Economia / Trabalho
Maioria dos trabalhadores brasileiros vê baixo risco de perder emprego, aponta Datafolha
Levantamento mostra que 71% dos ocupados não temem ficar sem trabalho, maior índice registrado pelo instituto desde 2013
28/05/2026
08:15
DA REDAÇÃO
©REPRODUÇÃO
Pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira, 27 de maio, mostra que 71% dos trabalhadores brasileiros acreditam não correr risco de demissão ou de ficar sem ocupação. O resultado é o maior registrado pelo instituto desde 2013 e reflete um cenário de maior confiança no mercado de trabalho.
Segundo o levantamento, 9% dos entrevistados avaliam que há alguma possibilidade de perder o emprego, enquanto 19% consideram esse risco elevado. A pesquisa foi realizada nos dias 12 e 13 de maio, em um momento em que a taxa de desemprego no país permanece em patamar historicamente baixo, próxima de 6%.
O estudo ouviu 1.312 pessoas com 16 anos ou mais, em 139 municípios brasileiros. Foram considerados trabalhadores formais e informais, além de autônomos e empresários. Desempregados, aposentados e estudantes não fizeram parte da amostra.
A sensação de segurança é maior entre trabalhadores com 60 anos ou mais. Nesse grupo, 80% afirmam não ter medo de perder o trabalho. Entre servidores públicos, o percentual chega a 84%, refletindo a estabilidade característica desse segmento. Já entre pessoas com renda de até dois salários mínimos, o índice cai para 65%.
De acordo com o Datafolha, o otimismo atual se aproxima dos níveis observados entre 2007 e 2014, período em que o Brasil registrou taxas menores de desemprego. O melhor resultado da série histórica ocorreu em março de 2013, quando 75% dos trabalhadores disseram não temer ficar sem ocupação.
Em outra pergunta do levantamento, 58% dos entrevistados afirmaram que a possibilidade de perder o emprego não provoca medo. Para 21%, esse é o principal temor do momento. Outros 20% disseram que o desemprego está entre as preocupações relevantes do dia a dia.
A confiança é maior entre trabalhadores com mais escolaridade, pessoas acima de 60 anos e quem recebe mais de dez salários mínimos. Na outra ponta, jovens de 16 a 24 anos e trabalhadores de menor renda demonstram mais insegurança em relação à permanência no mercado.
O quadro de desemprego baixo também tem impacto nas negociações salariais. Dados do Dieese mostram que, no primeiro trimestre de 2026, 91% dos reajustes salariais ficaram acima da inflação, com ganho real médio de 1,89%.
Para o economista Fernando Lima, supervisor técnico do Dieese em São Paulo, momentos de confiança elevada entre trabalhadores não são frequentes no país. Segundo ele, em geral, o medo de perder o emprego costuma pesar mais nas relações de trabalho.
A professora Renata Narita, da PUC-Rio, avalia que o avanço dos trabalhos por aplicativos também pode ajudar a explicar parte da sensação de segurança. Na análise dela, muitos trabalhadores enxergam nas plataformas uma alternativa rápida de renda em caso de perda do emprego formal.
A especialista pondera, no entanto, que essa percepção não significa, necessariamente, maior poder de negociação salarial. Em muitos casos, a renda obtida por aplicativos funciona mais como uma rede de apoio emergencial do que como uma alternativa estável e com melhores condições de trabalho.
Já a economista Bruna Mirelle Silva Alvarez, da USP, destaca que trabalhadores mais velhos tendem a se sentir mais protegidos por ocuparem posições mais consolidadas ou por estarem próximos da aposentadoria. Em alguns casos, a própria aposentadoria já aparece como uma fonte complementar de segurança.
A percepção de estabilidade também influencia o consumo das famílias. Segundo a economista, quando as pessoas têm menos medo de perder o emprego, tendem a assumir mais compromissos financeiros, especialmente em compras de bens duráveis e serviços de maior prazo.
Apesar do cenário favorável no mercado de trabalho, os dados mostram que a tranquilidade não é uniforme. Pesquisa anterior do Datafolha, divulgada em abril, apontou que quase metade dos brasileiros buscou alguma renda extra nos últimos meses, sobretudo entre quem recebe até dois salários mínimos.
O mesmo levantamento indicou que cerca de 60% dos entrevistados ainda enfrentam dificuldades para pagar todas as contas. Ou seja, mesmo com maior sensação de segurança no emprego, o orçamento familiar segue pressionado para uma parcela significativa da população.
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