pode ter sua infância marcada por situações de exploração e violação de direitos. Mais do que protegidas, crianças e adolescentes devem ter garantidos seus direitos fundamentais à educação, ao lazer, à convivência familiar e comunitária e a um desenvolvimento pleno, digno e seguro”, afirmou.
Mobilização global
Segundo a OIT, 138 milhões de crianças estão em situação de trabalho infantil no mundo. Desse total, 54 milhões são submetidas a trabalhos perigosos.
Para o diretor do Escritório da Organização Internacional do Trabalho para o Brasil, Vinícius Pinheiro, a campanha nacional se conecta a um movimento internacional de proteção à infância.
“Em um ano em que os países estarão unidos pela paixão do futebol durante a Copa do Mundo, a campanha Cartão Vermelho ao Trabalho Infantil no Brasil une-se à campanha global da OIT para alertar que também precisamos nos unir em defesa das crianças”, explicou.
A iniciativa também segue o plano de ação definido na 6ª Conferência Global de Marraquexe, promovida pela OIT em fevereiro de 2026. O documento defende respostas integradas, baseadas nas normas internacionais do trabalho, na educação de qualidade, na proteção social, no trabalho decente para adultos e jovens e no diálogo social.
“Conclamamos governos, empregadores, trabalhadores, empresas e toda a sociedade a transformar indignação em ação concreta. Cada cartão vermelho levantado é um chamado urgente para proteger os direitos das crianças e acelerar o caminho rumo à erradicação do trabalho infantil”, completou Vinícius Pinheiro.
Trabalho infantil compromete a educação
Além de expor crianças e adolescentes a riscos físicos, psicológicos e sociais, o trabalho infantil afeta diretamente o acesso e a permanência na escola.
Segundo o IBGE, entre crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil, 88,8% eram estudantes. Na população total da mesma faixa etária, o percentual era de 97,5%.
A diferença é ainda mais evidente entre adolescentes de 16 e 17 anos. Nessa faixa etária, a frequência escolar cai de 90,5% na população total para 81,8% entre aqueles em situação de trabalho infantil.
Para o coordenador do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e Estímulo à Aprendizagem da Justiça do Trabalho, ministro do TST Alberto Balazeiro, a aprendizagem profissional é uma das estratégias mais eficazes para combater o problema.
A modalidade, prevista em lei, permite o ingresso protegido no mercado de trabalho a partir dos 14 anos, com combinação de educação, capacitação profissional e garantia de direitos.
“A aprendizagem contribui para romper o ciclo de pobreza, de violência e de exclusão associado ao trabalho infantil. Também favorece a formação do ser humano e prepara pessoas qualificadas para o mercado de trabalho”, afirmou.
Riscos à saúde e acidentes graves
O trabalho infantil também expõe crianças e adolescentes a riscos ocupacionais e agravos à saúde. Em 2024, foram registradas 5.629 ocorrências envolvendo esse público.
Em um recorte mais amplo, o Ministério Público do Trabalho aponta que, entre 2007 e 2024, o país registrou mais de 45 mil acidentes de trabalho graves envolvendo crianças e adolescentes de 5 a 17 anos.
As piores formas de trabalho infantil estão previstas na chamada Lista TIP, que reúne atividades com maior potencial de dano, incluindo situações perigosas, degradantes e insalubres, como exploração sexual, trabalho nas ruas e atividades em lixões.
Data nacional e canais de denúncia
O Dia Mundial contra o Trabalho Infantil foi instituído pela Organização Internacional do Trabalho em 2002. No Brasil, o 12 de junho também é reconhecido como Dia Nacional de Combate ao Trabalho Infantil, criado pela Lei nº 11.542/2007.
A data é marcada por campanhas coordenadas pelo FNPETI, em parceria com fóruns estaduais e entidades da rede de proteção.
Situações de trabalho infantil podem ser denunciadas ao Ministério Público do Trabalho, pelo site www.mpt.mp.br ou pelo aplicativo MPT Pardal. Também é possível acionar o Disque 100 ou registrar denúncia no Sistema Ipê, do Ministério do Trabalho e Emprego, pelo endereço ipetrabalhoinfantil.trabalho.gov.br.
A campanha reforça que combater o trabalho infantil exige ação conjunta do poder público, das famílias, das escolas, das empresas e de toda a sociedade.
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